“O HOMEM, UM MICROCOSMOS”, SEGUNDO LEUCIPO DE ABDERA. PARTE 1. (Prof. José Antônio Brazão.)
Segundo
Leucipo de Abdera, conforme Gerd Bornheim no livro Os Filósofos Pré-Socráticos:
“O homem, um microcosmos”.
Leucipo
foi atomista – defensor da existência dos átomos como constituidores de tudo
que existe – e mestre de Demócrito, ambos de Abdera, antiga cidade entre a Ásia
Menor (atual Turquia) e a Grécia.
Mas
por que razões Leucipo e, com ele, Demócrito acreditavam que cada ser humano é
um microcosmos – um cosmos (universo, mundo) em tamanho reduzido?
É
preciso partir do cosmos maior – o universo – e sua imensidão. Ao mesmo tempo
que é imenso, o cosmos é extremamente ordenado. Contém estrelas, planetas, o
Sol e outros astros. Aqui é importante deixar bem claro: o universo (cosmos)
geocêntrico dos tempos antigos e do mundo grego, inclusive.
O
cosmos grego e de outros povos antigos era geocêntrico, ou seja, tinha a Terra
(Geia, Gaia, em grego, daí GEO) como centro. Ao redor dela, todos os astros
giram, na sequência: TERRA (no centro), seguida de Lua, Mercúrio, Vênus, Sol,
Marte, Júpiter, Saturno e as estrelas fixas. Um universo, portanto, fechado,
encerrado com as estrelas fixas em uma enorme abóbada.
Esse
universo era, como foi dito, extremamente ordenado. A palavra COSMOS reflete
essa ideia, significando ordem, harmonia. Um universo harmônico. Cada astro em seu lugar, se movendo
circularmente ao redor da Terra, como uma máquina em que cada peça faz parte de
um todo.
Assim
também é o corpo humano: cada órgão, cada sistema, todas as partes conectadas entre
si, em equilíbrio, ordenadamente, harmonicamente. Nada fora do lugar. Semelhante,
portanto, ao cosmos (universo ordenado, harmônico). Daí: microcosmos! Da mesma maneira
como o cosmos funciona, assim funciona o corpo humano.
Curiosamente,
na antiguidade, houve povos que viam até uma ligação entre o ser humano e o cosmos
através da astrologia. Ainda hoje, há muita gente que crê nessa relação de
cosmos-ser humano, macrocosmos-microcosmos.
Leucipo
e Demócrito acreditavam, ademais, que tudo é formado por átomos – partículas indivisíveis,
minúsculas e invisíveis a olhos nus, ilimitadas – unidos por ganchos ou
encaixes, tendo formas diferentes, algo parecido com o brinquedo de Lego atual.
Os átomos formam todas as coisas e todas as coisas encontram-se numa harmonia e
num grande ordenamento cósmicos.
Os
átomos não se unem de modo totalmente aleatório, portanto: unem-se conforme os
ganchos ou os encaixes lhes permitem unir-se. O universo (cosmos) não é caótico
(desordenado, bagunçado), segue um ordenamento.
Aqui
vale citar o fragmento doxográfico 1 (fragmento de opinião [doxa, em grego]) de
Diógenes Laércio, um escritor antigo:
“1 - Leucipo foi
discípulo de Zenão. Pensava que todas as coisas são ilimitadas, e que se
transformam umas nas outras; o todo seria vazio e ocupado por corpos; os mundos
se formariam quando estes corpos entrassem no vazio, misturando-se uns aos
outros; do seu movimento e de sua aglomeração nasceria a natureza dos astros; o
Sol se moveria em um círculo maior em volta da Lua; a Terra teria sido levada
ao centro por um movimento de rotação, sendo semelhante a um tambor. Foi o
primeiro a afirmar os átomos como princípio de todas as coisas. Em resumo, são
estas as suas opiniões. calas 53 em detalhe: diz que o universo e ilimitado,
corri uma parte cheia e a outra vazia, que chama de elementos. Os mundos que
criam são ilimitados e desfazem-se nestes elementos. Os mundos se formam da
seguinte maneira: muitos átomos de formas variadas reúnem-se no imenso vazio
após a separação do ilimitado; uma vez unidos, formam um único turbilhão, e,
ferindo-se e rolando em todos Os sentidos, separam-se, unindo-se os semelhantes
com os semelhantes. Incapazes de guardar seu equilíbrio devido a seu número, os
átomos subtis dirigem-se ao vazio exterior, corno se tivessem sido joeirados, e
o resto permanece no centro, une-se bem, solidifica-se e começa a formar urna
estrutura esféricas. Esta, primeiramente, e como uma membrana que contém átomos
de todos os tipos. Estes movimentam-se devido a impulsos vindos do centro,
formando mais uma delgada membrana no exterior, a qual prendem-se sempre novos átomos,
em consequência do choque no turbilhão. E assim forma-se a Terra, permanecendo
no centro os átomos que nele foram jogados, crescendo, por influência dos
átomos externos, a parte que o cerca corno uma membrana, e que, levada pelo
turbilhão, prende a si tudo com que se choca. Destes átomos os que se agregam
constituem uma estrutura, no início úmida e lamacenta, que seca e é levada pelo
turbilhão do conjunto. Em seguida, ao se inflamar, do nascimento aos astros. O
Sol e o círculo mais externo e a Lua o mais vizinho da Terra, sendo os astros
intermediários. E de urna maneira geral, todos os astros, devido a rapidez de
seu movimento, se incendeiam, e o Sol C incendiado pelos astros. A Lua tem
apenas fraca parte de fogo ( ... ).” (BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos
Pré-Socráticos. São Paulo, Cultrix, s/data, pp. 52-53. Disponível em: < https://philosophiaediscipulus.wordpress.com/wp-content/uploads/2016/05/907_-_os_filsofos_pr-socrticos_-_gerd_a_bornheim.pdf
> Acesso 10/07/2026.)
Analisando
parte por parte:
Parte 1: “Leucipo
foi discípulo de Zenão. Pensava que todas as coisas são ilimitadas, e que se
transformam umas nas outras; o todo seria vazio e ocupado por corpos; os mundos
se formariam quando estes corpos entrassem no vazio, misturando-se uns aos
outros; do seu movimento e de sua aglomeração nasceria a natureza dos astros; o
Sol se moveria em um círculo maior em volta da Lua; a Terra teria sido levada
ao centro por um movimento de rotação, sendo semelhante a um tambor.”
1. Todas
as coisas são ilimitadas e se transformam umas nas outras. Como? Os átomos
formam seres os mais diversos. Porém, esses seres estão sujeitos ao tempo, às
intempéries, às mudanças – o que permanecem são os átomos, não os seres que
eles formam. A mesa de madeira, feita de átomos, apodrece e seus átomos se espalham,
vindo a formar outros seres.
2.
“(...) o todo seria vazio e ocupado
por corpos (...)”. Existem os átomos, que formam os corpos, e o vazio (Veja-se:
O TURBILHÃO DE
DEMÓCRITO, disponível em: https://filosofianodia-a-dia.blogspot.com/2017/05/o-turbilhao-de-democrito-prof-jose.html
).
3. “(...)
os mundos se formariam quando estes corpos entrassem no vazio, misturando-se
uns aos outros; do seu movimento e de sua aglomeração nasceria a natureza dos
astros (...)”. O vazio foi e é fundamental à formação dos mundos e dos corpos
neles existentes. Os astros e todos os seres se mesclam. Se havia o caos nos
primórdios, o movimento foi fundamental para que tudo se arranjasse, tudo se
ordenasse harmonicamente, em meio ao vazio. Os astros são resultado da
aglomeração (ajuntamento), num mesmo conjunto (o cosmos), todos dispostos
harmonicamente com uma ajuda do movimento. E aqui se pode ver algo semelhante a
Heráclito, para o qual o movimento (devir, vir a ser, mudança, deslocamento,
transformação) é componente essencial de tudo que existe. Tudo está em
movimento, segundo Heráclito. Leucipo e, com ele, Demócrito, conheciam a visão
heraclitiana do movimento e concordavam com ela.
4. “(...)
o Sol se moveria em um círculo maior em volta da Lua; a Terra teria sido levada
ao centro por um movimento de rotação, sendo semelhante a um tambor.” Leucipo
compartilha com outros antigos a crença de que os astros girariam ao redor da
Terra em círculos, inclusive o Sol e a Lua! A Terra foi posta no centro pelo
movimento rotacional (em roda – giro presente no turbilhão de Demócrito, para
lembrar).
5. A
Terra tem a forma de um tambor, um instrumento musical, ao mesmo tempo, redondo
e cilíndrico. A crença numa Terra cilíndrica não devia ser única – no livro
ALMAGESTO, de Cláudio Ptolomeu (século II d.C. [ou E.C. – Era Comum]), Ptolomeu
derruba essa ideia de uma Terra cilíndrica e defende uma Terra esférica! Um
ponto em comum entre Leucipo e Ptolomeu: a Terra é circular, constituída de
matéria. No caso de Leucipo: uma matéria constituída por uma imensidão de
átomos!
NA PRÓXIMA
PUBLICAÇÃO: Parte 2 e, provavelmente, também a parte 3.
REFERÊNCIAS:
BORNHEIM, Gerd A. (Org.) Os
Filósofos Pré-Socráticos. 14.ed. São Paulo, Cultrix, 1996. Disponível
em: < https://philosophiaediscipulus.wordpress.com/wp-content/uploads/2016/05/907_-_os_filsofos_pr-socrticos_-_gerd_a_bornheim.pdf
> Acesso 10/07/2026.
BRAZÃO, José Antônio. O
turbilhão de Demócrito. Disponível em: < https://filosofianodia-a-dia.blogspot.com/2017/05/o-turbilhao-de-/democrito-prof-jose.html
> Acesso em 10/07/2026.
ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA. Great
Books of The Western World. Ptolemy, Copernicus, Kepler. Disponível em:
< https://archive.org/details/greatbooksofwest0000ptol
> Acesso em 10/07/2026. (Obs.: O acesso a este livro, na internet, é
limitado.)
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