sexta-feira, 10 de julho de 2026

O HOMEM, UM MICROCOSMOS, SEGUNDO LEUCIPO DE ABDERA. PARTE 1. (Prof. José Antônio Brazão.)

“O HOMEM, UM MICROCOSMOS”, SEGUNDO LEUCIPO DE ABDERA. PARTE 1. (Prof. José Antônio Brazão.)

Segundo Leucipo de Abdera, conforme Gerd Bornheim no livro Os Filósofos Pré-Socráticos: “O homem, um microcosmos”.

Leucipo foi atomista – defensor da existência dos átomos como constituidores de tudo que existe – e mestre de Demócrito, ambos de Abdera, antiga cidade entre a Ásia Menor (atual Turquia) e a Grécia.

Mas por que razões Leucipo e, com ele, Demócrito acreditavam que cada ser humano é um microcosmos – um cosmos (universo, mundo) em tamanho reduzido?

É preciso partir do cosmos maior – o universo – e sua imensidão. Ao mesmo tempo que é imenso, o cosmos é extremamente ordenado. Contém estrelas, planetas, o Sol e outros astros. Aqui é importante deixar bem claro: o universo (cosmos) geocêntrico dos tempos antigos e do mundo grego, inclusive.

O cosmos grego e de outros povos antigos era geocêntrico, ou seja, tinha a Terra (Geia, Gaia, em grego, daí GEO) como centro. Ao redor dela, todos os astros giram, na sequência: TERRA (no centro), seguida de Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno e as estrelas fixas. Um universo, portanto, fechado, encerrado com as estrelas fixas em uma enorme abóbada.

Esse universo era, como foi dito, extremamente ordenado. A palavra COSMOS reflete essa ideia, significando ordem, harmonia. Um universo harmônico.  Cada astro em seu lugar, se movendo circularmente ao redor da Terra, como uma máquina em que cada peça faz parte de um todo.

Assim também é o corpo humano: cada órgão, cada sistema, todas as partes conectadas entre si, em equilíbrio, ordenadamente, harmonicamente. Nada fora do lugar. Semelhante, portanto, ao cosmos (universo ordenado, harmônico). Daí: microcosmos! Da mesma maneira como o cosmos funciona, assim funciona o corpo humano.

Curiosamente, na antiguidade, houve povos que viam até uma ligação entre o ser humano e o cosmos através da astrologia. Ainda hoje, há muita gente que crê nessa relação de cosmos-ser humano, macrocosmos-microcosmos.

Leucipo e Demócrito acreditavam, ademais, que tudo é formado por átomos – partículas indivisíveis, minúsculas e invisíveis a olhos nus, ilimitadas – unidos por ganchos ou encaixes, tendo formas diferentes, algo parecido com o brinquedo de Lego atual. Os átomos formam todas as coisas e todas as coisas encontram-se numa harmonia e num grande ordenamento cósmicos.

Os átomos não se unem de modo totalmente aleatório, portanto: unem-se conforme os ganchos ou os encaixes lhes permitem unir-se. O universo (cosmos) não é caótico (desordenado, bagunçado), segue um ordenamento.

Aqui vale citar o fragmento doxográfico 1 (fragmento de opinião [doxa, em grego]) de Diógenes Laércio, um escritor antigo:

“1 - Leucipo foi discípulo de Zenão. Pensava que todas as coisas são ilimitadas, e que se transformam umas nas outras; o todo seria vazio e ocupado por corpos; os mundos se formariam quando estes corpos entrassem no vazio, misturando-se uns aos outros; do seu movimento e de sua aglomeração nasceria a natureza dos astros; o Sol se moveria em um círculo maior em volta da Lua; a Terra teria sido levada ao centro por um movimento de rotação, sendo semelhante a um tambor. Foi o primeiro a afirmar os átomos como princípio de todas as coisas. Em resumo, são estas as suas opiniões. calas 53 em detalhe: diz que o universo e ilimitado, corri uma parte cheia e a outra vazia, que chama de elementos. Os mundos que criam são ilimitados e desfazem-se nestes elementos. Os mundos se formam da seguinte maneira: muitos átomos de formas variadas reúnem-se no imenso vazio após a separação do ilimitado; uma vez unidos, formam um único turbilhão, e, ferindo-se e rolando em todos Os sentidos, separam-se, unindo-se os semelhantes com os semelhantes. Incapazes de guardar seu equilíbrio devido a seu número, os átomos subtis dirigem-se ao vazio exterior, corno se tivessem sido joeirados, e o resto permanece no centro, une-se bem, solidifica-se e começa a formar urna estrutura esféricas. Esta, primeiramente, e como uma membrana que contém átomos de todos os tipos. Estes movimentam-se devido a impulsos vindos do centro, formando mais uma delgada membrana no exterior, a qual prendem-se sempre novos átomos, em consequência do choque no turbilhão. E assim forma-se a Terra, permanecendo no centro os átomos que nele foram jogados, crescendo, por influência dos átomos externos, a parte que o cerca corno uma membrana, e que, levada pelo turbilhão, prende a si tudo com que se choca. Destes átomos os que se agregam constituem uma estrutura, no início úmida e lamacenta, que seca e é levada pelo turbilhão do conjunto. Em seguida, ao se inflamar, do nascimento aos astros. O Sol e o círculo mais externo e a Lua o mais vizinho da Terra, sendo os astros intermediários. E de urna maneira geral, todos os astros, devido a rapidez de seu movimento, se incendeiam, e o Sol C incendiado pelos astros. A Lua tem apenas fraca parte de fogo ( ... ).” (BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Cultrix, s/data, pp. 52-53. Disponível em: < https://philosophiaediscipulus.wordpress.com/wp-content/uploads/2016/05/907_-_os_filsofos_pr-socrticos_-_gerd_a_bornheim.pdf  > Acesso 10/07/2026.)

Analisando parte por parte:

Parte 1: “Leucipo foi discípulo de Zenão. Pensava que todas as coisas são ilimitadas, e que se transformam umas nas outras; o todo seria vazio e ocupado por corpos; os mundos se formariam quando estes corpos entrassem no vazio, misturando-se uns aos outros; do seu movimento e de sua aglomeração nasceria a natureza dos astros; o Sol se moveria em um círculo maior em volta da Lua; a Terra teria sido levada ao centro por um movimento de rotação, sendo semelhante a um tambor.”

1.    Todas as coisas são ilimitadas e se transformam umas nas outras. Como? Os átomos formam seres os mais diversos. Porém, esses seres estão sujeitos ao tempo, às intempéries, às mudanças – o que permanecem são os átomos, não os seres que eles formam. A mesa de madeira, feita de átomos, apodrece e seus átomos se espalham, vindo a formar outros seres.

2.      “(...) o todo seria vazio e ocupado por corpos (...)”. Existem os átomos, que formam os corpos, e o vazio (Veja-se: O TURBILHÃO DE DEMÓCRITO, disponível em: https://filosofianodia-a-dia.blogspot.com/2017/05/o-turbilhao-de-democrito-prof-jose.html ).  

3.    “(...) os mundos se formariam quando estes corpos entrassem no vazio, misturando-se uns aos outros; do seu movimento e de sua aglomeração nasceria a natureza dos astros (...)”. O vazio foi e é fundamental à formação dos mundos e dos corpos neles existentes. Os astros e todos os seres se mesclam. Se havia o caos nos primórdios, o movimento foi fundamental para que tudo se arranjasse, tudo se ordenasse harmonicamente, em meio ao vazio. Os astros são resultado da aglomeração (ajuntamento), num mesmo conjunto (o cosmos), todos dispostos harmonicamente com uma ajuda do movimento. E aqui se pode ver algo semelhante a Heráclito, para o qual o movimento (devir, vir a ser, mudança, deslocamento, transformação) é componente essencial de tudo que existe. Tudo está em movimento, segundo Heráclito. Leucipo e, com ele, Demócrito, conheciam a visão heraclitiana do movimento e concordavam com ela.

4.    “(...) o Sol se moveria em um círculo maior em volta da Lua; a Terra teria sido levada ao centro por um movimento de rotação, sendo semelhante a um tambor.” Leucipo compartilha com outros antigos a crença de que os astros girariam ao redor da Terra em círculos, inclusive o Sol e a Lua! A Terra foi posta no centro pelo movimento rotacional (em roda – giro presente no turbilhão de Demócrito, para lembrar).

5.    A Terra tem a forma de um tambor, um instrumento musical, ao mesmo tempo, redondo e cilíndrico. A crença numa Terra cilíndrica não devia ser única – no livro ALMAGESTO, de Cláudio Ptolomeu (século II d.C. [ou E.C. – Era Comum]), Ptolomeu derruba essa ideia de uma Terra cilíndrica e defende uma Terra esférica! Um ponto em comum entre Leucipo e Ptolomeu: a Terra é circular, constituída de matéria. No caso de Leucipo: uma matéria constituída por uma imensidão de átomos!

NA PRÓXIMA PUBLICAÇÃO: Parte 2 e, provavelmente, também a parte 3.

REFERÊNCIAS:

BORNHEIM, Gerd A. (Org.) Os Filósofos Pré-Socráticos. 14.ed. São Paulo, Cultrix, 1996. Disponível em: < https://philosophiaediscipulus.wordpress.com/wp-content/uploads/2016/05/907_-_os_filsofos_pr-socrticos_-_gerd_a_bornheim.pdf  > Acesso 10/07/2026.

BRAZÃO, José Antônio. O turbilhão de Demócrito. Disponível em: < https://filosofianodia-a-dia.blogspot.com/2017/05/o-turbilhao-de-/democrito-prof-jose.html > Acesso em 10/07/2026.

ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA. Great Books of The Western World. Ptolemy, Copernicus, Kepler. Disponível em: < https://archive.org/details/greatbooksofwest0000ptol > Acesso em 10/07/2026. (Obs.: O acesso a este livro, na internet, é limitado.)