DO CAJADO DE MOISÉS À VARINHA MÁGICA DOS MAGOS, BRUXOS E MÁGICOS (Prof. José Antônio Brazão.)
Em
conversa a respeito da ida de Moisés ao Egito, a fim de libertar Israel do jugo
egípcio, Deus (Yehovah, Ex.4,1), depois de um teste da vara (cajado, conforme
outras traduções) transformada em serpente e de serpente em vara novamente (Ex.
4, 2-4), diz a Moisés: “Toma, pois, esta vara na tua mão, com que
farás os sinais” (Ex. 4,17) (Grifos do professor). Ou seja, uma
vara que, pelo poder sobrenatural de Deus, disporia de poderes.
No
versículo 20, o texto continua: “Tomou, pois, Moisés sua mulher e seus filhos,
e os levou sobre um jumento, e tornou à terra do Egito; e Moisés tomou a
vara de Deus na sua mão” (Ex.4,20) (Grifo do professor).
O
capítulo 7, 8-25 do Livro do Êxodo apresenta o seguinte:
⁸ Disse o Senhor a
Moisés e a Arão:
⁹ "Quando o
faraó lhes pedir que façam algum milagre, diga a Arão que tome a
sua vara e a jogue diante do faraó; e ela se transformará numa
serpente".
¹⁰ Moisés e Arão
dirigiram-se ao faraó e fizeram como o Senhor tinha ordenado. Arão jogou a vara
diante do faraó e seus conselheiros, e ela se transformou em serpente.
¹¹ O faraó, porém,
mandou chamar os sábios e feiticeiros; e também os magos do
Egito fizeram a mesma coisa por meio das suas ciências ocultas.
¹² Cada um
deles jogou ao chão uma vara, e estas se transformaram em serpentes. Mas a vara
de Arão engoliu as varas deles.” (Êxodo 17, 8-12. NVI.) (Todos os
grifos: do professor.)
Milagres
são ações sobrenaturais de transformação (a vara que se transforma em serpente,
o doente que fica repentinamente curado por imposição de mãos ou por ordem),
feitos por Deus através do ser humano, conforme cada crença. Aqui a vara se
transformou em serpente, quando Arão, irmão de Moisés, lança, a mando de Deus,
a vara (o cajado).
Os
magos, feiticeiros e sábios do Egito, fazem o mesmo. Essa ação mostra que a
mágica (magia) era algo muito comum entre os egípcios, bem como entre outros
muitos povos da antiguidade. Mais: a magia (a mágica) era vista como parte de
“ciências ocultas” (v. 12), ou seja, conhecimentos de que dispunham os
iniciados – ocultas, sem dúvida, porque poucos as conheciam e as podiam usar,
relacionados a seres divinos (deuses, deusas e outros). Pessoas que tinham um
trâmite (trânsito, movimento) entre o humano e o divino (deuses e outros
seres), sendo, inclusive, seus representantes.
O
texto continua:
“¹³ Contudo, o
coração do faraó se endureceu e ele não quis dar ouvidos a Moisés e a Arão,
como o Senhor tinha dito.
¹⁴ Disse o Senhor
a Moisés: "O coração do faraó está obstinado; ele não quer deixar o povo
ir.
¹⁵ Vá ao faraó de
manhã, quando ele estiver indo às águas. Espere-o na margem do
rio para encontrá-lo e leve também a vara que se transformou em serpente.
¹⁶ Diga-lhe: O
Senhor, o Deus dos hebreus, mandou-me dizer-lhe: Deixe ir o meu povo, para
prestar-me culto no deserto. Mas até agora você não me atendeu.
¹⁷ Assim diz o
Senhor: ‘Nisto você saberá que eu sou o Senhor: com a vara que trago na
mão ferirei as águas do Nilo, e elas se transformarão em sangue.
¹⁸ Os peixes do
Nilo morrerão, o rio ficará cheirando mal, e os egípcios não suportarão beber
das suas águas’.
¹⁹ Disse o Senhor
a Moisés: ‘Diga a Arão que tome a sua vara e estenda a mão sobre as águas
do Egito, dos rios, dos canais, dos açudes e de todos os reservatórios, e elas
se transformarão em sangue. Haverá sangue por toda a terra do Egito, até nas
vasilhas de madeira e nas vasilhas de pedra’.
²⁰ Moisés e
Arão fizeram como o Senhor tinha ordenado. Arão levantou a vara e feriu as
águas do Nilo na presença do faraó e dos seus conselheiros; e toda a água do
rio transformou-se em sangue.
²¹ Os peixes
morreram e o rio cheirava tão mal que os egípcios não conseguiam beber das suas
águas. Havia sangue por toda a terra do Egito.
²² Mas os
magos do Egito fizeram a mesma coisa por meio de suas ciências ocultas.
O coração do faraó se endureceu, e ele não deu ouvidos a Moisés e a Arão, como
o Senhor tinha dito.
²³ Pelo contrário,
deu-lhes as costas e voltou para o seu palácio. Nem assim o faraó levou isso a
sério.
²⁴ Todos os
egípcios cavaram buracos às margens do Nilo para encontrar água potável, pois
da água do rio não podiam mais beber.
²⁵ Passaram-se
sete dias depois que o Senhor feriu o Nilo.
Outra
ação mágica (milagrosa): a transformação da água em sangue. Tanto Arão (o irmão
intermediador) quanto os magos do Egito foram capazes de realizar a façanha
mágica de transformação da água em sangue: Arão e Moisés, através do poder de
Yehovah (o Senhor, Deus); os magos egípcios, “por meio de suas ciências
ocultas” (v.22).
Outras
ações mágicas (milagrosas) vieram a ocorrer, até a libertação dos israelitas do
Egito, culminando na morte dos primogênitos (filhos mais velhos) dos egípcios
(Êxodo capítulos 11 e 12) e na divisão do Mar Vermelho por Moisés. Veja-se:
¹⁵ Disse então o
Senhor a Moisés: "Por que você está clamando a mim? Diga aos israelitas
que sigam avante.
¹⁶ Erga a
sua vara e estenda a mão sobre o mar, e as águas se dividirão para que os
israelitas atravessem o mar em terra seca. (Êxodo 14:15,16. Nova Versão
Internacional - NVI)
O Mar Vermelho é
aberto:
²¹ Então
Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor afastou o mar e o tornou em terra
seca, com um forte vento oriental que soprou toda aquela noite. As
águas se dividiram,
²² e os israelitas
atravessaram pelo meio do mar em terra seca, tendo uma parede de água à direita
e outra à esquerda. (Êxodo 14:21,22. Nova Versão Internacional - NVI)
O Mar Vermelho é
fechado:
²⁶ Mas o Senhor
disse a Moisés: "Estenda a mão sobre o mar para que as águas voltem
sobre os egípcios, sobre os seus carros de guerra e sobre os seus
cavaleiros".
²⁷ Moisés
estendeu a mão sobre o mar, e ao raiar do dia o mar voltou ao seu lugar.
Quando os egípcios estavam fugindo, foram de encontro às águas, e o Senhor os
lançou ao mar.
²⁸ As águas
voltaram e encobriram os seus carros de guerra e os seus cavaleiros, todo o
exército do faraó que havia perseguido os israelitas mar adentro. Ninguém
sobreviveu. (Êxodo 14:26-28. NVI) (Grifos do professor.)
Arão
e Moisés aparecem como magos (homens que usam a magia divina) a serviço de Deus
e da libertação de seu povo!
Na
magia, no milagre, a natureza obedece ao poder divino expresso através do mago,
do mágico, do feiticeiro ou do sábio que se põe como intermediador entre o
divino (Deus, deuses, deusas e outros seres). Neste último caso, o papel de
Moisés foi essencial e exclusivo – o irmão Arão não faz parte dessas ações – de
divisão e fechamento do mar.
Vimos
que o cajado (uma vara de tamanho maior, não uma varinha) foi fundamental para
a ação, como uma ferramenta através da qual o poder divino se manifesta, nas
mãos do mago Moisés e do mago Arão. Fatos similares, com o uso do cajado ou
bastão, aparecem também em outras partes, por meio de Moisés.
No
momento da sede, no deserto:
¹ No primeiro mês
toda a comunidade de Israel chegou ao deserto de Zim e ficou em Cades. Ali
Miriã morreu e foi sepultada.
² Não havia água
para a comunidade, e o povo se juntou contra Moisés e contra Arão.
³ Discutiram com
Moisés e disseram: "Quem dera tivéssemos morrido quando os nossos irmãos
caíram mortos perante o Senhor!
⁴ Por que vocês
trouxeram a assembleia do Senhor a este deserto, para que nós e os nossos
rebanhos morrêssemos aqui?
⁵ Por que vocês
nos tiraram do Egito e nos trouxeram para este lugar terrível? Aqui não há
cereal, nem figos, nem uvas, nem romãs, nem água para beber! "
⁶ Moisés e Arão
saíram de diante da assembleia para a entrada da Tenda do Encontro e se
prostraram, rosto em terra, e a glória do Senhor lhes apareceu.
⁷ E o Senhor
disse a Moisés:
⁸ "Pegue a
vara, e com o seu irmão Arão reúna a comunidade e diante desta fale àquela
rocha, e ela verterá água. Vocês tirarão água da rocha para a comunidade e os
rebanhos beberem".
⁹ Então Moisés
pegou a vara que estava diante do Senhor, como este lhe havia ordenado.
¹⁰ Moisés e Arão
reuniram a assembleia em frente da rocha, e Moisés disse: "Escutem,
rebeldes, será que teremos que tirar água desta rocha para lhes dar? "
¹¹ Então
Moisés ergueu o braço e bateu na rocha duas vezes com a vara. Jorrou água, e a
comunidade e os rebanhos beberam. (Números 20:1-11.) (Grifos do
professor.)
O
instrumento da magia divina, o cajado (bastão, vara), aparece
novamente, contribuindo para uma ação poderosa, mágica e milagrosa: o brotar de
águas de uma rocha e o saciamento da sede do povo e de seus rebanhos.
O
fato de magos, sábios e feiticeiros do Egito dominarem a ciência oculta que
lhes permitiu realizar ações mágicas, semelhantes às de Arão e Moisés, aponta
para outro fato: uma tradição antiga, ciência (conhecimento), que exigia, com
certeza, aprendizado por um bom número de anos, com observações, estudos e
práticas.
Curiosamente,
a vara, o bastão, aparece no passado, mas também no decorrer do tempo, em
práticas mágico-alquímicas e histórias, como a história do Mago Merlin, nas
lendas do Rei Arthur. Eis o que diz o site Nightbringer:
“O cajado de
Merlin é mais que um simples instrumento de mágica – é um símbolo de sabedoria,
autoridade, e as forças misteriosas que moldam o destino do Rei Artur. Por
todos os romances arturianos, Merlin empunha seu cajado tanto como uma
ferramenta quanto um sinal de sua conexão única com o sobrenatural, fazendo uma
ponte entre o mundo dos homens e o mundo dos espíritos, o destino e a vontade
livre [o livre-arbítrio].” (In: NIGHTBRINGER. Merlin´s
Staff. Disponível em: < https://nightbringer.se/content/merlins-staff/#:~:text=Merlin's%20Staff%20embodies%20multiple%20layers,%2C%20wisdom%2C%20and%20moral%20insight. > Acesso em
24/01/2026.
Tradução do professor.)
Nos
trechos do Êxodo igualmente se cruzam a ferramenta (instrumento), a sabedoria
(sábios do Egito e os sábios Moisés e Arão), autoridade – autoridade dada pelo
conhecimento e, principalmente, da ligação com o divino: Deus (Yehovah), no
caso de Moisés; os deuses e outros seres divinos, no caso dos feiticeiros,
magos e sábios do Egito. Conexões com o sobrenatural, para aproveitar do que
diz o texto acima, bem como pontes que ligam os seres humanos e o mundo
sobrenatural, onde Deus ou os deuses faz(em) sua morada.
Interessante
perceber, no caso de Moisés e Arão, que Deus (Yehovah) fala diretamente, dando
a impressão de uma proximidade muito grande entre Ele e seus dois
interlocutores. Os sábios do Egito e Merlin também tinham um trato próximo com
o divino, permitindo-lhes, por meio do cajado (instrumento), dispor diante de
si e de outros do poder sobrenatural que, por meio dessa ferramenta, emanava.
O
Nightbringer traz um outro trecho significativo:
“O
Cajado de Merlin incorpora múltiplas
camadas de significado. Como uma ferramenta, ele representa autoridade e
domínio sobre [acerca do] conhecimento tanto do oculto quanto do divino. Como
símbolo, ele representa a condução [guia] de reis, a mediação entre os reinos
terreno e espiritual, e a responsabilidade que vem com o poder. Essa associação
com a profecia e a visão enfatiza que a mágica [a magia] na lenda arturiana é
inseparável da previsão [antevisão], da sabedoria e do conhecimento [insight,
também: discernimento] moral.” (NIGHTBRINGER. Idem.) (Tradução do professor.)
Algo
importante a salientar: tanto no caso do faraó do Egito quanto nas histórias do
Rei Arthur e de Moisés, uma relação profunda entre magia, religião e política
(poder político, poder de decisão social).
No
entanto, já que se está tratando do cajado (vara, bastão), a vara aparece
também na literatura, podendo-se apresentar um claro exemplo nos livros de
Harry Potter, retratados em filmes inclusive. Harry Potter e todos os magos
(bruxos) usam varinhas que dispõem de grande poder – capazes de levantar penas,
animais e realizar transformações, para além do natural (sobrenatural). Bruxas!
Ver
as imagens:
Conjunto
1:
Conjunto 2:
Conjunto 3:
A
varinha mágica aparece igualmente em apresentações de mágicos(as), junto com a
cartola e outros instrumentos através dos quais se realizam os truques de
mágica.
Ver:
Mitologias,
envolvendo deuses, deusas, seres sobrenaturais e naturais, pessoas e muitas
ações poderosas – magias, milagres e outras façanhas – são comuns. As histórias
de Moisés e Arão (Aarão), dos sábios egípcios, de Merlin, Harry Potter e outras
tantas são permeadas de elementos míticos.
Os
mitos – histórias sobre deuses, deusas, semideuses e outros seres divinos e
sobrenaturais – fazem parte da vida humana, apontando a necessidade humana de
transcender a vida cotidiana e a monotonia.
Viu-se,
aqui, um pedaço da história das origens da vara como instrumento de magia, bem
como suas interrelações com o divino, o humano, a religião e o poder político.
Para dobrar o poder político do rei egípcio (o faraó) foi preciso a ação
divina, por meio de pessoas e desse instrumento mágico comum nos relatos
míticos de diferentes povos, em diferentes eras da história humana.
Em
Merlin e em Harry Potter, bem como em outras histórias de magos, como na Bíblia
e no antigo Egito, poder mágico, conhecimento, poder religioso e poder político
caminham lado a lado – a ação de Moisés e de seu irmão Arão (Aarão) foi
política, além de religiosa: libertação e reconstituição de um povo. O
instrumento mediador, a ferramenta natural e sobrenatural, o cajado (vara,
bastão, bordão), ajudou bastante, seguramente.
Um
ponto extra a ser ressaltado: o cetro real (o cetro do rei), um bastão que é representativo
do poder real, símbolo de domínio do rei sobre o povo e sobre os que lhe são
próximos. Outra vara de poder – aqui retratando o poder político! Para citar um
exemplo bíblico a mais: o momento em que a Rainha Ester vai até o rei:
¹ Três dias
depois, Ester vestiu seus trajes de rainha e colocou-se no pátio interno do
palácio, em frente ao salão do rei. O rei estava no trono, de frente para a
entrada.
² Quando viu a
rainha Ester ali no pátio, teve misericórdia dela e estendeu-lhe o cetro de
ouro que tinha na mão. Ester aproximou-se e tocou a ponta do cetro.
³ E o rei lhe
perguntou: "Que há, rainha Ester? Qual é o seu pedido? Mesmo que seja a
metade do reino, lhe será dado". (Ester 5:1-3. NVI.)
Vale
lembrar que reis, desde a antiguidade até hoje, receberam e recebem seu poder,
geralmente, de um sacerdote – seja o papa ou outro, conforme a religião de
predomínio no reino –, portanto um poder que guarda consigo algo de divino. O
cetro, como o cajado mágico, carrega consigo um profundo simbolismo, tanto
político quanto religioso.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES
CRISTÃOS. Bíblia Sagrada Bilíngue – Português/Inglês – NVI (Nova Versão
Internacional). Vários tradutores. São Paulo, Editora Vida, 2003.
ARANHA,
Maria L. de A. e MARTINS, Maria H. P. Filosofando:
Introdução à Filosofia. 4.ed. São Paulo, Moderna, 2009.
CHAUÍ, Marilena. Iniciação à
Filosofia. 3.ed. São Paulo, Ática, 2017.
NIGHTBRINGER. Merlin´s Staff.
Disponível em: < https://nightbringer.se/content/merlins-staff/#:~:text=Merlin's%20Staff%20embodies%20multiple%20layers,%2C%20wisdom%2C%20and%20moral%20insight. > Acesso em
24/01/2026.
WIKIPÉDIA. Verbetes: Círculo
Mágico, Harry Potter. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal > Acesso em
24/01/2026.