sexta-feira, 5 de maio de 2017

O TURBILHÃO DE DEMÓCRITO (Prof. José Antônio Brazão.)

Ver um artigo anterior, por mim escrito, sobre Leucipo, Demócrito e Epicuro, neste site.
O fragmento doxográfico 1, referente a Demócrito, citado por Gerd Bornheim, na sequência em que fala dos átomos como princípio(s) de tudo, diz, em um pequeno trecho: “(...) Os átomos são ilimitados em grandeza e número e são arrastados com o todo em um turbilhão. (...) Tudo se faz por necessidade; sendo o turbilhão causa da gênese de tudo, ele o chama necessidade.(...)” (Frag. Doxogr. 1 de Demócrito, apud BORNHEIM, 1996, p. 124). Tudo é formado por átomos, minúsculas partículas (partezinhas) de matéria que se encaixam de modos diversos, em diferentes combinações, formando todos os seres. No início de tudo, os átomos encontravam-se em um turbilhão.
Turbilhão é um redemoinho, como os redemoinhos formados pelo ar, alguns dos quais pequenos e outros gigantes, a ponto de destruir casas e devastar cidades. Turbilhões ou redemoinhos também se formam na água. Mas por que um turbilhão na origem de tudo?
Vamos refletir um pouco.
Um redemoinho comum, daqueles que levantam a poeira em dias secos, carrega consigo a matérias mais leves, como poeira, folhas, partículas dos mais diversos tipos. Um redemoinho (turbilhão) gigante (tornado, por exemplo), como os capazes de destruir casas, carregam materiais os mais diversos também, como poeira, madeira, telhados e muitas outras coisas, dependendo do tamanho, até gente! O turbilhão de Demócrito, que deu origem ao cosmos (universo), carregava consigo os átomos que a este viriam formar, com seus seres dos mais diferentes tipos. A medir pelo tamanho do universo, um turbilhão imenso!
Todo turbilhão é composto de matéria – um turbilhão de ar, comum, é composto por este, um turbilhão de água, por esta. A matéria primordial era composta de átomos. A atual também. Nos primórdios, um turbilhão de átomos!
Todo turbilhão está em movimento. Ora, o movimento é uma marca das ideias de Heráclito, um dos filósofos pré-socráticos, como Demócrito. Os átomos, por sua vez, são eternos, além de serem ilimitados. A eternidade era um atributo do ser de Parmênides. Demócrito soube aliar bem o pensamento do devir e da permanência.
E “na origem de todas as coisas estão os átomos e o vazio” (mesmo fragmento, no início). Imagine um copo vazio, no qual estejam leite em pó, um pouco de canela em pó, um pouco de chocolate e água. Deixe tudo ali quieto. Que efeito produz esse material? Se você beber, sentirá o gosto da água pura (certamente morna), bem como outros gostos dos materiais que com ela estão no copo. Mas movimente o copo bem ou mexa com uma colher, até que tudo se misture e forme um composto homogêneo. Eis que surge uma combinação muito gostosa. Então, tem-se o vazio do copo, no qual estão postos os materiais, mas algo mais foi necessário: um movimento de sacudidela ou do movimento da colher, um pequeno turbilhão!
É claro, o movimento que deu origem ao cosmos não surgiu dos deuses e deusas, como o de alguém que sacudiu e girou o copo ou mexeu a colher em movimentos circulares - de pequeno turbilhão - para formar aquela mistura deliciosa. O movimento é inerente ao universo, ao cosmos, como acreditava Heráclito. Um movimento, no caso de Demócrito, que teve a capacidade de misturar os átomos e provocar combinações diversas, a partir de seus encaixes  - os átomos de Demócrito se encaixavam, como uma peça de Lego se encaixa em outra, algo parecido.
Mas também o movimento diminui, ainda que continue existindo. Um redemoinho de ar para, mas o ar continua em movimento! E os átomos têm a capacidade de combinar-se e recombinar-se, em tudo havendo o movimento (o devir heracliteano). Se não reduzisse, não haveria o cosmos (a harmonia, a ordem), universo. Parar? Não. O movimento (o devir) é permanente: o vazio é constantemente ocupado, desocupado e reocupado – ele ainda existe e continuará existindo, junto com os átomos. As pessoas, formadas por átomos, se movimentam; o ar, formado de átomos, se movimenta; os planetas e as estrelas, no sistema geocêntrico do tempo de Demócrito, continuam e continuarão girando, tudo formado por átomos!
O turbilhão inicial foi-se aquietando, ainda que o movimento não se perca, possibilitando o agregar dos átomos, formando seres, numa grande pluralidade. Curiosamente, os planetas e as estrelas giram em torno da Terra (no centro do universo-cosmos geocêntrico). Um turbilhão (redemoinho) de ar ou de água tem um ponto central a partir do qual gira. Imaginemos que no turbilhão originário do cosmos um número imenso (o texto fala ilimitado) de átomos foram, pouco a pouco, compondo planetas, estrelas, a Terra e os seres que nela existem, toda a pluralidade. Ora, até o próprio ser humano, para Demócrito, é um microcosmos, portanto composto por átomos que estavam no turbilhão original.
Mas o que é a necessidade de que o texto fala? O fragmento 6 responde: “Por necessidade entende Demócrito o choque, o movimento e o impulso da matéria. (Aet. I, 26, 2).” Ideias que combinam bem com o turbilhão (o redemoinho)! A matéria, formada por átomos, carrega consigo o impulso, isto é, está em contínuo e necessário, incessante, movimento. Chocando-se uns com os outros, no movimento, átomos se juntam, formam seres, planetas, a Lua, a Terra, plantas, bichos, gente, tudo, enfim.
E, por falar em eternidade, o fragmento 16 diz: “Demócrito tinha a opinião de que os átomos se movem eternamente em um espaço vazio. Há inumeráveis mundos, que se distinguem pelo seu tamanho. (Hippol. I, 13, 2).” (Idem, p. 126). Então o universo (o cosmos) de Demócrito não é fechado, restrito à Terra no centro, com a Lua, os planetas e as estrelas girando em torno dela! Há inumeráveis mundos! Ideia que combina bem com a afirmação de que os átomos são ilimitados em grandeza e número. Num universo fechado, puramente geocêntrico – o geocentrismo foi contestado por Aristarco, na antiguidade, mas só começou a ser derrubado nos séculos 16 (XVI), com Copérnico, e 17 (XVII), com Galileu Galilei, seguidor de Copérnico –, não haveria possibilidade de quantidade ilimitada de átomos! Um universo fechado, obrigatoriamente, teria limite, impondo um limite à quantidade de átomos. E num universo maior, com inumeráveis mundos, o vazio se faz necessário para haver espaços entre os “inumeráveis mundos”.
Certamente, Demócrito não deve ter deixado de crer no geocentrismo, mas, sem dúvida, ampliou imensamente a perspectiva que tinha do universo, do cosmos. E o turbilhão, com esses inumeráveis mundos? Uma possibilidade de entendimento pode ser encontrada num redemoinho de vento, fraco ou forte – ele espalha muita poeira, no caso do pequeno, ou muitas coisas, no caso do grande. Os inumeráveis mundos, compostos de átomos (ilimitados em grandeza e número), só podem ter sido espalhados pelo turbilhão original de tudo e, como a Terra e os planetas, formando unidades ordenadas! (Se mantivesse o geocentrismo tradicional, tudo girando ao redor da Terra. Talvez.)
Curiosamente, as palavras cosmos e mundo, respectivamente de origem grega e latina, indicam o que é ordenado, organizado. (O contrário de cosmos é caos; de mundo, é imundo [i-mundo].) Inumeráveis mundos – organizados, compostos por átomos e vazio e em contínuo movimento.
Além de adequar-se à perspectiva heracliteana do movimento, do devir, e da eternidade dos átomos, aproximando-se da eternidade do ser de Parmênides (ainda que haja diferenças), o turbilhão de Demócrito aparece como uma opção filosófica diante da perspectiva mitológica grega do Caos original, tendo, ademais, em vista que os gregos antigos não criam que o cosmos surgiu do nada.
REFERÊNCIA DO LIVRO DE BORNHEIM:

BORNHEIM, Gerd A. (Org.) Os Filósofos Pré-Socráticos. 14.ed. São Paulo, Cultrix, 1996. 


sábado, 25 de fevereiro de 2017

REGISTRO DE USO DA SALA DE VÍDEO E DE USO DE VÍDEO EM SALA DE AULA (Prof. José Antônio Brazão.)

Professoras e professores de Filosofia, comumente, fazem uso da sala de vídeo ou de vídeo em sala de aula. O vídeo, seja um filme, um documentário, um desenho animado ou outro recurso audiovisual é um instrumento didático muito rico. Há excelentes materiais audiovisuais que podem ser usados didaticamente no ensino de Filosofia nas escolas.
Junto com o vídeo, é importante você, professor(a), registrar o uso, tanto pessoalmente quanto com a coordenação escolar ou a pessoa responsável pelos equipamentos (hardware) e videoteca da escola ou dinamizador(a) de tecnologias educacionais. Uma ficha pode ajudar bastante nesse registro. Abaixo vão cópias de materiais possíveis que podem ser usados no registro do uso de vídeo em Filosofia e em outras matérias (componentes curriculares) da escola.  
Abaixo vai também uma lista de possíveis vídeos, que pode e deve ser atualizada por você. Boas aulas de Filosofia!






É uma ficha de registro muito fácil de ser feita: 1.Entre no software (programa) de escrita de seu computador. Por exemplo: Word (da Microsoft) ou BrOffice Writer (da Linux) ou outro. 2.Clique em Tabela. 3.Escolha seis colunas e sete linhas. Enfim, clique OK. Pronta a tabela da ficha! 4.Escreva as informações na ficha. E bom trabalho!
SUGESTÃO DE FICHA DE VÍDEO:
Cada professor e professora tem seu modo próprio de solicitar trabalhos a partir de vídeos passados aos estudantes. A seguir, vai a sugestão de uma ficha de vídeo, bem simples e básica, precisando ser acompanhada de debate, de muita discussão, de modo a explorar ao máximo as informações contidas no vídeo. Sozinha, sem qualquer discussão, a ficha de vídeo tão somente apresenta um conjunto de informações advindas da assistência do vídeo. Porém, discutida, pode enriquecer o aprendizado coletivo, tendo em vista que estudantes e grupos diferentes apreendem informações diferentes, variadas, do conteúdo apresentado pelo vídeo.
A ficha de vídeo é uma atividade prática, que se solicita a cada estudante ou a cada grupo de estudantes da turma, a fim de obter uma maior atenção destes e averiguar o quanto puderam aprender com o vídeo. Lembrando que deve ser discutida entre todos. Ela pode ser feita na hora da assistência do vídeo, em outra aula ou até mesmo em casa, individualmente ou em grupos.
Atualmente há excelentes vídeos, com grande definição de imagens, em DVD, blue ray, CDROMs, em sites da internet, como a TV ESCOLA e o YOUTUBE, dentre outros. Cabe, pois, a cada professor e professora fazer um levantamento desses vídeos, assisti-los e repassá-los aos seus estudantes na escola. A ficha abaixo é tão somente uma sugestão. Cada professor(a) pode e deve elaborar o tipo de ficha que melhor caiba em seu conteúdo,  lembrando que nela devem constar informações básicas, essenciais do filme, documentário ou outro tipo de vídeo assistido.

SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE GOIÁS
SUBSECRETARIA METROPOLITANA DE EDUCAÇÃO
COLÉGIO ESTADUAL DEPUTADO JOSÉ DE ASSIS
LABORATÓRIO DE INFORMÁTICA ESCOLAR
FICHA DE ASSISTÊNCIA DE VÍDEO EM FILOSOFIA
(Professor José Antônio Brazão.)
VALOR

NOTA:

CONCEITO:

Nome completo

Nº chamada

Turma:

Data:


2011
NOME DO VÍDEO

AUTOR E/OU EMPRESA PRODUTORA

ANO OU DATA APROX. DE PRODUÇÃO

Elabore uma pergunta pessoal ligada ao conteúdo do vídeo (utilize: por que /e/ou: como /e/ou: por que razão /e/ou: para que...?):

CONTEÚDO ATUAL EM ESTUDO EM FILOSOFIA:

TIPO DE VÍDEO
(     ) FILME.
(     ) DOCUMENTÁRIO.
(     ) TELEAULA.
(     ) DESENHO ANIMADO.
(     ) ______________________________________
TEMA OU ASSUNTO PRINCIPAL DO VÍDEO

BREVE RESUMO DO VÍDEO. Faça um pequeno resumo do vídeo assistido, com suas próprias palavras.








CONTEXTO HISTÓRICO  DE REFERÊNCIA DO VÍDEO
(       ) MUNDO ANTIGO.    (       ) MUNDO MEDIEVAL.
(   ) MUNDO MODERNO. (  ) MUNDO CONTEM-PORÂNEO. (       ) FUTURO.
(       ) IMAGINÁRIO/FICÇÃO.
RELAÇÃO ENTRE O VÍDEO E O CONTEÚDO ATUALMENTE EM ESTUDO EM FILOSOFIA




Filósofo(s) que é(são) mencionado(s) no vídeo:




LEMBRETE: Trazer esta ficha para o debate que vai ocorrer sobre o vídeo.
DEBATE SOBRE O VÍDEO NO DIA:


2011
A FICHA DE ASSISTÊNCIA DE VÍDEO EM FILOSOFIA é um instrumento valioso de trabalho, pois possibilita que o estudante tenha atenção redobrada no vídeo, sabendo que terá que preenchê-la. Essa ficha pode ser utilizada após a passagem do vídeo, logo a seguir, ou levada para casa e ali preenchida, tendo já sido visto o vídeo na escola. Uma grande vantagem de que ela seja feita é que, além da atenção, demandará memória de cada estudante, isto é, lembrar-se do que viu e ouviu e/ou leu para elaborar a ficha. Isto faz com que a memória de cada um(a) vá se aguçando, sem dúvida. Outra vantagem é a produção textual – os estudantes são induzidos, diretamente, a escrever, utilizando suas próprias palavras, sobre aquilo que veem e ouvem.
Ela permite o levantamento de informações gerais sobre o vídeo assistido. Tais informações poderão ser, em outra aula, debatidas com as turmas. O debate é valioso, pois faz com que diferentes percepções e ideias a respeito do vídeo sejam colocadas em comum, enriquecendo o aprendizado das turmas e aguçando a percepção individual e coletiva dos estudantes.
No momento do debate, a ficha permite que cada estudante apresente aquilo que conseguiu observar durante a assistência do vídeo, seu conteúdo geral e outras informações específicas, de fino detalhe, mas que nem todos percebem igualmente. Ela pode contribuir também para aqueles e aquelas que não têm muita facilidade de expressar-se oralmente, de forma direta. Estes estudantes poderão, com efeito, ler aquilo que escreveram ou solicitar a colegas que façam a leitura para eles, se for o caso.
O professor e a professora também deverão ter sua ficha pronta, em mãos. O resumo acima também. No que diz respeito a outros vídeos filosóficos aqui não resumidos, cada docente, tendo-os visto, é convidado a fazê-los.  Professor(a), vá juntando as fichas e resumos de vídeos que você tenha produzido, pois poderão ser úteis numa outra vez que venham a utilizar o vídeo como recurso midiático de enriquecimento do trabalho de ensino-aprendizagem. Ponha, por exemplo, dentro de uma pasta ou, talvez, em um fichário, daqueles que você encontra em qualquer papelaria ou que você mesmo(a) tenha feito. A ficha acima foi feita utilizando o recurso TABELA, do Word. É fácil!
Duas sugestões para o debate a respeito do vídeo e da ficha de vídeo: (a) pode ser na forma de GV/GO ou (b) pode ser em círculo único, como você, professor(a) queira, ou ainda, talvez, na disposição tradicional da sala de aula. O importante é que você encontre um meio de levar seus estudantes à elaboração de textos sobre aquilo que veem e aprendem. Obs.: a ficha acima é apenas uma sugestão. Você pode melhorá-la! Faça!
Observação: Não precisa ser necessariamente uma ficha de vídeo como esta. Pode ser uma redação ou um relatório escrito sobre o filme. O importante é que cada estudante registre o que viu. Mais: se possível, em roda, que cada um(a) compartilhe com a turma o conteúdo e a trama do vídeo filosófico. Discussões enriquecem muitíssimo o aprendizado de Filosofia e de qualquer matéria (componente curricular) escolar. Pode ser feito, inclusive, um trabalho interdisciplinar, com outras matérias escolares, junto com a Filosofia. Bom proveito e bom trabalho!
LISTA DE ALGUNS FILMES E DOCUMENTÁRIOS QUE PODEM SER UTILIZADOS NO ENSINO DE FILOSOFIA (Prof. José Antônio Brazão.)
A ESPINHA DORSAL DA NOITE (documentário da série COSMOS, de Carl Sagan, episódio 7). Temáticas: curiosidade científica, Pré-Socráticos. Na VIDEOTECA do site da TV ESCOLA (http://tvescola.mec.gov.br) pode ser encontrado esse vídeo em português. Também pode ser encontrado no YOUTUBE (www.youtube.com.br).
A GUERRA DO FOGO. Temáticas: Evolução humana, o domínio do fogo pelos homens primitivos, a origem da linguagem e das técnicas.
A HARMONIA DOS MUNDOS (documentário da série COSMOS, de Carl Sagan, episódio 3). Temáticas: Revolução Científica Moderna no campo da astronomia, Johannes Kepler, também Copérnico e Galileu Galilei, Isaac Newton. Também no site da TV ESCOLA e/ou no YOUTUBE.
A.I. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Temáticas: Discussão sobre a possibilidade de dar sentimentos humanos a robôs, humanizá-los; relações humanas; inteligência artificial.
AGONIA E ÊXTASE. Temáticas: A vida de Michelangelo, Renascimento Artístico e Cultural.
ALEXANDRIA. Temáticas: história de Hipácia, Alexandria no século IV/V d.C., conflitos entre cristãos, pagãos e judeus. Menciona as ideias de Ptolomeu, Aristarco, dentre outros intelectuais da antiguidade. (Ver comentário elaborado, fora deste texto.)
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (versão atual ou desenho animado). Temáticas: discussão possível sobre sonhos, fantasia, ilusão, imaginação, criação literária, criação e tecnologia, coragem para agir, decisão.
AUSTRÁLIA. Contém cenas em que aparecem crenças de aborígenes australianos. Útil no trabalho com mitos, cultura e outras temáticas filosóficas possíveis. É longo. Será preciso mais de uma aula.
BLAISE PASCAL – Filme completo. Sobre Blaise Pascal. Encontrado no Youtube.
CARTESIUS – Filme completo. Sobre René Descartes. Encontrado no Youtube.
COSMOS. Série documentário de Carl Sagan, cientista estadunidense, já falecido. Publicada no site de TV Escola – Videoteca, letra C. De interesse para a Filosofia, particularmente, os episódios 3 e 7. Todos os episódios, aliás, são valiosos. Nela há temas que podem ser discutidos de forma interdisciplinar com matérias científicas e humanas. Pode ser encontrada também no Youtube.
DONALD NO PAÍS DA MATEMÁGICA (desenho animado de Walt Disney). Temáticas: Pitágoras e os pitagóricos, filosofia e matemática, matemática na natureza e no universo, o uso da mente humana, descobertas humanas.
EINSTEIN REVELADO (documentário). Da Editora Nova. Temáticas: A vida e as descobertas de Albert Einstein, teoria da relatividade.
EM NOME DE DEUS. Temáticas: Filosofia escolástica, história de Pedro Abelardo e Heloísa.
FILOSOFIA PARA O DIA A DIA: VIDA SIMPLES. Documentário sobre vários filósofos, da Editora Abril. Conjunto de estudos sobre filósofos elaborado por um inglês.
FILOSOFIA. Cinco aulas do Novo Telecurso do Ensino Médio.
FILÓSOFOS ESSENCIAIS. Entrevistas sobre filósofos fundamentais do Ocidente. Durante essas entrevistas, o professor entrevistado vai expondo informações e detalhes sobre vários filósofos da história da filosofia ocidental. (Da Editora Tríada).
FÚRIA DE TITÃS 1 e 2. Temática: Mitologia grega. Mostram a relação entre deuses e humanos, de acordo com a mitologia grega, bem como conflitos aí surgidos.
GALILEU GALILEI (desenho animado). Temáticas: A ciência moderna, Galileu Galilei e Aristóteles.
GALILEU: A BATALHA PELO CÉU. Documentário da Scientific American sobre Galileu Galilei.
GLOBO CIÊNCIA. Contém vários episódios que falam de filósofos, tanto antigos quanto contemporâneos. Cada episódio dura, no máximo 20 minutos, mais ou menos. No site do CANAL FUTURA há informações e muitos dos vídeos do Globo Ciência podem ser encontrados no Youtube.
JASÃO E OS ARGONAUTAS. Mitologia grega. Filme.
MAGIA DO TEMPO (documentário da BBC). Temática: O tempo e sua ação.
O DIVINO MICHELÂNGELO (documentário). Temáticas: Michelangelo, pintor renascentista; Renascimento Artístico e Cultural moderno.
O INFERNO DE DANTE. Documentário da Discovery Channel sobre Dante. Temáticas: Dante, Renascimento Artístico e Cultural.
O NOME DA ROSA. Temáticas: Filosofia escolástica, lógica, Aristóteles, copistas medievais.
ODISSEIA. Temática: Mitologia grega. Elaborado a partir dos relatos contidos na Odisseia, do poeta grego Homero.
O HOBBIT. Mescla de mitologias. Relacionado a O Senhor dos Anéis.
O SENHOR DOS ANÉIS. Trilogia que mistura mitologia e guerra, composta a partir de personagens presentes em várias mitologias e criação literária.
PERCY JACKSON E O LADRÃO DE RAIOS. Temática: Mitologia grega. Conta a história de um rapaz (Percy Jackson) que é filho do deus grego Poseidon e suas peripécias, com amigos, para devolver o raio mestre do poderoso Zeus.
SANTO AGOSTINHO – Filme completo. Sobre Santo Agostinho. Encontrado no Youtube.
SER OU NÃO SER. Série sobre filosofia e filósofos, de Viviane Mosé. Pode ser encontrada no Youtube. Trata de Heráclito, Platão, Aristóteles, David Hume, Michel Foucault, dentre outros filósofos importantes da história da filosofia.
SHERLOCK HOMES 1 e 2. Temáticas: Lógica, raciocínio lógico, investigação, conhecimento científico aplicado na investigação.
TEMPOS MODERNOS (filme de Charlie Chaplin). Temática: A vida dos trabalhadores sob o capitalismo. Pode-se tratar das ideias de Marx e do anarquismo.
THOR. Temática: Mitologia viking.
TROIA. Temática: Mitologia grega. Filme elaborado a partir da história relatada por Homero no seu livro Ilíada. Mostra o cerco à cidade de Troia e, ao final, sua destruição e sua pilhagem pelos gregos. Guerra causada pelo rapto de Helena, mulher de um dos chefes gregos.
TV ESCOLA. No site da TV ESCOLA (http://tvescola.mec.gov.br) podem ser encontrados outros vídeos, na seção VIDEOTECA. Esta encontra-se disposta por ordem alfabética, tendo, em cada letra, um conjunto de vídeos sobre temas diversos, dentre os quais encontram-se temas filosóficos. Dê uma olhada e anote.
OBSERVAÇÃO: Professor(a), faça uma pesquisa em locadoras de filmes, no Youtube, no site da TV Escola, em outros sites e lugares. Você descobrirá muitos outros vídeos (filmes, desenhos animados, documentários, etc.) interessantes que poderá utilizar em suas aulas de Filosofia. A lista acima é apenas um exemplo e uma sugestão. Use fichas de vídeo e discuta os conteúdos com os e as estudantes. O aprendizado torna-se muito rico e a visualização ajuda a fixar conteúdos! Vale lembrar que vídeos também podem ser elaborados pelos próprios estudantes, através de recursos de vídeo dos computadores, tanto da plataforma Windows quanto da plataforma Linux. A seguir, apresentados à(s) turma(s).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

FILOSOFIA EM POESIA: OS SOFISTAS. (Prof. José Antônio Brazão.)

OS SOFISTAS (Prof. José Antônio Brazão.)

Entre os séculos seis, cinco e quatro
Cidades-estados iam crescendo,
Necessidades novas iam surgindo
E da política os quadros
Maior preparação ia exigindo.

Da tradição os valores descrendo,
Os sofistas, filósofos professores,
De cidade em cidade
Seus conhecimentos iam vendendo:
Retórica e Dialética, o domínio da linguagem.

Jovens e outros em condição de pagar
Eles preparavam para na vida política atuar,
Tão importante nas gregas póleis,
Nas aquecidas discussões
E nas legais decisões.

Górgias, Protágoras, Trasímaco e outros
A verdade relativizaram,
Dizendo que dependia de cada um.
Dobrando o pensamento,
A visão de muitos convenciam.

Os gregos sofistas caminhos abriram
De antropocêntrica visão,
Sobre o cosmos não se interessando,
Por cada humana questão,
Nas cidades, se preocuparam.

Questões de poder,
De mando e direção,
De Direito e linguística expressão,
Não deixando oportunidade perder
De da Ética e da verdade a discussão.

O homem de todas as coisas a medida,
Assim Protágoras defendia,
Colocando o humano no centro,
Medida-referência,
Conhecedor da dialética e da ciência.

Sofismas elaboravam,
Raciocínios capciosos
Com aparência de verdade,
Úteis na arte da persuasão,
Em assembleias, obter apoio e adesão.

Górgias, advogando,
De Helena fez a defesa
Com rica argumentação.
Se movida por algum deus ou deusa,
Não teve ela culpa por sua ação.

As artes do debate e do convencimento
Ensinavam, por meio de cursos
Em casas e lugares públicos,
Fazendo deles instrumentos
Para obter vitórias no parlamento.    [Obs.: parlamento, aqui, é assembleia.]

De debates, em casas, em várias ocasiões,
Os sofistas participavam,
Como os retratados pelo filósofo Platão,
Em diversos e aquecidos diálogos
De socráticas discussões.

Em tais diálogos algum sofista discutia
Seja o amor, a justiça ou outro ético valor.
Enfrentando argumentativamente
O platônico mestre Sócrates,
Expondo suas opiniões.

Diversos sabiam fazer uso da mitologia
E dos conhecimentos
Históricos, políticos e sociais
Do passado e de seu tempo,
Com lógica própria e maestria.

Os sofísticos pensamentos
Abriram caminhos novos,
Demandando respostas
A desafios nada ortodoxos
E novos conceitos e argumentos.

Repensar a linguagem,
A visão de mundo e da educação,
Dos seres divinos a imagem
Proposta pela popular religião,
Fazendo surgir nova filosofia.

Hoje, por certo, de forma nada branda,
Sofistas e sofísticas declarações
Existem na política,
Na advocacia e até na propaganda,
No dia a dia e em muitas profissões.


OBS.: Fazer uma ponte entre o passado e o presente pode ser muito enriquecedor no aprendizado da filosofia, mostrando sua vivacidade e atualidade!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

LEUCIPO, DEMÓCRITO E EPICURO: OS ÁTOMOS. (Prof. José Antônio Brazão.)

Diógenes Laércio, um escritor da antiguidade, assim afirma, no fragmento doxográfico (texto escrito de opinião sobre alguém, aqui, sobre o filósofo), sobre o filósofo Leucipo de Abdera: “[Leucipo] Foi o primeiro a afirmar os átomos como princípio de todas as coisas.(...)” (LAÉRCIO, Diógenes, apud Bornheim, 1998: 104). E sobre Demócrito, Laércio afirma:
“DOXOGRAFIA
“1 – Eis as teorias de Demócrito. Na origem de todas as coisas estão os átomos e o vazio (tudo o mais não passa de suposição). Os mundos são ilimitados, engendrados e perecíveis. Nada nasce do nada e nada volta ao nada. Os átomos são ilimitados em grandeza e número, e são arrastados com o todo em um turbilhão. Assim nascem todos os compostos: o fogo, o ar, a água, a terra. Pois são conjuntos de átomos, incorruptíveis e fixos devido à sua firmeza. O Sol e a Lua são compostos de massas semelhantes, simples e redondas; e a alma, da mesma forma, a qual é idêntica ao espírito. Nós vemos pela projeção de imagens. Tudo se faz por necessidade; sendo o turbilhão causa da gênese de tudo, ele o chama de necessidade. O bem supremo é a felicidade (‘euthymia’), muito diversa do prazer, ao contrário do que creram aqueles que não souberam compreendê-la; consiste no repouso e quietude da alma, não perturbada por nenhum temor, superstição ou afecção. Chama esta atitude de diversos nomes, entre outros o de ‘bem-estar’. As propriedades são convenção dos homens, ao passo que os átomos e o vazio existem segundo a natureza. Estão são as suas doutrinas. (Diog. Lart. IX).” (LAÉRCIO, Diógenes, apud Bornheim, 1998: 124.)
Leucipo, Demócrito e Epicuro, filósofos gregos que viveram entre o século cinco e três antes de Cristo, falam da existência de átomos, partículas minúsculas (as menores da matéria) que compõem todas as coisas. Como será que podem ter chegado a essa conclusão? Leucipo e Demócrito antecederam em, pelo menos, um século, o pensador Epicuro. Este, por sua vez, tomou contato com as ideias deles e até escreveu sobre os átomos. Anaxágoras, outro filósofo, havia também falado das homeomerias, partículas minúsculas.
Três atitudes, com certeza, se uniram para que os átomos fossem descobertos (e, no caso de Epicuro, o estudo e a defesa da existência deles): a observação sensível (por meio dos sentidos), com as constatações daí advindas, a reflexão racional (da razão) e a imaginação (capacidade humana de formar imagens na mente).
Primeiramente, o que os três observaram com os olhos, o tato e os outros sentidos? E o que constataram? Partindo deles mesmos: o corpo humano, a natureza, os ciclos naturais e a existência de uma multiplicidade (pluralidade) de seres em meio à unidade que torna possível sua harmonização e sua convivência. Observaram e constataram a montanha e a dureza de suas rochas, a chuva que caía do céu, os animais, os prédios das cidades gregas e de suas colônias, etc.  A areia fina da praia. A água que tem a capacidade de escorrer, passar do estado líquido ao sólido (gelo, neve na época do inverno) e ao vapor (quando aquecida). Existem muitos seres e fenômenos (fatos...) que ocorrem com eles. E o que eles têm em comum?
Outra constatação sensível (da visão e outros sentidos): os seres são divisíveis! Eles sofrem processos diversos de divisão: uma pedra pode ser quebrada e até esfarelada. O pão pode ser partido em pedacinhos (partículas) muitas vezes menores que ele. Os corpos vivos se dissolvem com a morte, até virarem pó! De fato, Leucipo e Demócrito observaram, muitas vezes, a decomposição de seres dos mais diversos tipos, animados e inanimados. Uma maçã pode ser cortada em pedaços cada vez menores, em minúsculas partes. Um prato de louça ou de barro, ao cair-se, quebra-se em pedaços grandes e pequeninos a espalhar-se pelo chão. E tais pedaços, se se fizer uso de um martelo, podem ser reduzidos a pó, e assim pode-se continuar a subdivisão.  Uma árvore pode ser serrada, dando origem a pedaços menores de madeira. Tais pedaços de madeira, por sua vez, podem ser serrados em pedaços ainda menores, menores e menores, tendo-se boas serras ou serrotes de diversos tamanhos. A madeira pode ser queimada, comida por cupins, o que demonstra a separabilidade, a divisão, de sua matéria em partes menores. Com outras matérias, já citados alguns exemplos, pode ocorrer o mesmo. Então, a divisibilidade da matéria pode ser constatada pela visão! Pelo tato também, quando se pode tocar matérias divididas ou realizar, com ferramentas, tal divisão. A comida é divida em pedacinhos na boca, com o auxílio dos dentes: rasgada, cortada, triturada e, por fim, engolida – minúsculas texturas podem ser sentidas pelo paladar. Todas estas coisas, com certeza, foram plenamente observadas por Leucipo, Demócrito e Epicuro. Por Anaxágoras também, pois chama as partículas homeomerias.
A reflexão racional (da razão), junto com a imaginação, levou à pergunta: até que ponto posso dividir este objeto X (p. ex.: um pedaço de madeira)? Infinitamente não é possível dividi-lo e seria um absurdo. Por quê? Por que, indo ao infinito, não se chega a lugar algum, a ponto algum. Ora a matéria existe! É fato. Então seria preciso admitir a existência de uma partícula (palavra que significa: partezinha, pedacinho) minúscula da matéria que seria indivisível: átomo é uma palavra grega que significa, justamente, indivisível, isto é, o átomo é uma partícula (um pedacinho) indivisível (que não pode ser mais dividida) de matéria. Os átomos são partículas indivisíveis. O fragmento doxográfico 4, referente a Demócrito, diz: “Os átomos não são divisíveis, e não há divisão até o ilimitado. (Aet. I, 16, 2)” E como se encaixam, formando os seres?
A Wikipédia assim comenta:
“Para Demócrito, o cosmos (o Universo e tudo o que nele existe) é formado por um turbilhão de infinitos átomos de diversos formatos que jorram ao acaso e se chocam. Com o tempo, alguns se unem por suas características (às vezes, as formas dos átomos coincidentemente se encaixam tão bem como peças de quebra-cabeça) e muitos outros se chocam sem formar nada (porque as formas não se encaixam ou se encaixam fracamente). Dessa maneira, alguns conjuntos de átomos que se aglomeram tomam consistência e formam todas as coisas que conhecemos, que depois se dissolvem no mesmo movimento turbilhonar dos átomos do qual surgiram.[9]” E continua:
“A consistência dos aglomerados de átomos que faz com que algo pareça sólido, líquido, gasoso ou anímico ("estado de espírito") seria então determinada pelo formato (figura) e arranjo dos átomos envolvidos. Desse modo, os átomos de aço possuem um formato que se assemelha a ganchos, que os prendem solidamente entre si; os átomos de água são lisos e escorregadios; os átomos de sal, como demonstra o seu gosto, são ásperos e pontudos; os átomos de ar são pequenos e pouco ligados, penetrando todos os outros materiais; e os átomos da alma e do fogo são esféricos e muito delicados.[10]” (IN: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dem%C3%B3crito)
Leucipo, Demócrito e Epicuro não tiraram a ideia do encaixe entre átomos à toa. Possibilidades: através de encaixes, dados pelas formas, alguns como ganchos (ver a última citação, antes desde parágrafo). Como assim? Partindo do que eles viam. Havia muitos prédios na Grécia e em suas colônias, bem como em outras nações. Um bloco de pedra ou um tijolo encaixa-se no outro, mantendo-se firmes os prédios construídos. Outra observação: para uma roupa ficar presa e firme no corpo, uma fivela facilita sua fixação. A amarra permite que um calçado não se solte nem se arrebente. E assim por diante, muitas maneiras de fixação (junção, encaixe) de seres podiam ser constatadas a nível macro (maior, grande). O encaixe de um tijolo no outro depende da forma, peças se encaixam segundo suas respectivas formas, a roupa que se encaixa no corpo depende das formas que foram dadas a ela, permitindo tal encaixe, etc. E a nível do muito minúsculo? Aplicando a observação, o pensamento reflexivo e a imaginação, Leucipo, Demócrito e Epicuro (Anaxágoras, com as homeomerias também) perceberam que para os átomos (as homeomerias, de Anaxágoras) formarem todos maiores só seria possível se tivessem encaixes e formas adequadas que permitissem isto, que fossem ganchos minúsculos ou formas que dispusessem de encaixes firmes. Jostein Gaarder, em O Mundo de Sofia, ao falar de Demócrito, compara os encaixes dos átomos ao brinquedo de Lego, constituído por muitas pecinhas, separadas em uma caixa, que são encaixadas por crianças, formando casas, castelos, máquinas e outros brinquedos.
Ora, os seres não se constituem num momento e se desfazem em outro. E os átomos têm peso. O fragmento doxográfico 3, referente a Demócrito, citado por Bornheim, diz: “Os átomos têm grandeza e forma, às quais Epicuro acrescenta o peso, porque os corpos, dizia ele, movem-se pela ação do peso. (Aet. I, 3, 18)” (BORNHEIM, 1998: 124.). Como assim? Por quê?
Um possível raciocínio para a conclusão acerca do peso dos átomos poderia ser: as observações sensíveis visual e tátil deixam claro que os seres têm peso; ora, se os átomos fossem destituídos de peso, não poderiam formar seres constituídos de peso. Ademais, por conta de serem indivisíveis, devem ser resistentes (duros) o suficiente para não permitirem que nada os divida. E uns átomos são mais pesados que outros: os que formam o ferro são pesados e mais rígidos que outros, ligando-se mais firmemente uns com outros (até o momento em que a ferrugem tome conta, o que leva tempo), os que formam o ar são sutis, isto é, são muito leves e separados (se fossem pesados, fariam mal ao corpo, ao entrarem nos pulmões) e transparentes, como o vidro (a Wikipédia menciona a antiguidade da fabricação do vidro, conhecido também entre os gregos, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vidro). E o texto citado no final do parágrafo anterior dá uma dica: “(...) porque os corpos, dizia ele [Epicuro], movem-se pela ação do peso.” (BORNHEIM, op. cit., p. 124).
Que fenômenos (fatos que se manifestam, que ocorrem, na natureza e no mundo) Epicuro deve ter observado, ao longo da vida, para ter uma ideia da relação entre peso e movimento dos corpos e, também, dos átomos? Algumas possibilidades, a seguir. Numa montanha cheia de pedras, caso uma delas se solte, por conta do peso, ela se movimentará diretamente para baixo. A água demonstra ter peso ao ser posta na palma da mão e, em grande massa, escorre na forma de rios e cachoeiras. O escorrer é um tipo de movimento. Uma pedrinha, jogada para cima, volta, realizando um duplo movimento: para cima e para baixo. E uma força precisou ser aplicada a ela por conta de seu peso, pondo-a em movimento. O ar em movimento demonstra ter força, a ponto de empurrar os objetos e as pessoas, o que aponta que, sendo ele composto de átomos, estes devem ter peso tal que, juntos, são capazes de empurrar seres e até joga-los no chão. Se não tivessem peso, com certeza, não seriam capazes de fazer isto. Outro ponto: todo átomo é uma partícula. Por menor que seja, ela é matéria. Ora, uma das características essenciais das matérias observáveis é o peso: uma pedra grande tem peso, uma pedrinha tem peso, um grão de cevada, ainda que muito pequeno, tem peso. Uma medida pequena de ouro tem peso, assim como uma pepita maior. Portanto, o que dá origem a esses seres e outros, deve ter peso. Epicuro pode ter pensado assim, estabelecendo uma relação entre matéria e peso, mesmo uma particulazinha da matéria. Juntamente com o peso, o movimento!
E sobre o peso: o comércio, nas cidades gregas e em muitas outras na antiguidade, fazia uso de balanças e contrapesos para medir o peso de diversas mercadorias. No comércio, o que tem peso também tem preço, até hoje.
Ademais, pensemos um pouco: uma coisa (ser) que não tem peso seria igual a nada. E, de acordo com Epicuro, “Nada pode originar-se do nada.” (EPICURO, op. cit., p. 48). Ora, os átomos dão origem aos seres, todos dotados de peso. Mais uma evidência possível de que os átomos, sendo partículas da matéria, devem, necessariamente, ter peso. Ainda que muito pequeno, o peso de um átomo, unido ao de outros milhões e bilhões, dão um peso maior.
Juntando essas informações do dia a dia e muitas reflexões, Epicuro acrescentou o peso como característica do átomo!
O que aqui se quer mostrar é que Leucipo, Demócrito e Epicuro (Anaxágoras também, com as homeomerias) não pensaram a partir do nada: viram seres, movimentos, estudaram Heráclito ou ouviram falar dele (Heráclito falava que tudo está em movimento, em vir a ser [devir] como um rio), conheciam teorias de outros pensadores que os antecederam, conviveram com o mundo natural e o mundo social, perceberam muitos fenômenos naturais, aprenderam e discutiram muitas ideias com outras pessoas, quer fossem comuns, quer fossem devotadas aos estudos. Usaram, a partir desse amontoado de materiais que tiveram à disposição, o poder reflexivo do pensamento e uma imaginação fertilíssima.
E quantos átomos devem existir? Uma multiplicidade. Por quê? Uma possível explicação é, novamente, a pluralidade imensa de seres que existem na natureza, que têm formas e características próprias, as quais, com certeza, dependem dos encaixes e da firmeza na união certa dos átomos. Uns têm uma conexão mais firme, outros, uma mais flexível, passando pela dissolução e, com o tempo, a formação de novas ligações e novos seres, num movimento constante.
E além dos átomos, o que mais seria, então, preciso? O vazio! Os três pensadores em estudo defenderam a existência de átomos e vazio. Vazio? Sim. Como poderia ter ser imaginada, naquele tempo, alguns séculos antes de Cristo, sua existência? Partindo do concreto, alguns exemplos de vazio: a sala vazia, o quarto vazio, o copo vazio, o templo vazio quando não tem pessoas orando dentro dele (na Grécia antiga havia muitos templos), a rua vazia (as cidades gregas tinham muitas ruas), etc.  Eis o que Epicuro diz:
“Os átomos encontram-se eternamente em movimento contínuo, e uns se afastam entre si uma grande distância, outros detêm o seu impulso, quando ao se desviarem se entrelaçam com outros ou se encontram envolvidos por átomos enlaçados ao seu redor. Isso produz a natureza do vazio, que separa cada um deles dos outros, por não ter capacidade de oferecer resistência. Então a solidez própria dos átomos, por causa do choque, lança-os para trás, até que o entrelaçamento não anule os efeitos do choque. E esse processo não tem princípio, pois são eternos os átomos e o vazio.” (Epicuro de Samos, Pensamentos, p. 104. [EPICURO, 2006: 104])
Aristóteles, em sua Física, afirma claramente, ao referir-se a Demócrito:
“10 – Afirmam que o movimento se dá graças ao vazio; com efeito, segundo estes, o movimento dos corpos naturais e elementares é um movimento local; porque o movimento devido ao vazio é um transporte, como em um lugar; quanto aos outros movimentos, nenhum pertence, pensam eles, aos corpos elementares, mas somente àqueles que deles são formados; dizem que o crescimento, o perecimento e a alteração provêm da reunião e da separação dos corpos insecáveis. (Arist. Phys. VIII, 9, 265b).” (ARISTÓTELES, apud Bornheim, 1998: 125.)
Sem vazio, não há espaço para movimento: uma sala cheia de coisas não possibilita o movimento dentro dela, é difícil caminhar numa rua cheia de gente, gente fica de fora se o templo estiver cheio, se o copo estiver cheio, não é possível acrescentar líquido nele sem que derrame, e assim por diante. E o fragmento doxográfico 2 referente a Demócrito, citado por Bornheim, diz: “Os princípios são o cheio e o vazio.” (BORNHEIM, 1998: 124.) É possível caminhar numa floresta porque entre as árvores há espaços vazios, que permitem passar por entre as árvores. Numa praia manifesta-se espaço vazio onde pessoas podem sentar-se, crianças podem brincar, preparar-se para o nado, montar uma barraca. Estas percepções de espaços vazios que podem ser preenchidos eram captadas por Leucipo, Demócrito e Epicuro, como são hoje. Então o vazio é um fato, junto com a matéria que o preenche, matéria esta feita de átomos. E a nível atômico? Para que os átomos se movam ou formem seres separados uns dos outros no espaço é preciso que haja o vazio! O vazio é, portanto, fundamental. É claro, o vazio de que falam Leucipo, Demócrito e Epicuro vai além do vazio da sala e do copo. Usando a observação, a razão e a imaginação, perceberam a necessidade do um profundo vazio, talvez o vácuo, outra palavra para vazio. (Por exemplo: ao tirar o ar de uma garrafa tem-se, dentro dela, o vácuo.) E ambos, os átomos e o vazio, de acordo com Epicuro, são eternos. Sendo eternos, pode-se concluir que não foram criados.
Entre os gregos antigos não havia ideia de um Deus único e criador de todas as coisas. Ela aparecerá com o judaísmo e o cristianismo. No caso de Epicuro, a eternidade dos átomos e do vazio reforçava, com certeza, sua crença de que as pessoas não deveriam se preocupar com o que fazem os deuses e as deusas.
Antes de Leucipo, Demócrito e Epicuro, além de outros filósofos da antiguidade, dois pensadores pré-socráticos (que antecederam Sócrates), por volta dos séculos seis e cinco antes de Cristo, haviam tratado do movimento: Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia, cidades que eram colônias gregas. Heráclito defendeu a existência efetiva do DEVIR (VIR A SER), do movimento, da transformação, presente permanentemente na natureza (physis, em grego), como um rio, no qual não se pode banhar de forma igual duas vezes. Parmênides de Eleia, por sua vez, contestou o movimento como constituinte do mundo natural. Para Parmênides, o movimento é ilusão, segundo um caminho que não deve ser seguido. O ser é eterno e permanente, imutável. Zenão de Eleia, discípulo de Parmênides, seguiu, com argumentos, o pensamento de seu mestre. O pensamento de Heráclito e Parmênides perpassou reflexões de filósofos que os seguiram, como Leucipo e Demócrito, até Epicuro, porém, nestes, houve a defesa do movimento e da eternidade do ser. Como assim? Os átomos são eternos, aproximando-se do que defendia Parmênides a respeito do ser, e estão em movimento contínuo, compondo e recompondo seres os mais diversos, permanentemente, aproximando-se do pensamento de Heráclito. (Platão, no século 4 a.C., adequou o pensamento de ambos, ao falar do mundo sensível [Heráclito] e do mundo das Ideias ou Inteligível [Parmênides]).
E Aristóteles, na Metafísica, afirma sobre a crença de Leucipo a respeito do movimento:
“2 – Alguns filósofos, como Leucipo e Platão, afirmam uma ação eterna, pois dizem que o movimento é eterno. Mas por que e o que é este movimento, não dizem, como não dizem a causa por que se move neste ou naquele sentido. (Arist., Metaph. XII, 6 1071b).” (In: BORNHEIM, op. cit., p. 104.)
E, na Física, Aristóteles dirá:
“10 – Afirmam que o movimento se dá graças ao vazio; com efeito, segundo estes, o movimento dos corpos naturais e elementares é um movimento local; porque o movimento devido ao vazio é um transporte, como em um lugar; quanto aos outros movimentos, nenhum pertence, pensam eles, aos corpos elementares, mas somente àqueles que deles são formados; dizem que o crescimento, o perecimento e a alteração provêm da reunião e separação dos corpos insecáveis. (Arist. Phys. VIII, 9, 265b).” (Idem, p.125.)
Assim como Heráclito, Leucipo, Demócrito e Epicuro perceberam, em tudo que podiam observar, o movimento, entendido como deslocamento, dissolução (corpos que se dissolvem, que se corroem ou são corroídos, etc.), reação (como o calor do fogo que faz a água reagir e borbulhar; o queimar da madeira pelo fogo), borbulhar (ex.: de água quente), etc. Observaram: o movimento dos astros nos céus (ex.: Sol, Lua, estrelas, planetas...), a queima de madeira (lenha), de galhos, com o consequente formar de carvão; o crepitar da chama de fogo, capaz de produzir fogo e luz; o ressecamento das folhas que caem no chão, por conta do calor e do apodrecimento, e uma imensidão de outros fenômenos que envolvem diferentes tipos de movimento(s). Observaram “o crescimento, o perecimento e a alteração” provenientes “da reunião e da separação dos corpos insecáveis” (ver a citação acima). Observaram o rio que corre (imagem usada por Heráclito para falar do devir, vir-a-ser, movimento). E “o movimento se dá graças ao vazio” (Ibidem, p. 125). Onde tudo está cheio não cabe espaço, nem é possível o movimento. O vazio oferece espaço de passagem para os corpos e os seres, para os átomos! Possibilita também a dissolução, o borbulhar, entre outros tantos fenômenos que envolvem o movimento.
Para concluir: o que se desejou, neste texto, foi ajudar na reflexão de professores(as) e estudantes de ensino médio e fundamental, além de outras pessoas interessadas no conhecimento dos três pensadores atomistas estudados (Leucipo, Demócrito e Epicuro), sobre como eles podem ter conseguido chegar à conclusão da existência dos átomos e de características deles e do vazio, tendo como ponto de partida a realidade em que viveram. De fato, a sociedade grega e outras (Epicuro viveu num tempo em que Roma já ia se expandindo) tinham conhecimento de matemática, de medidas, de peso (o comércio, constantemente fazia uso dele e ou faz até hoje), de espaços vazios e cheios, etc. Tinham conhecimentos técnicos de engenharia civil, de ferramentas (facas de diversos tamanhos e tipos, serras, pesos para balanças, barras de medidas, prumo, etc. etc.), inclusive máquinas complexas como a Máquina de Anticítera (entre 70 e 50 a.C.), encaixes de peças, entre outros elementos que podem ter ajudado muito na reflexão daqueles pensadores da antiguidade, que viveram há mais de dois mil e cem anos atrás. Em sala de aula, a pergunta Como teria sido descoberto e compreendido o átomo por Leucipo, Demócrito e Epicuro? pode surgir e até mesmo a professora e o professor de Filosofia a podem colocar, seja na forma de discussão, seja na forma de trabalho em grupos, ou  trabalho-discussão, a fim de despertar a curiosidade e a reflexão filosóficas!
O texto aqui apresentado contém apenas algumas reflexões, muito incompletas, que podem ser enriquecidas em sala de aula e em pesquisas fora desta, tanto por professoras, professores, quanto por estudantes e pessoas interessadas, curiosas por entender as ideias daqueles filósofos. O diálogo interdisciplinar com a Química, a Física e a História pode ser extremamente enriquecedor para todo mundo. Na verdade, este estudo faz uma mescla, chegando à beira da confusão. É interessante estudar separadamente os três. Além deles, os discípulos de Epicuro, como Diógenes de Enoanda. E não podemos nos esquecer de Anaxágoras!
Os textos desses filósofos são maiores e muito mais ricos, apresentando coisas interessantíssimas que podem ser discutidas sobre os átomos e outros temas. Vale a pena estuda-los e comenta-los, discuti-los, buscar entender os raciocínios possíveis que levaram à criação deles. Fazem parte da história da filosofia e das ciências!
Uma sugestão: pesquisa, por professoras, professores e estudantes, sobre os átomos nos últimos séculos e as descobertas a respeito deles. Comparar com os filósofos estudados. Essa ponte entre o presente e o passado pode ser enriquecedora do aprendizado estudantil.
Uma curiosidade. Um dos textos doxográficos diz: “Os átomos têm grandeza e forma, às quais Epicuro acrescenta o peso, porque os corpos, dizia ele, movem-se pela ação do peso. (Aet. I, 3, 18)” (BORNHEIM, 1998: 124.) (grifos meus). A ciência contemporânea (dos últimos séculos), expõe, na tabela periódica dos elementos químicos, algumas características dos átomos: massa atômica, número atômico, além de outras características. É claro que Leucipo, Demócrito e Epicuro não chegaram à exposição seriada, sequenciada, dos átomos, como o fizeram Dimitri Mendeleev e outros cientistas da contemporaneidade (séculos 19 e 20). Porém, é impressionante ver como, ao proporem a existência de átomos, ao estuda-los, aqueles filósofos da antiguidade buscaram interpretar a composição atômica e suas características, partindo dos instrumentos, observações, da razão e da imaginação que tinham, acreditando existir, em cada átomo, grandeza (medida), forma (estrutura) e peso (ainda que pequeníssimo, por conta do tamanho atômico e do fato de cada átomo ser matéria). Incrível. Não se pode, hoje, achar, porém, que o pensamento de Demócrito, Epicuro e Leucipo se equipara ao de cientistas (físicos e químicos, principalmente) de hoje. Porém, o que descobriram constitui-se, sem dúvida, numa forma rica e racional de pensamento, que ia muito além do que era ensinado pelos antigos mitos gregos e de outros povos. Bom diálogo interdisciplinar pode ser realizado entre a Filosofia e a Química!
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GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: Romance da história da filosofia. (Sofies verden) Trad. João Azenha Jr. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. [Há nova edição deste livro.]
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HELFERICH, Christoph. História da Filosofia. (Geschichte der Philosophie) Trad. Luiz Sérgio Repa e outros. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
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