segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
domingo, 3 de dezembro de 2017
QUARTA QUESTÃO DE FILOSOFIA DO ENEM 2017 ANALISADA: (Prof. José Antônio Brazão.)
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Questão 71 do
Caderno 3, Branco, do primeiro dia.
QUESTÃO 71:
Uma pessoa vê-se forçada pela necessidade a pedir dinheiro emprestado. Sabe
muito bem que não poderá pagar, mas vê também que não lhe emprestarão nada se
não prometer firmemente pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer
a promessa; mas tem ainda consciência bastante para perguntar a si mesma: não
é proibido e contrário ao dever livrar-se de apuros desta maneira? Admitindo que se decida a
fazê-lo, a sua máxima de ação seria: quando julgo estar em apuros de
dinheiro, vou pedi-lo emprestado e prometo pagá-lo, embora saiba que tal
nunca sucederá. (KANT,
I. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo, Abril Cultural,
1980.)
De acordo com
a moral kantiana, a “falsa promessa de pagamento” representada no texto
(A) assegura
que a ação seja aceita por todos a partir da livre discussão participativa.
(B) garante
que os efeitos das ações não destruam a possibilidade de vida futura na
terra.
(C) opõe-se ao
princípio de que toda ação do homem possa valer como norma universal.
(D) materializa-se
no entendimento de que os fins da ação humana podem justificar os meios.
(E) permite
que a ação individual produza a mais ampla felicidade para as pessoas
envolvidas.
RESPOSTA:
letra (C).
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Em
resumo, Immanuel Kant, filósofo iluminista alemão que viveu entre o século
dezoito e princípio do dezenove, no texto citado, imagina a possibilidade de
uma pessoa mentir para poder receber um dinheiro emprestado e resolver a
necessidade que a levou a isto, sabendo que não poderá pagar. Vamos analisar
cada alternativa. A falsa promessa de
pagamento representada no texto:
Alternativa (A)
“assegura que a ação seja aceita por todos a partir da livre discussão
participativa” (grifo meu). Em sã consciência, ninguém aceitaria que alguém
pudesse fazer uma falsa promessa de pagamento. Por quê? Porque essa falsa
promessa representa o prejuízo de outra pessoa, aquela que emprestou o
dinheiro. E mesmo que alguém admitisse essa possibilidade, nem todos a
aceitariam, com certeza.
Alternativa (B)
“garante que os efeitos das ações não destruam a possibilidade de vida
futura na terra” (grifo meu). Qual seria(m) o(s) efeito(s) da aceitação de
que as pessoas podem ou poderiam prometer e não cumprir o que foi prometido? O principal efeito seria o de que ninguém
viria a confiar nas promessas de ninguém. Ora, a confiança é fundamental à vida
coletiva. Para a vida coletiva, de fato, isto seria um desastre, ainda que, de
fato, não eliminasse a possibilidade de vida futura na terra. Não haveria
confiança e, sem ela, não haveria respeito, sabendo-se que não se deve dar
crédito a ninguém.
Alternativa (D)
“materializa-se no entendimento de que os fins da ação humana podem
justificar os meios” (grifo meu). No caso, qual seria o fim da mentira
(falsa promessa)? Livrar-se de apuros financeiros. E qual seria o meio para
obter o dinheiro emprestado? O uso de uma falsa promessa mentirosa, sem
cumprimento da palavra dada. Kant jamais defendeu a ideia de que os fins
justificam os meios. Essa ideia aparece em outro filósofo, bem anterior ao
tempo de Kant, o italiano Nicolau Maquiavel, e, mesmo assim, deve ser
interpretada com muito cuidado, tendo em vista que Maquiavel não tinha intenção
de prejudicar súditos dos príncipes, mas fortalecer o poder destes,
resguardando sua posição e os fortalecendo.
Alternativa (E)
“permite que a ação individual produza a mais ampla felicidade para as
pessoas envolvidas” (grifo meu). No caso, qual ação individual? A falsa
promessa, o uso da mentira (prometer pagar sabendo que, na verdade, não pagará)
para obter um benefício pessoal (obtenção de dinheiro emprestado). Que pessoas
envolvidas? No caso do texto kantiano: quem quer o dinheiro emprestado e seu
credor (pessoa que emprestou). E a felicidade? De quem? Certamente, de quem
terá pegado o dinheiro emprestado. E do credor? Nenhuma felicidade, muitíssimo
certamente. Então, a ideia de que a ação produziria “a mais ampla felicidade
para as pessoas envolvidas” vai por água abaixo.
Alternativa (C)
[A falsa promessa de pagamento representada no texto] “opõe-se ao princípio de
que toda ação do homem possa valer como norma universal”. Immanuel Kant, em
seus livros sobre ética, diz claramente que é um grande princípio o de que
“toda ação do homem possa valer como norma universal”. Explicando melhor: de
acordo com Kant, toda ação humana dever ser pautada na reflexão de que a ação
de cada um(a) deve ser tão boa e tão ética de modo que ela possa valer, como
princípio e prática, para todos os seres humanos. E por que Kant parte do
indivíduo para o todo? Porque é em cada pessoa que residem valores e normas. O que
uma pessoa não quer para si ela também não deve querer para os outros. O que
ela não quer que pratiquem contra ela, também ela não deve praticar contra quem
quer que seja. E o que quer para si (o bem) ela deve querer e praticar em
relação a todos os outros. Portanto, a ação de cada pessoa deve ser tal que
possa valer como norma (regra) universal (comum a todos). Se cada pessoa, no
todo, fizer sua parte, a vida comum, pautada na ética, trará enormes benefícios
a todos. O bem comum (o bem de todos) depende de cada um(a) agir de modo ético.
Isto não quer dizer que as pessoas são perfeitinhas. Não. Kant sabia muito bem
dos defeitos humanos, das fraquezas. Porém, sabia bem que cada pessoa guarda
dentro de si a RAZÃO e é ela que define a prática, por meio de princípios
éticos, dentre os quais um princípio fundamental é o de que as ações humanas
devem “valer como normas universais”. A razão prática é a razão que se aplica à
ética! Daí se vê que a alternativa (C) é a correta.
Alguns
pontos:
1) Bons
livros didáticos trazem um bom esclarecimento da ética kantiana. Observe bem
que esta questão exige o conhecimento de princípios fundamentais da ética
kantiana, encontráveis em livros do filósofo (Immanuel Kant) e, de modo geral,
em linguagem adaptada, nos livros didáticos escolares de Filosofia. Também nas
aulas da professora e do professor a respeito do assunto.
2) Essa
questão, como outras, exigiu estudos (leituras e releituras) da moral kantiana.
Todo livro didático costuma ter uma parte que se chama Ética, na qual fala também
da ética de Kant.
3) Além
de bons livros didáticos, que são importantíssimos, o pensamento kantiano pode
ser encontrado em bons sites da internet.
4)
Quanto
aos livros sobre Kant e demais filósofos e filósofas:
a)
O
livro didático de Filosofia em uso na sua escola.
b)
Outros
livros didáticos de Filosofia disponíveis na biblioteca da escola.
c)
Livros
de filosofia na biblioteca escolar. Via empréstimo.
d)
Livros
de filosofia em alguma biblioteca municipal (da cidade). Via empréstimo.
e)
Livros
de filosofia nalguma biblioteca de bairro. Via empréstimo.
f)
Bancas
de revistas (revistarias) costumam dispor, de tempos em tempos, de livros de
filosofia bem baratos.
g)
Possível
aquisição em livrarias.
sábado, 2 de dezembro de 2017
TERCEIRA QUESTÃO ANALISADA DO ENEM 2017: (Prof. José Antônio Brazão.)
Questão 70 do
Caderno 3 Branco, do primeiro dia.
QUESTÃO
70: O conceito de democracia, no pensamento de Habermas, é constituído a
partir de uma dimensão procedimental, calcada no discurso e na deliberação. A
legitimidade democrática exige que o processo de tomada de decisões políticas
ocorra a partir de uma ampla discussão pública, para somente então decidir.
Assim, o caráter deliberativo corresponde a um processo coletivo de
ponderação e análise, permeado pelo discurso, que antecede a decisão. [VITALE,
D. Jurgen Habermas, modernidade e democracia deliberativa. Cadernos do CRH
(UFBA), V. 19, 2006. (adaptado)]
O
conceito de democracia proposto por Jurgen Habermas pode favorecer processos
de inclusão social. De acordo com o texto, é uma condição para que isso
aconteça o(a)
(A)
participação direta periódica do cidadão.
(B)
debate livre e racional entre cidadãos e Estado.
(C)
interlocução entre os poderes governamentais.
(D)
eleição de lideranças políticas com mandatos temporários.
(E)
controle do poder político por cidadãos mais esclarecidos.
RESPOSTA:
alternativa (B).
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Jurgen
Habermas foi um filósofo do século 20 que fez parte da Escola de Frankfurt, um
grupo de estudiosos de diferentes áreas, além de filósofos, que estudou,
discutiu e analisou uma série de questões, tanto econômicas, políticas, como
culturais e outras. Ela exerceu influência forte sobre diversas ciências, como
economia, sociologia, filosofia, história e outras.
Para
responder a esta do ENEM é preciso estar atento a o que o enunciado da questão
diz: “(...)De acordo com o texto...”
Então, onde estará(ão) a(s) chave(s) da resposta? No pequeno texto que antecede
o enunciado propriamente dito. Vejamos parte por parte.
“O
conceito de democracia, no
pensamento de Habermas, é constituído a partir de uma dimensão procedimental,
calcada no discurso e na deliberação. (...)” Conceito é aquilo
que é concebido, gerado, na mente – a maneira como se concebe, ou melhor, como
se entende, como se compreende algo. Aqui, o modo como é entendida a democracia
pelo filósofo Habermas. E a democracia, aparece claramente no texto, é calcada
(baseada, fundamentada) “no discurso e na deliberação”. Discurso é fala,
exposição por meio da fala (e\ou da escrita). Deliberação é decisão. Ora,
ninguém decide, neste caso, sozinho(a). Por quê? Porque é necessário o uso da
palavra, ideia bem presente em “discurso”. Então, deliberação, neste caso, é
uma decisão conjunta, na qual todos podem fazer uso da palavra. Deliberação pode ser também uma discussão, a partir
da qual se toma uma decisão. Marquemos bem estas duas palavras “discurso” e “deliberação”. Vejamos a sequência.
“(...)A
legitimidade democrática exige que o processo de tomada de decisões políticas
ocorra a partir de uma ampla discussão pública, para somente então decidir.(...)”
Dar legitimidade é tornar legítimo, isto é, verdadeiro. Uma democracia
verdadeira exige que quem toma as decisões as tome “a partir de uma ampla
discussão pública, para somente então decidir”, ou seja, é preciso DISCUSSÃO
pública, discussão do povo (público é o que é do povo), discussão ampla (geral,
aberta, portanto livre) entre as pessoas que fazem parte da população de uma
cidade, de um estado, de um país. Discussão significa DEBATE, Então, o que o
segundo trecho do texto quer dizer? Que as decisões políticas, para serem
verdadeiras, demandam (exigem) DEBATE amplo, no qual todas as pessoas da
sociedade possam participar. Habermas não está negando a representação popular
na política através de pessoas votadas (políticas e políticos). É preciso algo
mais: que o povo tenha direito de opinar através da palavra, da discussão, do
debate, das opiniões.
Enfim,
“(...)Assim, o caráter deliberativo corresponde a um processo coletivo de
ponderação e análise, permeado pelo discurso, que antecede a decisão.” Caráter
é aquilo que marca. Aquilo que marca ou deve marcar as deliberações, as
decisões, precisa corresponder a um processo (modo de conduzir) coletivo,
conjunto, grupal (que envolva a sociedade toda), no qual qualquer decisão deve
ser precedida pelo discurso, aqui
entendido como uso da palavra de
modo coletivo – isto é, no qual todas as pessoas possam dar sua palavra a
respeito da temática que envolve a decisão.
Então,
em que alternativa aparece a ideia de discurso, de discussão, de debate?
Claramente na alternativa (B)debate
livre e racional entre cidadãos e Estado. O Estado precisa abrir-se à
discussão (ao debate) coletiva(o) público (do povo). O povo tem direito a
manifestar sobre o que pensa sobre questões e decisões, a fim de que tais
decisões tenham validade (legitimidade).
Cara(o)
estudante, preste bastante a atenção nos enunciados das questões do ENEM e de
vestibulares em que a Filosofia e também a Sociologia estão presentes. NO caso
de análise textual, atente para palavras-chaves que poderão ajudar você a
descobrir a alternativa certa. Outro ponto: ao estudar para o ENEM, seja
Filosofia ou qualquer outra matéria escolar, tenha junto de si um dicionário de
língua portuguesa, a fim de poder entender bem os textos estudados e, para além
deles, as questões do ENEM e seus enunciados (exposições, declarações,
apresentações). Filosofia e Língua Portuguesa andam muitíssimo juntas. Aliás, a
Língua Portuguesa anda junta com todas as matérias (componentes curriculares)
da escola e até mesmo da universidade. Empenhe-se por conhece-la bem, por
domina-la. Portanto, leia crie o hábito de ler muito e de maneira
diversificada.
Fica
aí a dica: reforce bem o conhecimento da Língua Portuguesa! Poderá te ajudar
muitíssimo na interpretação de textos, não só do ENEM. Sobretudo, textos e
contextos da VIDA. Não veja a Língua Portuguesa como uma matéria chata, mas
como um conhecimento extremamente importante para a vida como um todo. Conhecendo-a
bem e tendo estudado igualmente bastante todas as matérias, com certeza, você
poderá sair-se bem no ENEM e, principalmente, na vida, lembrando, como o texto
sobre Habermas chama à atenção, o fato de que ela é coletiva!
Aprenda
muito e aprenda sempre!
Uma
última dica: mesmo que você não conheça o significado de todas as palavras de
um texto, preste bastante atenção naquelas que você conhece. Por meio delas é possível
encontrar o caminho de cada resposta. Por exemplo, no texto da questão, a
palavra DISCUSSÃO é uma palavra chave. Outras: DISCURSO e DECISÃO. Toda decisão
político-democrática, para ser verdadeiramente democrática, deve basear-se na
discussão pública (do povo, da coletividade) para ser decidida. Outra palavra:
COLETIVO (“processo coletivo...”). Na alternativa certa: DEBATE racional.
Debate é uma discussão que acontece com o uso do discurso, ou seja, das
palavras. E uma curiosidade: na língua grega, logos (de onde provém lógica) significa palavra, discurso, razão
(racional é aquilo que faz uso da razão ou que é baseado na razão, no logos).. A filosofia é constituída pelo logos. Habermas foi um grande filósofo.
sábado, 25 de novembro de 2017
UMA SEGUNDA QUESTÃO DE FILOSOFIA ENEM 2017 COMENTADA: (Prof. José Antônio Brazão.)
Questão número
50 do Caderno 3 Branco, do primeiro dia de provas.
QUESTÃO
50: Uma conversação de tal natureza transforma o ouvinte; o contato de
Sócrates paralisa e embaraça; leva a refletir sobre si mesmo, a imprimir à
atenção uma direção incomum: os temperamentais, como Alcibíades, sabem que
encontrarão junto dele todo o bem de que são capazes, mas fogem porque
receiam essa influência poderosa, que os leva a se censurarem. É sobretudo a
esses jovens, muitos quase crianças, que ele tenta imprimir sua orientação.
(BRÉHIER, E. História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977.)
O
texto evidencia características do modo de vida socrático, que se baseava na
(A) contemplação
da tradição mítica.
(B) sustentação
do método dialético.
(C) relativização
do saber verdadeiro.
(D) valorização
da argumentação retórica.
(E) investigação
dos fundamentos da natureza.
RESPOSTA:
Letra (B).
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Duas
pistas são claramente dadas para a resposta exata da questão, bem presentes no
texto: as palavras conversação e ouvinte. Conversação é a ação de
conversar, dialogar, bater papo. Ouvinte é quem ouve. Se ouve é porque tem
alguém que fala e, geralmente, numa conversação, quem ouve fala também,
trocando ideias com a(s) outra(s) pessoa. E nas alternativas, o que há de
similar? Duas palavras das alternativas são possíveis, por envolverem ouvintes:
dialético(da alternativa B) e retórica (da alternativa D). E o que significam?
Dialético
é uma palavra que provém de dialética. Dialético, ao pé da letra
(literalmente), aquele que pratica a dialética, ao nos referirmos a pessoas;
pode ser também um método que envolve a contradição. Dialética, por sua vez, tem sua raiz em diálogo. Em seu significado primário, dialética é a arte do
diálogo. E o que é diálogo? Diálogo é uma conversa, uma troca de ideias entre
pessoas por meio das palavras, um bate papo, enfim, uma conversação!
Retórica
é a arte de falar bem em público, oratória, segundo os dicionários de língua
portuguesa. A retórica é usada por políticos, pessoas que fazem discursos, por
advogadas e advogados e outras tantas pessoas que precisam falar bem em
público. Porém, é diferente de conversação. Geralmente, a retórica é usada para
se pronunciar discursos inflamados, calorosos, como os dos políticos e das
políticas, para defender clientes, como os das advogadas e dos advogados, e
assim por diante.
Nos
significados destas duas palavras podemos ver o quanto o conhecimento da
significação das palavras presentes na língua portuguesa é fundamental!
A língua portuguesa é uma imensa parceira no aprendizado de qualquer matéria
escolar e, particularmente, de Filosofia. Estudante, quando você for estudar
livros, apostilas e outros materiais escolares, de quaisquer matérias,
especialmente, neste caso, de Filosofia, tenha sempre do lado um dicionário de
língua portuguesa. Pode ser um bom dicionário básico. Dicionários não são luxo
e nem são caros. Outros livros também. Caro é você não conseguir a pontuação do
ENEM! Lembre-se sempre disto. Muitos estudantes têm celulares caros e não têm o
costume de comprar sequer um bom dicionário. Outros bons livros (e os ler)
também. Estou ou não estou certo disto?!
Então,
diante das duas definições que apontei a respeito de dialético e retórica, qual
das duas encaixaria melhor em CONVERSAÇÃO? Dialético, é claro! Então, por aí
você já praticamente teria a resposta da questão: letra B.
Outras
palavrinhas que aparecem nas alternativas e que você pode, de hoje em diante,
buscar o significado no dicionário de língua portuguesa: contemplação (palavra
da qual, comumente, temos alguma ideia do significado), tradição, mítica,
sustentação, método, relativização (!), argumentação, investigação, além de
dialético e retórica. Dê uma olhada nos diferentes significados destas palavras
no dicionário e, tendo um caderninho, vá anotando os significados destas e de
outras palavras filosóficas, científicas e comuns não tão bem conhecidas que
aparecerem nas aulas de Filosofia, na escola, bem como nos livros, com destaque
para o de Filosofia. Ok?
Duas
palavras que aparecem na letra B, antes de dialético: sustentação e método. O
que significam? Sustentação é a ação de sustentar, suportar, manter firme, mas
também significa defesa, ação de defender, sentido este que marca o
significado de sustentação na questão. E método? Método, em sua etimologia
(significado original da palavra, raiz da palavra), é caminho, ou seja, o caminho
que alguém percorre. Então Sócrates sustentou (defendeu, manteve firme) o
caminho (método) do diálogo (dialético) com seus ouvintes e, diversos deles,
igualmente debatedores, dialogadores. Ora, ninguém conversa sozinho.
Quanto
à alternativa (A)contemplação da tradição mítica. Tradição é aquilo que é
transmitido, passado adiante pelas sociedades às pessoas, ao longo da história
e da vida. Mítica é dos mitos. Transmissão dos mitos, relatos fantásticos e de
fé (muitas pessoas acreditavam piamente neles) a respeito das deusas, dos
deuses e de outros seres que viveram nos primórdios dos tempos e, a seguir, da
história humana. No caso da Grécia antiga: Zeus, Diana, Hélios (Apolo), Dioniso
e muitos(as) outros(as). Essa tradição era passada, através da educação, dos
sacerdotes e das sacerdotisas, de poetas (aedos e rapsodos) e por outros meios
às pessoas, desde a infância. Sócrates não foi um contemplador da tradição dos
mitos, com certeza. É claro, ele tinha fé, como comenta bem em livros de Platão
chamados Defesa de Sócrates, Fédon,
etc.
Quanto
à alternativa (C)relativização do saber verdadeiro. Relativização é a ação de
relativizar. Relativizar é tornar relativo. Neste caso da questão, relativo é
aquilo que depende de cada um, da opinião e das concepções de cada um. O saber
deixaria de ser verdadeiro universalmente (para todos, do mesmo modo) e
passaria a depender de cada um. E quem ensinava a relativização do saber
verdadeiro? Os sofistas! Quem eram estes? Professores-filósofos ou
filósofos-professores que vendiam seus conhecimentos em troca de dinheiro.
Ensinavam, principalmente, àqueles que queriam seguir alguma carreira,
especialmente a de político. Cobravam bem.
Quanto
à alternativa (D)valorização da argumentação retórica. De retórica já vimos os
significados básicos, fundamentais à sua compreensão. E o que é argumentação? É
a ação de usar argumentos, instrumentos linguísticos (de uso da língua) do
discurso que têm por finalidade defender posições (os argumentos dos políticos,
por exemplo), convencer pessoas (políticos, advogados, etc.), derrubar posições
contrárias, etc. Novamente, foram os sofistas os que, em suas aulas, ensinaram
a seus estudantes a fazer bom uso da argumentação retórica. Sócrates não queria
ensinar pessoas a falarem bem em público, ainda que tivesse uma preocupação
grande com as palavras e seu uso.
Quanto
à alternativa (E)investigação dos fundamentos da natureza. Vale lembrar que os
que estiveram preocupados com buscar os fundamentos da natureza, isto é, seus
princípios originários e fundantes foram os filósofos pré-socráticos (veja o
comentário sobre Demócrito – nele aparecem outros filósofos pré-socráticos).
Então,
o que sobra? A letra (B)sustentação do
método dialético.
Cara
estudante, caro estudante, ficam as dicas para o ENEM:
(1) Preste
muita atenção às aulas.
(2) Tenha
em mãos o livro didático de Filosofia. Estude-o sempre. Adquira o hábito de ler
diariamente, desenvolva-o.
(3) Tenha
em mãos um bom dicionário de língua portuguesa. Ele é uma ferramenta
extremamente importante em seu aprendizado. Vital.
(4) Leia
sempre com um dicionário de língua portuguesa do lado. Por quê? Porque ajuda a
entender melhor as palavras do texto em leitura, enriquecendo,
consequentemente, o seu próprio vocabulário e ajudando você a compreender
melhor o que lê, estuda.
(5) Tire
dúvidas com sua professora ou seu professor de Filosofia diante de qualquer
incompreensão de termos e ideias em sala
de aula
(6) Adquira
e leia bons livros
(7) E
assim por diante.
(8) E
mais: lembre-se sempre que CARO É VOCÊ TIRAR NOTA RUIM NO ENEM por conta de
descuidos de atenção nos textos, de desconhecimento de palavras-chaves e
outras, por falta de mais dedicação aos estudos (leituras e outros recursos
escolares e extra-escolares), por falta de conhecimentos filosóficos básicos,
adquiríveis em aulas, boas leituras e por outros meios (são muitos – descubra!).
(9) E o essencial, que todos podem aprender com Sócrates: Filosofia não é para passar no ENEM, ainda que ajude muitos(as) nesse sentido. Ela, com outras matérias, não sozinha, é para ajudar você a desenvolver habilidades de leitura crítica (problematizadora, questionadora, analítica) do mundo, da realidade, e aprender, também com outras matérias (interdisciplinarmente), a ser um(a) cidadão(ã) consciente, agente transformador(a) da história! O ENEM é só um momento, ainda de grande importância em sua vida. A história continua, incluindo a de sua vida. Aprenda muito e aprenda conscientemente, afim de ser pleno(a) cidadão(ã), com outros(as) cidadãos(ãs).
(9) E o essencial, que todos podem aprender com Sócrates: Filosofia não é para passar no ENEM, ainda que ajude muitos(as) nesse sentido. Ela, com outras matérias, não sozinha, é para ajudar você a desenvolver habilidades de leitura crítica (problematizadora, questionadora, analítica) do mundo, da realidade, e aprender, também com outras matérias (interdisciplinarmente), a ser um(a) cidadão(ã) consciente, agente transformador(a) da história! O ENEM é só um momento, ainda de grande importância em sua vida. A história continua, incluindo a de sua vida. Aprenda muito e aprenda conscientemente, afim de ser pleno(a) cidadão(ã), com outros(as) cidadãos(ãs).
E para você, professor(a) de Filosofia, fica a dica, de diálogo com a Língua Portuguesa: o Dicionário de Filosofia e Língua Portuguesa. Um caderno só para palavras de filosofia e de língua portuguesa desconhecidas ou pouco conhecidas por estudantes. Neste blog você encontrará um modelo. Vá em Postagens Antigas. Uma delas é a proposta desse dicionário. Use outros recursos também: o diálogo, a problematização e o questionamento foram muito usados por Sócrates. Há outros - busque fazer uso dos três propostos por Sócrates, descubra e até crie os seus. Dê asas à imaginação e ao conhecimento. Há bons livros de recursos didáticos de Filosofia - um deles, por exemplo, é o da Professora Lídia Maria Rodrigo, além de outros tantos. Neste site você encontrará também sugestões.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
COMENTÁRIO SOBRE UMA QUESTÃO DE FILOSOFIA DO ENEM 2017: (Prof. José Antônio Brazão.)
COMENTÁRIO SOBRE
UMA QUESTÃO DE FILOSOFIA DO ENEM 2017: (Prof. José Antônio Brazão.)
Fonte das
questões: Caderno 3 Branco – Primeiro dia.
QUESTÃO
49: A representação de Demócrito é semelhante à de Anaxágoras, na medida em
que o infinitamente múltiplo é a origem; mas nele a determinação dos
princípios fundamentais aparece de maneira tal que aquilo que para o que foi
formado não é, absolutamente, o aspecto simples para si. Por exemplo,
partículas de carne e de ouro seriam princípios que, através de sua
concentração, formam aquilo que aparece como figura. (HEGEL,
G. W.F. Crítica moderna. In: SOUZA, J.C. (Org.) Os pré-socráticos: vida e
obra. São Paulo: Nova Cultural, 2000 (adaptado).
O
texto faz uma apresentação crítica acerca do pensamento de Demócrito, segundo
o qual o “princípio constitutivo das coisas” estava representado pelo(a)
(A)
número, que fundamenta a criação dos deuses.
(B)
devir, que simboliza o constante movimento dos objetos.
(C)
água, que expressa a causa material da origem do universo.
(D)
imobilidade, que sustenta a existência do ser atemporal.
(E)
átomo, que explica o surgimento dos entes.
RESPOSTA:
Letra E – átomo, que explica o surgimento dos entes.
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Um
primeiro ponto de destaque a respeito da estrutura da questão, que pode
permitir encontrar a resposta diretamente: depois do texto de Hegel, o
enunciado da questão possibilita o encontro da resposta, com ou sem o texto.
Quando diz “..., segundo o qual [segundo Demócrito] o ‘princípio constitutivo
das coisas’ estava representado pelo(a)”. Ora, aqueles que prestam o ENEM
costumam ter contado e leituras de livros didáticos, apostilas e outros
materiais, incluindo de Filosofia. A maioria desses materiais traz informações
sobre os filósofos pré-socráticos (filósofos que antecederam o filósofo grego
Sócrates, que viveu entre aproximadamente 468 e 399 antes de Cristo). Os
pré-socráticos estenderam-se do período aproximado entre os séculos 7 e 6 e o
século 4 antes de Cristo. Demócrito foi um dos últimos deles.
Ao
falarem daqueles filósofos, aqueles materiais geralmente apontam,
resumidamente, o que cada pré-socrático tinha como princípio primordial de
tudo. Pitágoras acreditava que tudo era constituído pelos números. Heráclito
acreditava que tudo surgiu do fogo primordial e que tudo encontra-se em devir
(palavra que aparece na questão), ou seja, tudo está em movimento,
transformação (devir ou vir-a-ser). Segundo Tales de Mileto, o primeiro
filósofo grego (pré-socrático), tudo proveio da água e é composto por ela. E,
segundo Parmênides, o Ser é imóvel, porque é perfeito, completo e pleno em si
mesmo. Parmênides, portanto, não aceitava, ao pé da letra, o devir de Heráclito
de Éfeso. Demócrito cria, com Leucipo,
seu mestre, que tudo é feito de átomos, partículas minúsculas e indivisíveis
que formam todos os seres. Então, sabendo disto, seria possível ir direto à
resposta.
Outro
ponto, que aparece no texto claramente: a palavra “partículas”. Ora, o que é
o átomo? Uma partícula! Partícula indivisível, segundo Demócrito.
Tendo
estudado bastante e prestando atenção a pontos como os apresentados, é possível
ter certeza, clareza e rapidez na resposta. Para quem vier a prestar outros
ENENs, fica aí dica. Isto não quer dizer que toda questão expõe claramente os
pontos que permitem clara e rapidamente encontrar a resposta, para quem está
preparado(a). Em outro texto comentarei outra questão do ENEM 2017.
Agora,
tomando o texto de Georg Wilhelm Friedrich HEGEL: “A representação de Demócrito
é semelhante à de Anaxágoras, na medida em que o infinitamente múltiplo é a
origem; mas nele a determinação dos princípios fundamentais aparece de maneira
tal que aquilo que para o que foi formado não é, absolutamente, o aspecto
simples para si. Por exemplo, partículas de carne e de ouro seriam princípios
que, através de sua concentração, formam aquilo que aparece como figura.” (HEGEL,
G. W.F. Crítica moderna. In: SOUZA, J.C. (Org.) Os pré-socráticos: vida e obra.
São Paulo: Nova Cultural, 2000 (adaptado).
Hegel
é um filósofo alemão que viveu entre 1770 e 1831. Vamos toma-lo por partes, a
fim de buscar descomplica-lo.
Primeiro
trecho do texto: “A representação de Demócrito é semelhante à de Anaxágoras, na
medida em que o infinitamente múltiplo é a origem (...)”. Demócrito e
Anaxágoras, dois filósofos pré-socráticos, acreditavam que tudo é feito de partículas
imensamente pequenas e invisíveis. Anaxágoras as chamava HOMEOMERIAS, da raiz
homo, o mesmo, o igual. Por quê? Porque os corpos formados por essas partículas
tinham características semelhantes aos corpos formados – o osso é branco e duro
porque suas homeomerias são brancas e duras. Demócrito, por sua vez, com
Leucipo, chamava as partículas originais ÁTOMOS, de A-, prefixo que quer dizer
não, e TOMO, divisão, divisível (para dar um exemplo: os tomos de uma
enciclopédia comum são livros que correspondem às suas divisões por letras ou
números). Homeomerias e átomos são infinitos e múltiplos, isto é, de acordo com
aqueles filósofos, são de muitos tipos e formas – se fossem partículas
totalmente iguais o cosmos teria uma única aparência, certamente, e não haveria
diversidade de seres.
Segundo
trecho do texto de Hegel: “(...)mas nele a determinação dos princípios
fundamentais aparece de maneira tal que aquilo que para o que foi formado
não é, absolutamente, o aspecto simples para si.” (grifo meu). Este trecho
continua o anterior, o segue. Nele, Hegel fala da determinação de Demócrito a
respeito das partículas. Determinação significa definição, apresentação,
delimitação, precisão, aqui a determinação dos princípios fundamentais
(princípios originários de tudo e que estão presentes em todos os seres). Essa
determinação é diferente em Anaxágoras e em Demócrito. Para Anaxágoras, que
antecedeu Demócrito, a matéria é infinitamente divisível, portanto, também as
homeomerias que a compõem. Para Demócrito, o átomo é uma partícula imensamente
pequena, como as homeomerias, porém é INDIVISÍVEL. Cada átomo é um ponto limite
na divisão da matéria.
Terceiro
trecho do texto hegeliano: “(...)Por exemplo, partículas de carne e de ouro seriam princípios que,
através de sua concentração, formam aquilo que aparece como figura.”. (grifo e
negritado meus). Um outro texto, do autor Rodolfo César, pode esclarecer bem.
Eis o que diz César:
“Para o filósofo
pré-socrático Anaxágoras de Clazomene uma coisa é composta de partículas desta
mesma coisa em menor escala. ‘Como os atomistas que ele precedeu e influenciou,
Anaxágoras supõe que a matéria existe na forma de um número infinito de
partículas; mas suas partículas diferem dos átomos pois têm substância
heterogênea; ele acreditava na infinita divisibilidade da matéria e negava a
existência do átomo. O termo homeomeria, que significa ‘similaridade das
partes’, provavelmente não foi usado pelo próprio Anaxágoras (M.F. Smith tr.intr.,
Lucretius – De Rerum Natura, 1975, p. 75). Lucrécio comentando sobre
Anaxágoras: ‘...Ele claramente sustenta que ossos são feitos de pequenos ossos menores,
a carne é feita de pequenas
partículas de carne, o sangue de pequenas gotas de sangue...’.”
(CÉSAR, Rodolfo. Círculos Ceifados. São Paulo, FAPESP/7 Letras, 2008. P. 32.)
(grifos e negritado meus)
Não
entrarei em detalhes do texto de Rodolfo César. Apenas comparar o terceiro
trecho de Hegel e o texto sublinhado de César, que cita o escritor e filósofo
antigo Lucrécio, que expressou, como outros, opiniões sobre filósofos antigos e
suas ideias.
Observe
os dois trechos grifados em negrito. Eles falam da carne, citada por Hegel e
citada por Lucrécio, filósofos bem distantes um do outro. Hegel, com certeza,
leu o livro de Lucrécio, como dá a perceber no uso do mesmo termo. Se “a carne
é feita de pequenas partículas de carne”, na citação de Lucrécio, segundo
Anaxágoras, como os ossos e o sangue com suas características, em Demócrito,
voltando ao texto de Hegel, os átomos afiguram (compõem a figura, a forma, de)
cada ser por meio da concentração. É claro, não é uma concentração caótica,
desorganizada. É uma concentração
estruturada – a palavra figura significa imagem, algo que representa (torna
presente) um ser de modo determinado – não porque são partes similares (semelhantes,
iguais) a um corpo ou objeto simplesmente. Os átomos têm formas
(estruturas) diferentes, que os permitem combinar-se e recombinar-se, formando
corpos dos mais diversos tipos e, ao desintegrarem-se estes, formam outros
seres, como as homeomerias. Contudo, os
átomos não são divisíveis infinitamente como estas mesmas homeomerias. Os
átomos de Demócrito convivem com o vazio, parte integrante, com a matéria, do
cosmos (universo ordenado, organizado). Anaxágoras não aceitava o vazio (o
vácuo). (Grifos meus em meu próprio texto, para chamar a atenção.)
Para
entender melhor o exposto na segunda parte deste estudo, leitor(a), releia todo
o texto, discuta com colegas, leia sobre os filósofos citados! Leia textos
deles!
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