domingo, 10 de julho de 2016

A DIDÁTICA DE FILÓSOFOS E FILÓSOFAS (Prof. José Antônio Brazão.)

A DIDÁTICA DE FILÓSOFOS E FILÓSOFAS: (Prof. José Antônio Brazão.)
Definindo DIDÁTICA, de um modo geral:

Definição 1:

didática

Significado de Didática

s.f. Arte de ensinar; o procedimento pelo qual o mundo da experiência e da cultura é transmitido pelo educador ao educando, nas escolas ou em obras especializadas.
Conjunto de teorias e técnicas relativas à transmissão do conhecimento.

Definição de Didática

Classe gramatical: substantivo feminino
Separação das sílabas: di-dá-ti-ca
Plural: didáticas

DICIO Dicionário Online de Português. Didática. Disponível em: http://www.dicio.com.br/didatica/ Acesso em 06 de julho de 2016.

Definição 2:

didática | s. f.

fem. sing. de didático

di·dá·ti·ca |át|

(francês didactique)

substantivo feminino

1. Arte de ensinar com método os princípios de uma ciência ou as regras e preceitos de uma arte.

2. Ciência que estuda os métodos e técnicas para ensinar.

3. Obra ou manual .didático.

Palavras relacionadas:

didático, didata, organotáctico, biotáctico, autodidática, inexato, mórfico-sintático

.di·dá·ti·co |át|

(grego didaktikós, -ê, -ón, apto para ensinar)

adjetivo

1. Próprio da .didática.

2. Que tem por fim instruir (ex.: unidade didática).

3. Que facilita o ensino ou a aprendizagem; que serve para ensinar ou aprender (ex.: jogos .didáticos).

4. Que procura educar ou ensinar (ex.: discurso .didático).

Palavras relacionadas:

didática, didaticamente, didata, organotáctico, autodidática, biotáctico, pedagógico

"didática", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/did%c3%a1tica [consultado em 06-07-2016].

 

Filósofos e filósofas não escrevem somente para seus pares (outros filósofos e filósofas). No transcurso dos mais de dois milênios da história da filosofia, houve filósofos e filósofas que tiveram uma preocupação em divulgar de uma forma que poderíamos chamar didática para um público leitor mais amplo e não tão preparado como discípulos e estudiosos. A didática é aplicação de métodos e recursos que podem propiciar um aprendizado maior de cada estudante. Portanto, ela volta-se para o ensino direto, seja numa escola, numa universidade ou ambiente formal de ensino. No entanto, o modo de escrever, de levar o conhecimento e as discussões que se encontram na filosofia pode ser comparado à didática. O que se quer aqui é apresentar, em linhas gerais, como o modo de transmissão de ideias, questões e discussões filosóficas, similar à didática, ocorreu em alguns pensadores, ao longo dos dois últimos 2,5 milênios, aproximadamente, e como isto pode apontar elementos que auxiliem a didática hoje, particularmente no ensino de Filosofia nas escolas.

Obs. 1: O que está em negrito e sublinhado são recursos que podem ser observados em cada tempo, comparáveis aos didáticos ou, de fato, didáticos. Obs. 2: Algumas dessas marcas são apenas reforços de alguns elementos importantes.

Aprender como filósofos e filósofas transmitiram e transmitem “didaticamente” as ideias filosóficas pode ser, efetivamente, muito valioso para o trabalho em sala de aula. Além da filosofia propriamente dita, feita por cada um(a), pode-se aprender algo mais: o jeito de transmitir o conhecimento próprio da filosofia. E, de fato, muitos deles e delas (filósofos e filósofas) souberam e sabem fazer tal transmissão, especialmente para um público maior e as pessoas comuns. É claro, não se quer aqui definir como acabado o que se diz de alguns recursos didáticos usados por filósofos, aqui apresentados. Cada filósofo(a) teve e tem recursos de transmissão da filosofia que vão além dos poucos expostos neste texto. E conhecer alguns de tais recursos pode ser de grande valor para o ensino-aprendizado de Filosofia nas escolas.

A começar pelos mitos sobre deusas, deuses e outros seres divinos, sobre suas ações e seus poderes. O poder dos mitos não advém somente do seu conteúdo, mas também do modo como eram transmitidos: por meio da palavra, das histórias daqueles que, “contando um conto, aumentavam um ponto” (ditado popular), num tempo em que a escrita ainda não era muito divulgada ou comum (e até bem antes da escrita) – sacerdotes, sacerdotisas, poetas, rapsodos, aedos, pais, mães, entre outros. Histórias que eram contadas com entusiasmo, histórias que deixavam estupefatos os que as ouviam, histórias que metiam medo nas crianças, sobre o Hades, as Górgonas, os Titãs e outros lugares ou seres divinos perigosos, sobre a criação do mundo e outros pontos religiosos.

Histórias míticas que eram reforçadas pelos cultos e por todos os aparatos neles contidos, os rituais, o passo a passo, as orações, procissões e outros meios usados para ligar homens, mulheres, deuses e deusas entre si. Histórias relatadas também pelo movimento do corpo, das mãos, dos gestos, do rosto e de suas feições, pela entonação das vozes e a emoção nelas contidas, imitando as ações dos seres divinos primordiais. Histórias repetidas, contadas, recontadas, aumentadas e revivenciadas, muitas e muitas vezes, no transcurso dos séculos e milênios, a cada vez que eram expostas. Histórias, com certeza, também carregadas de ideologia, mas histórias.

No início da filosofia, curiosamente, o meio didático de transmissão do pensamento filosófico foi o poema. Poemas contêm versos e estrofes, rimas! Muitos dos primeiros filósofos pré-socráticos, senão todos, fizeram uso desse artifício didático, no intuito de transmitir suas ideias filosóficas e suas descobertas, seu pensamento a respeito da realidade. Por que o poema? Naquele tempo, por volta dos séculos VII (7), VI (6) e V(5) antes de Cristo, histórias a respeito de deusas e deuses, da origem do mundo e dos seres já haviam sido postas na forma de poemas por aedos e rapsodos (antigos poetas, contadores e transmissores de histórias do mundo grego antigo), tendo por destaque Homero (Ilíada e Odisseia) e Hesíodo (Teogonia e Os Trabalhos e os Dias). Então, tratar da filosofia e das novas ideias que ela carregava a respeito do mundo por meio da poesia poderia ser um meio para a divulgação daquilo que pensaram os primeiros filósofos. Temos então a poesia como um recurso didático de exposição e divulgação do pensamento filosófico. Também a prosa.

Além dos pré-socráticos, houve também os sofistas. Para transmitir o que pensaram, além da prosa, davam aulas a respeito dos temas de que tratavam. Eles, de fato, foram professores itinerantes (que iam de um lugar a outro) no mundo grego, indo de uma cidade a outra oferecendo aulas, em troca de dinheiro, sobre temas que poderiam auxiliar a todos os desejosos de uma participação e de uma influência no âmbito político daquele tempo.

O sofista Górgias de Leontini, em seu Elogio a Helena, fez uso da defesa, expondo argumentos em defesa daquela que, por muitos daquele tempo, era mal vista, por ter se relacionado com um troiano, relação esta que desembocou na terrível Guerra de Troia e todos os males que com esta vieram. Na verdade, Górgias, ao fazer o papel de advogado de defesa daquela mulher, que aparece na Ilíada, de Homero, quis também demonstrar para seus leitores e alunos o quanto a destreza no discurso é capaz de levar ao convencimento das pessoas, quis mostrar o poder contido no discurso, nas palavras.

Sócrates, que viveu entre 469\468 e 399 a.C., filósofo que é tido como marco divisor na filosofia grega (pré-socráticos\pós-socráticos), fez uso do diálogo um recurso didático (recurso de ensino-aprendizagem), envolvendo a ironia e a maiêutica, na busca de levar seus interlocutores, incluindo pessoas comuns, a uma reflexão mais profunda sobre aquilo que, até então, era tido como verdade, permitindo-lhes descobrir incoerências e dando um passo reflexivo maior, para além daquilo que era dado e aprendido como certo.

A primeira etapa da didática socrática, a ironia, envolvia questionamentos seguidos, reforçados com outros após as respostas superficiais ou prontas dos interlocutores, obrigando-os a refletir sobre o que disseram, a descobrirem as incoerências de seus discursos, a verem que muitas das pretensas verdades em que acreditavam eram, na verdade, muitas delas, frutos da tradição social e da educação recebida e da pretensa (pretendida) autoridade de certas pessoas. A segunda etapa, ocorrida quando Sócrates percebia que o interlocutor (debatedor) entrara em muitas contradições e não conseguia sair delas, envolvia um movimento de descoberta, de reflexão e de busca de uma compreensão mais crítica dos conhecimentos recebidos e percepção de verdades interiores mais profundas: a maiêutica, arte de partejar ideias. Uma reflexão gestada a partir do interior da pessoa com a qual o diálogo era travado, fruto do repensar, do refletir, do desvelamento (tirada do véu) da realidade (em grego, verdade é aletheía, traduzida por desvelamento), com a descoberta de sofismas (raciocínios falsos aparentemente verdadeiros) e incoerências. Sócrates não gostava de dar respostas prontas. Fazia um movimento dialógico de problematização (ação de problematizar), ao longo do qual gestava-se e paria-se o novo.

Platão (séc. V\IV, 5\4, a.C.), seguindo os passos do mestre, também fez uso do diálogo como recurso didático. Além deste recurso, também fez uso do MITO. O mito é uma história, um relato. Por muitos séculos, o mito havia sido um meio de contar histórias a respeito de deusas, deuses e outros seres divinos (semideusas, semideuses, etc.). Platão, observando o poder didático do mito, soube fazer uso dele como instrumento de ensino-aprendizagem de filosofia. Em suas obras aparecem, com efeito, muitos mitos, dentre os quais alguns são bastante conhecidos, como o mito da caverna, o mito de Er, o mito do Andrógino e outros mais. O mito carrega consigo o poder da palavra e, fortemente aliado a esta, o poder da imagem. O mito mexe com a imaginação das pessoas, como o faziam os mitos sobre as divindades gregas (e também de outros povos). A imaginação é poderosíssima. Junto com ela e a palavra, a construção discursiva (dos discursos). Platão, como filósofo e professor (fundou a Academia, uma escola filosófica superior, em Atenas), como escritor, soube manejar, como poucos, a pena, no contar de histórias fantasiosas – histórias cheias de fantasia, imaginação e razão, de racionalidade –, de cunho eminentemente filosófico, com a finalidade de contribuir didaticamente para um entendimento maior do pensamento contido em sua filosofia.

Um exemplo clássico possível, dentre vários outros, da ironia e da maiêutica socráticas, assimiladas pelo grande discípulo de Sócrates, pode ser vistos em um livro de Platão. Em A República, no livro VII, Sócrates dialoga com Glauco, parente de Platão, a respeito de prisioneiros que se encontravam numa caverna, desde pequenos, presos de tal modo que só podiam olhar para a frente e para os lados, observando o que era passado no fundo da caverna: imagens em movimento, acompanhadas de sons, que davam aparência de serem verdades. Atrás deles e delas, pois eram homens, mulheres e crianças, havia um pequeno muro que separava os prisioneiros de pessoas que passavam pela caverna, carregando objetos em suas cabeças. Mais acima, perto da entrada, uma fogueira espargia (espalhava) sua luz pela caverna, que chocava-se contra os objetos nas cabeças, vindo a projetar suas sombras, em movimento, no fundo da caverna. As pessoas livres conversavam entre si e o reverberar de suas vozes dava aparência de serem vozes das sombras projetadas. Era um mundo sombrio e de aparências!

Certo dia, um dos prisioneiros foi liberto e obrigado a ter que sair. Com dificuldades, principalmente visuais, por conta do contato com a luz direta que emanada da fogueira, ao longo do caminho foi fazendo descobertas, a ver como era a realidade dentro da caverna: seus companheiros sentados e discutindo a respeito das sombras, a mureta, as pessoas que passavam por trás dela com objetos nas cabeças, o fogo da fogueira e a luz que projetava sombras, entre outras características da caverna e dos seres que nela estavam. Viu que tudo o que vira até então nada mais seriam do que sombras, pura aparência da verdade que lhe era desvelada no transcurso do caminho.

Na saída para fora da caverna, novo impacto, de uma luz ainda mais forte, a luz do Sol, mas também, devagar e progressivamente, foi descobrindo, às noites e durante os dias, um mundo novo, muito mais verdadeiro que que tudo o que, até tempos atrás, estava acostumado a ver. Enfim, depois de um bom tempo fora da caverna e bem acostumado a ver as belezas do mundo externo, o liberto resolveu voltar à caverna, passando por dificuldades de readaptação, até chegar a seus antigos companheiros, mas o comodismo e os interesses em jogo (havia gente que se beneficiava com as competições em torno dos seres passados na parede da caverna), acabaram não aceitando a proposta e, inclusive, pondo em risco a vida do liberto.

Essa história mítico-filosófica de Platão ilustra bem como este entendia a educação: um movimento, nada fácil, de saída progressiva da caverna, no decurso do qual a aparência dá lugar à verdade, a prisão dá lugar à liberdade, as sombras à luz, a ignorância ao conhecimento, sempre numa atitude de elevação da alma e de descoberta constante do novo e da verdade. A educação permite, com efeito, a descoberta de um mundo novo, de um modo novo de enxergar a vida e até de compreender-se a si mesmo – o liberto descobriu que fora prisioneiro das correntes e, principalmente, das ilusões contidas nas sombras, mas conseguiu, com muito esforço e, às vezes, com a tentação de desistir e voltar atrás, enxergar além e libertar-se. Eis, sem dúvida, um dos objetivos da educação. A saída do prisioneiro é um processo didático muito interessante: forçado a sair, a deixar de lado a antiga vida que levava, seguindo um caminho, em um percurso cheio de descobertas, a cada momento, o novo, na descoberta da verdade e do saber, enxergando, a toda hora, algo diferente, elevando-se cada vez mais, mas também preocupando-se com os outros e desejando liberta-los. A busca da verdade e do conhecimento verdadeiro é, como aí se pode perceber, um movimento de libertação, de quebra das ilusões e uma atitude altruísta (de preocupação com os outros e com sua libertação – aqui, no caso, a libertação das ilusões, de suas correntes e da ignorância). Socrático e didático por excelência!

Aristóteles, outro dos grandes filósofos gregos, senão o maior, oferecia, no Liceu (escola filosófica que, como seu mestre Platão, fundou em Atenas), aulas exotéricas (para um público maior, de pessoas menos entendidas em filosofia) e esotéricas (para seus alunos e iniciados no pensamento filosófico). Sem dúvida, as primeiras (exotéricas) deviam dispor de um linguajar mais comum e de mais fácil entendimento da filosofia, enquanto, nas segundas (esotéricas), um linguajar mais complexo. Mas havia, no segundo caso, para seus estudantes no Liceu, o recurso das aulas em passeios e caminhadas pelos espaços da escola. As pessoas, inclusive, conheciam os discípulos do Liceu como peripatéticos, palavra advinda do grego e que significa passeadores. E se o mito tinha um poder imaginário e discursivo muito forte, em Platão, que poder tinham os passeios dos peripatéticos do Liceu? O passeio sai do estilo tradicional de sala de aula ou de espaço fechado de ensino. Apesar de ser um pouco mais exigente, permite o oferecimento de exemplos extraídos da natureza, de experimentos simples (a física aristotélica fala, por exemplo, de lugares naturais – sendo lugar natural dos mais pesados embaixo e dos leves, acima–,  o que permite imaginar Aristóteles lançando pedras e pesos ou, pelo menos, apontando fatos que fundamentassem suas ideias físicas, de materiais e seres de que dispunham espaços do Liceu. E, se, realmente, há escritos de Aristóteles que são compilações de aulas, por conta do estilo de exposição, aquilo que ele fala de animais, plantas e outros seres vivos, teve embasamento em observações que ele fez e, com certeza, mostrou a seus estudantes.

Aurélio Agostinho, teólogo e filósofo cristão que viveu entre os séculos IV (4) e V (5) d.C., usou como recursos didáticos de exposição escrita de suas ideias, por exemplo, a confissão – tipo de obra em que fala de sua vida e das vicissitudes (idas e vindas, coisas boas e não tão boas) por ele vividas –, como no livro Confissões, e o diálogo, no estilo platônico, entre ele e seu filho Adeodato, no livro O Mestre (De Magistro). Veja o que foi dito a respeito do debate quando aqui se tratou de Platão. A confissão convida cada leitor(a) a mergulhar na reflexão, na meditação e no seu próprio interior, a fim de compreender o que as palavras dizem e o que para além delas é dito. Aurélio Agostinho, ademais, fala de um mestre interior (neste caso, Jesus, o fundador do cristianismo) que ensina e ilumina no caminho da verdade, ou seja, convida leitoras e leitores a buscar perceber, dentro de si e além, algo que ultrapassa o ensino comum, tradicional.

No século II (2) da era cristã, o filósofo Diógenes de Enoanda (cidade da região da Lícia, na Ásia Menor [atual Turquia]), rico discípulo de Epicuro de Samos, admirador das ideias deste e desejoso de que as gerações futuras pudessem também conhecer o pensamento do mestre, resolveu expor em um largo muro as principais ideias do epicurismo, relativas à moral, à física (estudo e compreensão da natureza). Foi o modo que encontrou de divulgar a filosofia epicurista. Com efeito, o epicurismo prega que o prazer, de modo equilibrado, deve ser buscado pelas pessoas todos os dias. Diz também que as pessoas não devem se preocupar com os deuses e deusas, que tudo é feito de átomos (ideia similar à de Leucipo e Demócrito, pré-socráticos), além de outras ideias. Por que um muro como instrumento didático do ensino de filosofia? As pessoas passam próximas a ele, quem sabia ler podia ler o conteúdo ali escrito em letras legíveis a certa distância, pessoas que porventura se reunissem para discutir e estudar aquelas ideias teriam um meio claro de leitura e releitura, bem visível a todos(as), e durável. Então, Diógenes de Enoanda atentou para a visibilidade, aliada à duração e a outro fator: a memória! Legível diaria ou quase diariamente, repetidamente, o conteúdo mais facilmente poderia entrar na memória das pessoas. Até mesmo quem não soubesse ler, curiosas, poderiam pedir alguém que lesse para elas! Daí se pode ver que a dimensão didática do muro estende-se para além dos limites do muro. Na verdade, Diógenes de Enoanda queria que, refletindo sobre os conteúdos presentes nas doutrinas epicuristas do muro pudessem vir a aplica-las e vivencia-las no dia a dia, transformando seu modo de encarar o mundo e a própria vida. Ademais, para quem não tinha acesso à filosofia fechada entre discípulos do filósofo tornava-se possível conhece-la e coloca-la em prática na vida: o muro estava aberto para que um número maior de pessoas o pudessem ver e ler.

Hipácia de Alexandria (século V d.C.), filósofa e matemática. Foi professora admirada e sabia usar bem os recursos de que dispunha para ensinar a filosofia e as ciências de que tinha conhecimento: objetos concretos (esferas, modelos astronômicos e matemáticos feitos de madeira, caixas de areia para a escrita, etc.), juntamente com livros em rolos feitos de papiro e pergaminho, copiados e recopiados, da e na famosa biblioteca de Alexandria, da qual a filósofa também fez parte, discussões em torno de temas candentes da filosofia, da política e do pensamento científico e geral de sua época, questionamentos e problematizações, exercícios, entre outros meios ou recursos didáticos. Dotada de grande cultura e habilidades excepcionais de ensino.

Tomás de Aquino (século XIII, 13, da era cristã) fez uso, além da exposição direta (oral) dos conteúdos, também de outros recursos didáticos comuns em seu tempo, nas escolas catedrais, monacais e universidades, como o debate, com posições contrárias (argumentos contra e argumentos a favor) e conclusões. Nas universidades havia ainda a leitura (o professor leitor lia o texto que, a seguir, era explicado (explicação) por um ou mais professores auxiliares e por ele mesmo). Um instrumento escrito muito didático de que fez uso foi a SUMA. As sumas são textos que trazem argumentos contra e a favor de um tema, tirando, ao final, soluções. Seguem bem um modo de debate comum naquela época no âmbito acadêmico. A Suma Teológica é o livro mais conhecido de Tomás de Aquino e traz aquele estilo de exposição. E como, naquele tempo, cópias eram feitas à mão, Tomás dispunha de auxiliares que faziam cópias do que escrevia e ditava, a fim de oferecer material de estudo para seus estudantes. Como se vê, até na elaboração dos textos que viriam a ser lidos por seus estudantes Tomás de Aquino tomou o cuidado de oferece-los de modo didático, sem perder a profundidade e o rigor que os mesmos textos demandavam, ainda que influenciado pela estrutura didática de ensino de seu tempo (debates, leituras orais, explicações a partir das leituras, defesa e contraposição de teses divergentes, demonstrações lógicas – lembrando aqui, a lógica formal aristotélica, principalmente – do conhecimento).

No mundo moderno, que vai, aproximadamente, dos séculos XV (15) e XVIII (18), alguns filósofos igualmente se preocuparam com os recursos didáticos de que fizeram uso em seus escritos, na procura da divulgação das ideias filosóficas e das novidades e descobertas de seu tempo, tanto no campo das ciências quanto no campo da filosofia propriamente dita. Inicialmente, podem ser apresentados Thomas More (Thomas Morus) e Francis Bacon. O primeiro escreveu Utopia, o segundo, A Nova Atlântida, no estilo de histórias de viajantes de seu tempo (épocas das grandes navegações e descobertas marítimas). Usam a imaginação e o intelecto, além da erudição simplificada para que mais pessoas pudessem entender. Imaginam ilhas (lugares e espaços) com sociedades muito avançadas e justas, pondo em crítica as sociedades europeias de seu tempo e as visões ultrapassadas de ciência e de mundo.

René Descartes (século XVII, 17) usou como instrumento de pesquisa e exposição a DÚVIDA, tanto como método (caminho) quanto exagero, radicalização (hiperbólica) – dúvida metódica e hiperbólica –, na busca da verdade, o que acabou levando-o à descoberta do Cogito e das verdades que a ele se seguiram. No campo do ensino, a dúvida pode ser e é um recurso didático precioso no trabalho de ensino-aprendizagem. Descartes soube usá-lo muito bem.

Blaise Pascal (1623 – 1662), filósofo francês, e Friedrich Nietzsche (século XIX, 19), alemão, fizeram uso dos aforismos, isto é, textos curtos e densos, na exposição de parte de suas ideias. Com certeza, um recurso didático. Nietzsche também fez uso do romance (obra mais ampla), como Assim Falou Zaratustra, que conta a história de um filósofo, Zaratustra, que, caminhando por diversos lugares, era o expositor do super-homem e do eterno retorno do mesmo.

No século XVIII (18), o filósofo iluminista Voltaire fez uso do conto filosófico (Cândido, Zadig, A Princesa da Babilônia, uma pluralidade de contos), a fim de levar a filosofia e a ciência, além das denúncias e sátiras, relativas ao seu tempo, para um público leitor mais amplo. Usou também o teatro, o dicionário (Dicionário Filosófico), além de cartas e outros meios de divulgação do pensamento filosófico, que são, sem sombra de dúvidas, também recursos didáticos, instrumentos ricos e poderosos de ensino-aprendizagem de filosofia. Nos contos mesclam-se a histórias de viajantes, a imaginação, a arte de contar histórias, a denúncia que leva à reflexão a respeito da realidade sócio-política, a criatividade). Voltaire, como Platão, More, Bacon e outros, soube fazer excelente uso da arte de contar histórias filosóficas. E como essa arte é tão necessária nos tempos de hoje!

Ainda no tempo de Voltaire, o também iluminista Jean-Jacques Rousseau fez uso da confissão, seguindo o exemplo de Agostinho, e escreveu romances, dos quais o mais conhecido e destacado é Emílio ou Da Educação, no qual faz uso do recurso didático da arte de contar histórias, trata do experimento prático (exemplo, o do ímã), da observação e do contato com a natureza, diretamente, como recursos de ensino-aprendizado, entre outros tantos que aparecem nessa magnífica obra filosófico-literária-educacional. No Emílio, a didática encontra-se também nas viagens, nos caminhos percorridos, nos percursos medidos, ao longo dos quais a percepção do mundo ia se abrindo, se alargando, com o diálogo, a troca de experiências entre mestre (Rousseau) e aprendiz (Emílio). Se Aristóteles passeava com seus alunos no Liceu, Rousseau caminhou imaginariamente com Emílio por caminhos diversos, num contato direto e profundo com o objeto primeiro de aprendizagem: o mundo. O uso dos sentidos e o seu aguçamento, o trabalho educativo com as mãos, entre outros elementos didáticos, aparecem claramente no referido livro. A partir do aprendizado direto do mundo, tempos depois, o aprendizado da leitura e da escrita.

Além de Nietzsche, no século XIX (19), já mencionado e exemplificado, um texto de Karl Marx e Friedrich Engels, muito conhecido, o Manifesto do Partido Comunista expõe, num linguajar que busca ser simples, sem ser simplório, para trabalhadores e até intelectuais, as principais ideias e descobertas deles a respeito da história e de sua estrutura dialética, da luta de classes, do capitalismo, do socialismo e temáticas a estes afins e de seu partido e suas lutas em favor de mudanças benéficas a trabalhadores e trabalhadoras. É um texto didático pela sua maneira de abordar os temas e pela linguagem usada, sem tecnicismo nem rigorismo. Didático igualmente no encadeamento das diferentes partes que compõem o opúsculo, formando uma certa unidade, capaz de ampliar os horizontes da visão de seus leitores e leitoras, trabalhadores(as), gente comum então (e depois) explorada pelo sistema capitalista. Marx e Engels também foram homens extremamente cultos, mas que souberam traduzir numa linguagem didática, para trabalhadores(as) e outros(as), o pensamento filosófico, econômico e histórico, traduzindo a dialética hegeliana na prática concreta da história.

Curiosamente, antes de Marx e Engels, o filósofo, também alemão, Hegel (George Wilhelm Friedrich Hegel) usou, em alguns momentos de seus pesados (densos) escritos, a ilustração, isto é, exemplo(s) prático(s) que poderia(m) ajudar na compreensão de suas ideias. A Dialética do Senhor e do Escravo, contida na Fenomenologia do Espírito, é um bom exemplo disto. Imagina dois homens que lutam entre si, um vence, um perde, mas aos quais o tempo e a relação com a natureza por meio do trabalho mostrarão uma dependência, síntese dos contrários, meio didático interessante para explicar exemplificando o que é dialética e o poder desta. O modo de tratar da dialética, com o exemplo de um senhor e um escravo, uma história imaginada, traz consigo um modo didático de ensinar, de falar ou tratar da filosofia, mais especificamente, da dialética.

A respeito de Hegel, um fato curioso é que, como professor, além de filósofo, conta-se que ele tinha uma capacidade muito grande de atrair estudantes para suas aulas. Schopenhauer, outro filósofo alemão, também foi professor na universidade em que Hegel ensinou, mas que não tinha (não teve) o mesmo público de Hegel. O estilo didático de ensino de Hegel, com certeza, devia ser muito rico, sabendo manejar bem as palavras, aliadas a uma vasta cultura de que dispunha, tornando-as um instrumento poderoso de comunicação de ideias filosóficas. Palavras que se constituíam em discursos ricos de uma oratória didática capaz de levar a um conhecimento claro a respeito das ideias filosóficas.

No século XX (20), Jean-Paul Sartre, em suas obras para um público maior, geral, como as peças teatrais e os romances, procurou transmitir as ideias básicas, essenciais, do existencialismo de um modo que muitas pessoas, leitoras, pudessem entender, assimilar, apelando para a razão e a imaginação, de modo a tornar-se melhor entendido. Modo que se compara ao da didática praticada nos processos de ensino-aprendizagem, modo rico de transmitir o conhecimento filosófico. Jean-Paul Sartre também fez uso de cartas, como forma de transmissão e esclarecimento de suas ideias.

Albert Camus (séc. XX [20]), outro filósofo francês, existencialista, de modo similar a Sartre, também expõe de uma maneira mais comum, em seus romances, a visão existencialista. Essa exposição é carregada da preocupação de ensinar e ensinar a cada leitor, de um modo inteligível (compreensível e claro), igualmente didático, com histórias, discussões, questionamentos e exemplos, as ideias e os valores que permeiam a visão existencialista de mundo.

No Brasil, um exemplo do século XX (20), Paulo Freire, nordestino, pensador da educação, filósofo e professor (inclusive professor universitário), fez largo uso de uma didática própria no seu método de ensino e alfabetização, chamado Método Paulo Freire. Começando pela leitura da vida, ou seja, da realidade concreta das comunidades e do contexto maior em que vivem, econômico, social, político e cultural, nos círculos de cultura eram expostas, inicialmente, situações diversas, vividas pelos trabalhadores e trabalhadoras em alfabetização. Algum tempo depois, inseriam-se as primeiras palavras, nascidas de um levantamento prévio, chamadas palavras geradoras – por exemplo: campo, plantio, colheita, comunidade, trabalho, hora-extra, entre muitas outras palavras, com as quais aquelas pessoas conviviam no dia a dia e das quais faziam um uso frequente. Fazia-se, então, uma leitura da vida e, com ela, a leitura da palavra, o aprendizado das palavras, a alfabetização em si, mas num constante diálogo com a leitura da vida. Junto com a leitura das palavras vinha a conscientização. Freire deixou muitos livros, riquíssimos, a respeito da educação, além de artigos e outros escritos.

Ainda que o trabalho didático com a formação de sílabas e de palavras não fuja do tradicional, há elementos didáticos do Método Paulo Freire que trazem mudanças e questionamentos profundos em termos de visão e compreensão do trabalho educacional:

(a)Pesquisa do universo vocabular: O grupo de educadores(as), ao chegar à comunidade que será alfabetizada, não traz cartilhas e livros prontos, acabados. Pelo contrário, fazem todo um trabalho de pesquisa e discussão conjunta e com a comunidade a respeito dos costumes, da realidade, do mundo do trabalho, da exploração a que as pessoas estão sujeitas no trabalho, etc., buscando em suas falas palavras e expressões que são comuns, relacionadas a essas realidades.

(b)O levantamento das palavras geradoras: A pesquisa inicial do universo vocabular leva ao levantamento de palavras geradoras, isto é, de palavras da própria comunidade que virão a servir como material gerador das discussões nos círculos de cultura, bem como a desenhos e palavras escritas no quadro ou em cartazes após os debates naqueles círculos. As palavras são obtidas através de conversas com as pessoas da comunidade, em debates com grupos que dela fazem parte, com o auxílio de gravações em gravador ou anotações e, enfim, escolhidas e definidas pelo grupo de educadores-educandos. Palavras carregadas de sentidos vitais e da experiência cotidiana das pessoas da comunidade de educandos-educadores.

(c)O círculo de cultura: Em vez da sala de aula tradicional, com todas as carteiras enfileiradas, o Método Paulo Freire propõe o círculo de cultura, que pode ser em um salão paroquial, em alguma sala da comunidade, em um espaço disponível ou até mesmo em qualquer espaço que permita o trabalho educativo. Círculo, porque as pessoas educandas e educadoras são postas em roda, de tal modo que possam olhar diretamente nos olhos de todas as outras e com elas falar da vida, problematizar a vida, aprender e educar ao mesmo tempo. De cultura: não uma cultura livresca, definida de cima para baixo, mas aquela cultura que se encontra na vida da comunidade, a cultura da comunidade, do povo, juntamente com a cultura geral, da humanidade, relida a partir das situações concretas vividas pelas pessoas e das contradições socioeconômicas.

(d)A leitura da vida e da realidade em que ela está envolta: No círculo de cultura, antes de aprender a fazer a leitura da palavra escrita, as pessoas educandas e educadoras falam da vida, tratam de temas relacionados ao seu dia a dia, adentrando nos aspectos econômico, social, político, cultural e outros, pondo assim em questionamento e problematização os fundamentos injustos da realidade por elas vivida.

(e)A leitura da palavra, que se segue à leitura da vida: Feita, por algum tempo, a leitura da vida, segue-se a leitura da palavra propriamente dita. Uma palavra geradora é apresentada, posta em discussão, desmontada e remontada, com suas sílabas e seus fonemas, permitindo que cada participante possa ver que o aprendizado do ato de ler não é estanque, separado, do viver concreto e nas lutas do dia a dia, mas que neste se insere e com ele dialoga. Uma palavra segue a outra, possibilitando a formação maior de frases, ideias, textos.

(f)Conscientização: Tomada a consciência coletiva da vida e de suas contradições e de seus fundamentos reais, injustos, é hora de agir (conscientiza + ação), buscando coletivamente transformar a realidade, fazendo um movimento dialético contínuo entre  o aprendizado consciente e a transformação da realidade onde se toda a comunidade se encontra.

Há outros elementos didáticos. Os seis citados são alguns desses elementos. Um estudo mais pormenorizado dos livros de Paulo Freire pode ajudar na observação e obtenção de outros elementos e recursos didáticos do referido método. Há livros de autores e autoras que também tratam de Paulo Freire. E há livros escritos por ele que relatam experiências interessantes de alfabetização de adultos tanto no Brasil quanto em outros lugares onde Freire trabalhou (p. ex.: no Chile). Na internet encontra-se muita coisa sobre ele. Um site interessante que pode ser pesquisado é o Paulo Freire: Projeto Memória, em: http://www.projetomemoria.art.br/PauloFreire/biografia/05_biografia_exilio.html .

O Método Paulo Freire foi fruto de influências históricas efetivamente vividas por seu criador, como a observação da situação da classe trabalhadora, do conhecimento e das vivências de cada educador(a), da bagagem cultural de educadores(a), do desejo de transformação da realidade, das leituras freireanas do pensamento marxista, do pensamento cristão (Paulo Freire era católico, cristão), do conhecimento da dialética etc.

Viviane Mosé (nascida em 1964), entre as décadas de 1990 e 2000, trabalhou em um programa de televisão (Fantástico, da Rede Globo), aos domingos, com o quadro SER OU NÃO SER (audiovisual), no qual tratou de maneira muito didática da história da filosofia, desde a antiguidade até o século XX, além de questões filosóficas, como a ética, a política. Os vídeos dessa série encontram-se, hoje, no Youtube, na internet. Forma interessante de exposição do pensamento filosófico, o audiovisual exige trabalho em equipe (é claro, no caso do quadro, a equipe era grande), levantamento de imagens, por meio de fotografias e gravações, recursos de som e outros tantos. Porém, o resultado de todo esse trabalho valeu a pena: a transmissão, de uma maneira diferente do comum, do pensamento filosófico para uma grande parte da população, a nível nacional. Além de filósofa, Mosé é professora universitária e escritora. Uma dica: o trabalho com vídeo também é possível ser feito em sala de aula. Há recursos de vídeo, nos computadores, que permitem a elaboração. Demanda trabalho em grupos e muita pesquisa, empenho redobrado de todas as pessoas envolvidas (estudantes, professor, professora, dinamizador[a] de tecnologias educacionais, caso haja este[a] na escola).

Possuidores de grande cultura e de erudição, muitos(as) dos(as) filósofos(as) mencionados, além de outros(as) aqui não expostos(as), souberam conciliar a vastidão dos conhecimentos ao modo didático de os expor, de os apresentar. Exemplos muito atuais do que é preciso que seja feito por profissionais da educação, no Brasil e em todo o mundo, por professoras e professores de Filosofia. Há, com grande certeza, muito que aprender com a didática de filósofos e filósofas, por meio de leituras diretas dos livros destes(as), da observação atenta do modo como procuram transmitir didaticamente o conhecimentos e os valores próprios da filosofia, em cada época da história. E aplicar em sala de aula. Cultura e erudição são algo a que cada professor(a), tanto de Filosofia quanto de quaisquer componentes curriculares (matérias escolares), pode ter acesso e que deve ser, indubitavelmente, buscado diariamente, juntamente com uma preocupação constante no saber transmitir os conhecimentos e, muito mais que a transmissão, fazer reflexões sobre eles, questionando-os, problematizando-os. A filosofia é arte da reflexão, da crítica (problematização, questionamento). A reflexão e a crítica estiveram e estão muitíssimo presentes no pensamento filosófico e na história da filosofia, a cada época, em cada século.

A reflexão e a crítica, por sua vez, são frutos de observações, do aprendizado, do conhecimento e de questionamentos postos diante do mundo e das verdades comumente aceitas como acabadas ou secularmente tidas como fatos incontestáveis. A observação aguçada, a curiosidade e a crítica (problematização, questionamento), junto com as novas condições históricas, contribuíram eficazmente para que filósofos de diversos cantos das antigas colônias gregas pusessem em dúvida as verdades até então contidas e aceitas nos mitos e asseguradas pela religião politeísta grega. O debate em torno de ideias de Hegel e da Economia Política, juntamente com as condições históricas do capitalismo em expansão no século XIX (19), com a exploração de trabalhadores(as) e até mesmo de crianças, contribuíram para o estudo mais acurado, a investigação e a crítica (problematização, questionamento) fossem levados avante por Karl Marx e Friedrich Engels a respeito do capitalismo, suas bases e sobre a história humana, surgindo daí as conclusões a respeito de modos de produção, mais valia, entre outros elementos do mundo econômico, político e ideológico.

Muitas vezes, estudamos os filósofos e as filósofas sob a luz das teorias que escreveram e ideias que defenderam. Mas também se pode observar, ao ler cada um(a) deles(as), que dispõem de um modo de expressar-se para públicos restritos (intelectuais) e públicos gerais (pessoas comuns). E, nos dois casos, pode-se observar uma preocupação "didática", isto é, no modo de transmitir e compartilhar os conhecimentos filosóficos. Uma didática que tem por fim o aprendizado e uma maior compreensão de quem lê, comparável, de certa maneira, à preocupação didática de educadoras e educadores de diversos tempos e de hoje. Há, com grande certeza, muito que aprender com os filósofos e as filósofas de todos os tempos: desde o que escreviam até a didática que usaram e usam para exprimir seu pensamento filosófico, suas reflexões sobre o mundo circundante e a realidade humana.

Curiosamente, a tal didática na transmissão das ideias filosóficas não é pura invenção do filósofo, da filósofa, mas um recurso que pode nascer do modo de ensinar de seu tempo – Tomás de Aquino, por exemplo, fez uso da estrutura argumentativa de debates universitários, filosóficos e teológicos, de seu tempo – ou criticando-o, como ocorre, por exemplo, em Rousseau, que busca fugir da didática tradicional e rígida de sua época, ou usando modos de escrever expressivos e chamativos que aparecem em poetas e escritores, como é o caso de Thomas More e de Francis Bacon, que tratam de viagens de navegantes por terras novas, desconhecidas e civilizações justas e muito avançadas, foram influenciados pelo seu tempo histórico, com as grandes navegações e o Renascimento cultural-científico, além de escritores antigos e próximos, que descreveram viagens fantásticas e até imaginárias.

Voltaire foi fortemente influenciado até mesmo por fatos de sua própria vida – volta e meia tinha que viajar para algum lugar, seja fugindo de perseguições, como a ida à Inglaterra, onde esteve exilado por um tempo, seja por convite, como quando aceitou um convite do rei Frederico II, da Prússia, entre outras. O texto “didático” do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, nasceu de uma solicitação do Partido Comunista, do qual fizeram parte, escrito para que trabalhadores e trabalhadoras pudessem compreender melhor as ideias comunistas e suas propostas de mudança. E assim por diante.  

Os modos didáticos de transmissão do pensamento filosófico, isto é, de filósofos e filósofas, enraízam-se, como se pode ver, em condições determinadas, contudo, seguramente, são carregados de algo novo – novas ideias, novas reflexões, novos questionamentos, novos problemas aos quais se propõem responder, um novo modo de ver as coisas, de ver e interpretar o mundo e a realidade humana. Modos didáticos de ensino-aprendizagem de filosofia que podem ser aprendidos, revistos e discutidos, ainda hoje, por professoras e professores de filosofia das escolas de nosso tempo. Didática que pode, inclusive, enriquecer o ensino-aprendizado escolar da Filosofia!
 
MATERIAL PESQUISADO:

DICIO Dicionário Online de Português. Didática. Disponível em: http://www.dicio.com.br/didatica/ Acesso em 06 de julho de 2016.

 

"didática", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/did%c3%a1tica [consultado em 06-07-2016].

NOVA CULTURAL. OS PENSADORES: Pré-Socráticos, Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, (Thomas) More, Francis Bacon, René Descartes, Pascal, Jean-Jacques Rousseau, Hegel, Nietzsche, Marx. São Paulo, Nova Cultural, 1996. (Coleção Os Pensadores.)

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade, Extensão ou comunicação?, Medo e Ousadia, e outros. Disponíveis, gratuitamente, em PDF, em: http://bibliotecauergs.blogspot.com.br/2011/05/livros-de-paulo-freire-disponiveis-para.html Acessos ao longo de junho e julho de 2016.

MOSÉ, Viviane. Ser ou Não Ser? Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rHp5GXpbd0Q > Acesso em 10 de julho de 2016.

VOLTAIRE. Contos. São Paulo, Abril Cultural, 2002.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000022.pdf> Acesso em 10 de julho de 2016.

WIKIPÉDIA. Hipátia Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%A1tia> Acesso em 08 de julho de 2016.

sábado, 2 de julho de 2016

ARQUIÇÃO ORAL (OU SABATINA) NO ENSINO DE FILOSOFIA (Prof. José Antônio Brazão.)

Arguição é a ação de arguir, isto é, perguntar, questionar, a respeito de algo. Aqui, a respeito de conteúdos aprendidos ou em aprendizagem na Filosofia. É um conjunto de questões, adequadamente elaboradas e apresentadas às e aos estudantes, buscando extrair delas e deles o entendimento a respeito de um assunto ou tema estudado, de um texto, de uma questão filosófica, entre outros. As questões, de um modo geral, não deverão ser mostradas previamente a cada estudante.

A professora e o professor de Filosofia podem usar a arguição como mais um meio ou recurso de aprendizado em sala de aula. Na verdade, geralmente, é usado como instrumento de avaliação. Com certeza, também pode ser útil à avaliação do aprendizado estudantil na área de Filosofia, tendo sido, no passado, aplicada muito mais  amplamente nas escolas.

A maioria das avaliações que ocorrem dentro das escolas costuma ser de provas e exames escritos ou exercícios. A arguição oral pode vir a ser um complemento muito valioso a tais provas. Aliás, não precisa ser aplicada necessariamente como avaliação. Aqui ela é proposta como um recurso didático, como um exercício enriquecedor do aprendizado de Filosofia. Reafirmando, arguição é um conjunto de perguntas, feitas pelo(a) professor(a), a fim de buscar, de dentro de cada estudante arguido(a), conhecimentos determinados. O que a arguição exige? Atenção redobrada em sala de aula, leitura(s), estudos, resolução de exercícios, memória (boa memória). Demanda preparo, tanto do material, quanto de cada estudante, quanto do(a) professor(a) de Filosofia, quanto do ambiente (é preciso silêncio para ouvir cada colega que passa pela arguição).

A leitura do material sobre o qual haverá a arguição, no campo da Filosofia, pode ser um texto de filósofo(a), um texto de história da Filosofia, um livro de filosofia ou da história desta adequado à idade de cada estudante, algum capítulo do livro didático de Filosofia usado na escola ou outro meio que possa ser útil ao ensino-aprendizagem de Filosofia. Pode ser um texto estudado e lido em sala de aula, a seguida arguido. Neste caso, por conta do tempo, o melhor meio pode ser o sorteio de estudantes da turma que passarão pela arguição (por exemplo: cinco ou conforme o tempo disponível). Pode ser um texto de outra matéria escolar que dialogue interdisciplinarmente com a Filosofia. Um texto de jornal, contendo matéria de interesse para a Filosofia e que com ela possa dialogar. Outros materiais (p. ex.: textos de revistas úteis ao ensino filosófico). Pode ser também sobre uma pesquisa básica ou um pouco mais avançada, proposta dentro de um tempo determinado. Sobre um projeto de estudo ou pesquisa em Filosofia. Enfim, as possibilidades são muitas e variadas. A arguição deve ocorrer conforme cada tipo de atividade proposta (leitura textual, pesquisa, projeto, entre outras).

A arguição a respeito de um livro básico de Filosofia ou que dialogue com este conteúdo curricular pode ajudar bastante. Ver o capítulo que trata de leituras de livros básicos de Filosofia aplicáveis ao ensino médio. Por exemplo: um conto filosófico de Voltaire, a Utopia de Thomas More, O Príncipe de Maquiavel, entre outros.

Uma outra vantagem da arguição é que a turma ouve e aprende, além de cada estudante aprender individualmente.  Para tanto, é claro, é preciso que todos(as) respeitem os(as) colegas que tiverem passado pela arguição, mesmo porque deverão passar pela mesma experiência.

Outro termo, similar à arguição, é sabatina. De acordo com o Dicionário de Língua Portuguesa PRIBERAM, Sabatina:

“sabatina | s. f.

Sabia qe consultar o significado de qualquer palavra abaixo com um clique. Experimente!


sa·ba·ti·na
(feminino de sabatino)

substantivo feminino

substantivo feminino

1. [Antigo]   [Antigo]  Controvérsia que nos sábados havia nas aulas de Teologia e de Filosofia.

2. Recapitulação das matérias estudadas sendo .arguentes e defendentes os próprios estudantes.

3. [Liturgia]   [Liturgia]  Reza do sábado.

4. [Figurado]   [Figurado]  Discussão, questão.



sa·ba·ti·nar -

verbo transitivo

verbo transitivo

1. Submeter a sabatina.

2. Relembrar matérias estudadas. = RECAPITULAR, REVER

3. Fazer o resumo de. = RESUMIR

verbo intransitivo

verbo intransitivo

4. Discutir miudamente, recorrendo a cavilações ou sofismas.”


"sabatina", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,
https://www.priberam.pt/DLPO/sabatina [consultado em 01-07-2016].


A sabatina é uma arguição mais elaborada e exigente, geralmente mais rigorosa. A arguição, aqui proposta, é mais simples. Pode ser complexificada, conforme cada turma e as condições de possibilidade. Precisa ser comunicada, em caso de estudo em casa. Uma possibilidade é que, por exemplo, em sala de aula, seja proposta a leitura de um texto, que seja do livro didático ou outro relacionado à Filosofia, de tamanho adequado para o tempo, mais ou menos complexo de se entender, de acordo igualmente com o tempo. Para uma aula de cinquenta minutos, por exemplo, a leitura do referido texto em quinze ou vinte minutos, se for de uma página, e, a seguir, a arguição, por trinta e cinco ou trinta minutos, sorteando alguns(mas) que passarão por ela.

É fundamental lembrar, professor(a) de Filosofia, que a arguição não pode ser usada como punição, nem muito menos expor estudantes a situações vexatórias (de envergonhamento). Nem permitir que se transforme em bullying (violência psicológica). É, na verdade, uma oportunidade que pode ser extremamente positiva para o aprendizado de Filosofia e das ideias que a embasam. Portanto, é preciso deixar cada estudante relativamente tranquilo(a). Uma boa conversa antes, com toda a turma, pode ajudar muito!

Além de perguntas diretas a respeito do conteúdo textual ou do conteúdo de aulas anteriores ou do livro, sugere-se aqui também solicitar exemplos e esclarecimentos, a fim de perceber o quanto cada estudante (e a turma, como um todo) entendeu(ram) do conteúdo arguido ou sabatinado. E pedir para que os exemplos dados igualmente sejam esclarecidos, relacionando-os ao conteúdo.

Na aula seguinte à da arguição ou, se der tempo, na própria aula, aproveitar para discutir o que foi arguido, buscando e propondo maiores esclarecimentos e uma melhor compreensão do conteúdo arguido. Então, o espaço para a fala amplia-se, permitindo que cada um(a) dê sua opinião. A discussão reforça a aprendizagem, sem dúvida nenhuma.

Esta atividade apresenta como uma das vantagens o estudo em casa mais detalhado ou em sala de aula, como no caso dos, caso a arguição venha a ser feita após tal estudo e o tendo demandado ou um reforço positivo dos estudos em sala de aula.

Veja o texto a seguir, como um exemplo simples, extraído do livro Dicionário Filosófico, do filósofo iluminista Voltaire. O Dicionário Filosófico pode ser encontrado no site Domínio Público e baixado gratuitamente. O tamanho da letra foi mantido.

“LEIS CIVIS E ECLESIÁSTICAS

Foram encontradas nos papéis dos jurisconsultos estas notas, que talvez mereçam um pouco de exame.

Que jamais lei eclesiástica alguma seja válida senão mediante sanção expressa do governo. Foi desse modo que Atenas e Roma nunca tiveram querelas religiosas. Tais litígios são patrimônio das nações bárbaras ou transformadas em bárbaras.

Que apenas o magistrado possa permitir ou proibir o trabalho nos dias de festa, pois não cabe aos padres proibir aos indivíduos o cultivo de seus campos.

Que tudo o que concerne aos casamentos dependa exclusivamente do magistrado, e que os padres se atenham à augusta função de os abençoar.

Que o padre interessado seja puramente um objeto da lei civil, porquanto apenas ela preside, ao comércio.

Que todos os eclesiásticos sejam submetidos em todos os casos ao governo, porquanto são súditos do estado.

Que em tempo algum se cometa o ato ridículo e indecoroso de pagar a um padre estrangeiro a primeira anualidade da renda de uma terra que cidadãos deram a um padre concidadão.

Que padre algum jamais possa subtrair a um cidadão a mínima prerrogativa, sob pretexto de que tal cidadão seja um pecador, pois o padre pecador deve rezar pelos pecadores e não julgá-los.

Que os magistrados, os lavradores e os padres paguem igualmente os impostos do estado, pois todos pertencem igualmente ao estado.

Que não haja senão um peso, uma medida, um costume.

Que os suplícios dos criminosos sejam úteis, um homem enforcado não serve para nada, e um homem condenado aos trabalhos públicos ainda serve à pátria, constituindo uma lição viva.

Que toda lei seja clara, uniforme, precisa: interpretá-la é quase sempre corrompê-la.

Que nada, a não ser o vício, seja infame.

Que os impostos sejam sempre proporcionais.

Que a lei jamais esteja em contradição com o uso: porque se o uso é bom, a lei nada vale.” (IN: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000022.pdf)

Citação completa:

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. In: PORTAL DOMÍNIO PÚBLICO. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000022.pdf Acesso em 01 de junho de 2016.

Possíveis questões que podem ser propostas para a arguição:

(1)O que são leis civis? Dê um exemplo atual.

(2)O que são leis eclesiásticas? Dê um exemplo.

(3)O que Voltaire quer dizer ou para o que ele quer chamar a atenção das pessoas quando diz: “Que jamais lei eclesiástica alguma seja válida senão mediante sanção expressa do governo. Foi desse modo que Atenas e Roma nunca tiveram querelas religiosas. Tais litígios são patrimônio das nações bárbaras ou transformadas em bárbaras.” (Idem, verbete Leis Civis e Eclesiásticas).

(4)O que Voltaire quer dizer ou para o que ele quer chamar a atenção das pessoas quando afirma: “Que tudo o que concerne aos casamentos dependa exclusivamente do magistrado, e que os padres se atenham à augusta função de os abençoar.” (Ibid.). E em que isto contradiz as normas religiosas (eclesiásticas) cristãs e de outras religiões do passado e do presente?

(5)O que Voltaire quer dizer ou para o que ele quer chamar a atenção das pessoas quando afirma: “Que padre algum jamais possa subtrair a um cidadão a mínima prerrogativa, sob pretexto de que tal cidadão seja um pecador, pois o padre pecador deve rezar pelos pecadores e não julgá-los.”? (Ibidem.)

(6)Como, no texto, a lei civil contradiz o pensamento religioso contido nas leis eclesiásticas?

(7)Quando defende a primazia (colocação à frente...) do direito da lei civil sobre a lei eclesiástica, o que Voltaire pode estar desejando?

(8)Como você vê a intromissão da lei religiosa sobre a civil e desta sobre aquela? É certa tal intromissão ou errada? Por quê?

(9)Hoje existe ainda alguma intromissão de leis eclesiásticas (religiosas, de igrejas) sobre as civis (ou vice-versa)? Dê exemplos possíveis.

(10)No pensamento iluminista, grande valor era dado à razão humana (intelecto humano), razão capaz, inclusive, de formular leis, fazer ciência, entre outras coisas, sem necessidade do divino e dos conceitos religiosos. Em que base estão fundados os conceitos (ideias concebidas, formuladas) religiosos (das religiões), eclesiásticos (das igrejas)? E a razão?

 (11)Fazendo uma ponte com a História: Que interesse havia nessa divisão de poderes para a burguesia, então (naquele tempo do século XVIII) já fortalecida e interessada no poder? (Para que cada estudante tenha condições de fazer a ponte entre a Filosofia e a História, é bom propor uma leitura prévia de algum capítulo do livro de História que fale do Iluminismo e até mesmo da Revolução Francesa. Fica aqui a sugestão.)

(12)Em sua opinião, a reflexão filosófica de Voltaire sobre as leis civis e as religiosas é ainda atual ou já não tem qualquer utilidade? Por quê? Apresente uma(s) justificativa(s) para sua resposta.

Outras questões, com certeza, poderão ser elaboradas, exploradas.

No caso de questões longas, a sugestão que fica é que possam ser emprestadas para que o(a) estudante arguido(a) tenha um tempinho para assimilar cada questão e, assim, poder responde-la(s).

A arguição poderá ocorrer uma vez por mês ou uma vez a cada bimestre, dando tempo para a elaboração de cada proposta. No caso da leitura de um livro filosófico ou literário com algum conteúdo filosófico, dá tempo para sua leitura e impede que se tenha desculpas para que não seja lido. A arguição é mais um recurso didático que pode ser útil para professor(a) de Filosofia, bem como a quaisquer outros, no trabalho de ensino-aprendizagem.

Há estudantes que não gostam de ficar de pé, em momentos de arguição. Assim sendo, é possível que a arguição possa ser feita com elas e eles sentados em suas respectivas cadeiras, em posição tradicional da disposição da sala de aula ou em roda. Dependerá de cada estudante, pois há aquelas e aqueles que não se importam. O clima para a arguição, como foi exposto e vale ser relembrado, surge de uma boa conversa com cada turma, no respeito e na busca do aprendizado de Filosofia (aliás, de qualquer componente curricular).

As questões não devem ser as mesmas para todos(as) os(as) estudantes arguidos(as), pois facilita para quem ainda não tenha passado pela arguição. Mas, aqui e ali, entre uma e outra arguição, pode ser repetida uma ou outra questão, mesmo porque isto pode ajudar a prender a atenção da turma. Sabendo que alguma questão possa vir a ser repetida, os ouvidos serão postos em atitude de redobrada atenção!

Benefícios da arguição que podem ser postos para cada turma de estudantes:

(1)Desenvolve e potencializa (treina e até aumenta) a memória.

(2)Treina a concentração, tanto nos estudos (leituras, aulas, vídeos e outros materiais e meios de transmissão de conhecimentos) quanto na exposição, durante a arguição propriamente dita.

(3)Desenvolve a atenção! Logo acima foi dito da repetição de uma ou outra questão para alguns(mas) estudantes. A atenção ajuda, por sua vez, muitíssimo, no aprendizado.

(4)Aprendizado de Filosofia. Conseguindo aplicar este recurso ou técnica didática(o), muito seguramente o aprendizado pode ser maior. Aprender filosofia é o que aqui se quer que cada estudante faça.

(5)Aplicação dos conhecimentos em situações. Há questões em que o conhecimento contido no texto, no vídeo, no recurso complementar usado, é aplicado, por meio de exemplos solicitados e da atualização (busca da atualidade) das ideias ali presentes. Neste sentido, as questões não são mero decoreba de informações filosóficas.

(6)No diálogo interdisciplinar com outras matérias escolares, a percepção do conhecimento como um todo não estanque (não separado): ao mesmo tempo em que é filosófico, também é histórico, geográfico, químico, etc.

Quanto ao que foi dito a respeito do decoreba e da mera repetição vazia de ideias de pensadores(as), para evita-los é preciso que cada estudante aprenda a refletir sobre tais ideias, podendo concordar ou discordar delas. A concordância e a discordância, frutos da reflexão e da análise, são algo que pode e deve ser incentivado na arguição filosófica. Logo, professor(a) de Filosofia, tenha cuidado para não cair na tentação de elaborar questões puramente formais a respeito do conteúdo ou material em estudo. Aliado ao debate\discussão que se segue, o conjunto da arguição é reforçado e muitíssimo enriquecido.

Um diálogo rico e muito fecundo pode ser aberto com a História, a Geografia, a Língua Portuguesa, além de outras matérias, da área de Humanidades ou quaisquer outras. Veja a questão 11, proposta na arguição do texto Leis Civis e Eclesiásticas, do Dicionário Filosófico, de Voltaire. Isto pode mostrar, mui acertadamente, a riqueza e a diversidade de visões a respeito de ideias e conhecimentos produzidos pelos seres humanos. Outro benefício possível da arguição e de quaisquer recursos didáticos em que se faça um trabalho interdisciplinar.

Ao final da arguição e do debate, professor(a), complemente e enriqueça, faça agradecimento pela aceitação da proposta de arguição e pela participação nela. Elogie!