sexta-feira, 28 de março de 2014

UM POUCO MAIS SOBRE O USO DE IMAGENS: PARMÊNIDES E ZENÃO DE ELEIA (Prof. José Antônio Brazão.)

No ensino de Filosofia, o trabalho com imagens pode ajudar muito no entendimento de textos escritos por filósofos e intérpretes. Podem facilitar a compreensão de cada estudante em sala de aula. Quatro outros exemplos vão a seguir. São desenhos feitos sem muita destreza e que podem ser passados no quadro da sala de aula, com uso de gizes (quadro comum) ou canetões (quadro branco) coloridos.
Vale lembrar que podem acompanhar os textos e servir como instrumentos de auxílio em sua interpretação.
1) A VISITA DE PARMÊNIDES À DEUSA DA JUSTIÇA (THÊMIS):
O relato encontra-se no poema escrito por Parmênides de Eleia.
 
2) ZENÃO DE ELEIA, DISCÍPULO DE PARMÊNIDES: O PARADOXO DO ESTÁDIO:
Veja o texto abaixo, em Para saber mais.

 
3) ZENÃO DE ELEIA: O ARGUMENTO DA FLECHA.
Veja o texto abaixo, em Para saber mais.

 
4) ZENÃO DE ELEIA: A CORRIDA DE AQUILES COM A TARTARUGA.
Veja o texto abaixo, em Para saber mais.

 
 
Para saber mais: 
 
Na indicação, em Para saber mais, há quatro citações de fragmentos de Zenão e comentários interpretativos.
Professora, professor: aprimore os desenhos, fazendo-os com melhor elaboração, use bons textos dos filósofos e faça bom proveito dessas ideias em sala de aula.
A vantagem dos desenhos, feitos no quadro, em sala de aula, é que não são difíceis e não demandam tecnologias mais complexas. Imagens, mesmo simples, não substituem os textos escritos pelos filósofos e as filósofas, porém podem contribuir significativamente a compreensão dos mesmos e, principalmente, para o aprendizado da filosofia, em sua história e em seu dia a dia.
Estudantes podem também fazer desenhos. Neste caso, podem ser feitos:
a) Usando cadernos de desenhos, talvez o quadro da sala de aula, cartolinas, papeis reaproveitados (reciclagem é uma boa ideia e ajuda muito a natureza e o bolso). Tecnologias simples, como se pode ver.
b) Usando computadores do laboratório de informática da escola: existem excelentes softwares de desenho e que usam cores, o uso do scanner ou outro equipamento\software que se queira e possa utilizar.
Em ambas atividades, as e os estudantes, sem dúvida, terão muito a aprender, aplicando as ideias trabalhadas nas aulas e contidas nos textos dos filósofos e\ou dos livros didáticos. E há bons livros didáticos, que incluem pequenos textos de obras filosóficas.
E vale lembrar a você, professora, professor: busque sempre fazer uma ponte entre o passado, da história da filosofia, com o presente, procurando pontos em comuns e diferenças. As ideias de Parmênides e de Zenão, ao obrigarem a refletir detidamente sobre elas, contribuem para o desenvolvimento de capacidades intelectuais fundamentais para o mundo atual e mesmo para o mundo do trabalho.
Bom proveito!

IMAGENS NO PAPEL, FEITAS POR ESTUDANTES:

IMAGEM 1: CONTEXTUALIZANDO O MUNDO DA FILOSOFIA MEDIEVAL: O FEUDO.

 
IMAGEM 2: TOTALITARISMO - CAMPO DE CONCENTRAÇÃO NAZISTA.

 

domingo, 9 de março de 2014

USO DE IMAGENS SIMPLES, EM PAPEL, NO ENSINO DE FILOSOFIA (Prof. José Antônio Brazão.)

MATERIAL: Imagens de livros, revistas, internet, jornais usados e outros materiais disponíveis e\ou já existentes no livro didático utilizado na escola, panfletos com imagens e outros materiais que iriam ser enviados para reciclagem.

Através de imagens simples, de livros e revistas ou impressas da internet ou outro material sujeito à reciclagem, com objetivo exclusivamente educativo, pode-se fazer, em sala de aula, um bom trabalho no campo do ensino da Filosofia. Ademais, não demanda uso de tecnologias (exceto as que foram usadas no preparo da aula) diretamente no trabalho e o material pode ser reaproveitado em diferentes turmas, em outras aulas.

Por exemplo:

1)      Imagens dos elementos químicos e dos quatro elementos de Empédocles e outros princípios originários: introduzir e até discutir ideias e textos dos primeiros filósofos gregos: Tales, Anaxímenes, Anaximandro, Heráclito, Demócrito e os demais pré-socráticos.

2)      Imagens do nazismo e do fascismo podem levar à discussão de ideias e textos de filósofos(as) contemporâneos que trataram, direta e\ou indiretamente, dessa temática, como, por exemplo: Sartre, Camus, Hannah Arendt.

3)      Imagens de descobertas científicas e invenções humanas podem contribuir para uma boa discussão de ideias e textos de filósofos e filósofas que trataram ou tratam dessa questão: os da Escola de Frankfurt, filósofos do Positivismo Lógico, dentre outros(as).

4)      Imagens artísticas (obras de arte [pinturas, esculturas, etc.], figuras de pintores e pintoras e artistas em geral) podem ser úteis na discussão e no estudo da ESTÉTICA.

5)      Imagens positivas de pessoas ajudando outras e\ou negativas de violências e injustiças podem ser úteis para o trabalho sobre ÉTICA, incluindo textos e ideias de filósofos(as) que trataram dessa área: Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Immanuel Kant, filósofos e filósofas do mundo contemporâneo, etc.

6)       Imagens do mundo feudal, de igrejas, escolas e universidades medievais, minaretes, descobertas dos árabes medievais, rostos de filósofos daquele tempo e ligadas a conteúdos discutidos no mundo medieval, no campo da filosofia, podem ser muito úteis para introduzir, discutir e\ou concluir o estudo de textos e ideias dos filósofos daquele tempo.

7)      Muitas outras, conforme a área em estudo a cada momento do ano escolar. Professor(a) de Filosofia: uma boa pesquisa pode ajudar muito.

PASSO A PASSO:

A)    Colocar a turma em círculo ou semicírculo.

B)     Distribuir uma imagem para cada estudante ou dupla de estudantes.

C)    Pedir que olhem e analisem suas respectivas imagens.

D)    Se for o caso, que anotem suas ideias acerca de cada imagem.

E)     Dado o tempo para a visão e análise, pedir que cada estudante exponha suas ideias e opiniões acerca da imagem que tem em mãos.

F)     Ouvidos(as) todos(as) ou quase todos(os) os(as) estudantes, o(a) professor(a) de Filosofia poderá fazer uma revisão e uma síntese do debate.

G)    Em caso de trabalho com texto escrito pelo(a) filósofo(a), lido o texto e entregue a imagem, pedir que cada um(a) veja e analise o texto e a imagem. Depois, siga os passos D, E e F.

UM EXEMPLO: Distribuir para cada estudante uma imagem do nazismo e\ou do fascismo e de suas consequências nefastas (maléficas), opiniões em folha a ser afixada num varal de barbante ou outro meio (no quadro, p. ex.) e debate coletivo. Colocar a turma em semicírculo (melhor, em caso de varal) ou em círculo. Material: barbante e cópias de imagens. Esse material, por sua vez, pode ser guardado, ao final, para ser utilizado em outras turmas. Pedir que cada um(a), portanto, cuide e devolva o material sem estragos, nem amassado, e, ao término dos debates, devolva.

Boas imagens, ligadas ao estudo de textos escritos pelos(as) filósofos(as), podem ser muito úteis na compreensão das ideias destes(as) e até mesmo na interpretação daqueles. Imagens de cavernas e de prisioneiros podem dar margem a uma boa introdução ao texto da Alegoria da Caverna, de Platão, que se encontra no livro VII de A República. Imagens do nazismo e do fascismo ou acerca do consumismo no mundo atual com a indústria cultural podem ser usadas na leitura e melhor compreensão da Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer. Imagens e palavras podem ajudar-se muito, de maneira extremamente rica e positiva. E tanto as imagens quanto os textos podem ser guardados em envelopes para serem reutilizados, como foi dito acima.

Professor(a) de Filosofia, lembre-se sempre de fazer uma ponte entre o passado, com o contexto em que o texto foi escrito, as imagens e o mundo atual (hoje). Assim, você poderá mostrar aos seus alunos e alunas que a ideias filosóficas têm certa perenidade. Bom proveito!

sábado, 1 de março de 2014

BIOÉTICA (UMA PROPOSTA DE INTRODUÇÃO) (Prof. José Antônio Brazão.)

A palavra bioética tem sua origem na língua grega, sendo composta por bio(s), que significa vida, e ética, de ethos, que significa casa, costume, referindo-se aqui, mais especificamente, à moral e aos valores morais, humanísticos e humanizadores. Bioética é, literalmente: ética da vida.

A bioética é uma área relativamente recente da filosofia, lidando com questões relativas à vida, postas pelo mundo social e, particularmente, pela ciência. Envolve questões do campo da biologia, da medicina, da tecnologia ligada à vida, dentre outras. Dentre essas questões encontram-se: intervenções (manipulação) no DNA humano e dos seres vivos por meio da engenharia genética, com seus riscos, a eutanásia, o aborto, a fabricação de armas biológicas, o uso de seres vivos em estudos científicos, implicações da medicina em relação ao corpo humano, dentre outros desafios postos à vida e à sua preservação.

A bioética preocupa-se com o cuidado da vida humana e, seguramente, também com a preservação da existência dos demais seres vivos que convivem com os seres humanos no planeta Terra. No mundo atual e na história contemporânea relativamente recente, com efeito, tem havido incremento na poluição, na fabricação e no uso de produtos químicos diversos, problemas relacionados à radioatividade que afetam diretamente a vida, a destruição de florestas, ecossistemas e biomas, aquecimento global, crescimento populacional humano mundial, dentre outros desafios.

Resguardar e preservar a vida humana e as demais formas de vida têm sido objeto de preocupação da bioética, justamente porque existe uma clara conexão entre todos os seres vivos, entre todos os ecossistemas. Quando um desses ecossistemas é destruído, é quebrado um elo que faz parte de toda a vida planetária, trazendo problemas graves para outros ecossistemas e, particularmente, para o ser humano.

Vale observar que o evolucionismo demonstrou que o homem e a mulher não são os reis da criação, mas seres vivos (animais) que compartilham com os demais características comuns e que evoluem biologicamente como estes. Os seres humanos fazem parte de uma história muito mais ampla: a história da vida no planeta Terra. A luta em favor da vida implica, pois, em ter clara a percepção dessa história.

A base de códigos de direito relacionados à vida, no Brasil e no mundo, deve (ou deveria) ser constituída, no fundo, pela ética, mais propriamente fazendo parte da bioética: um código florestal, um código de engenharia genética, dentre outros.  A ética da vida (bioética) lembra do respeito necessário aos mundos biológico e humano, extrapolando os interesses econômicos, políticos, militares e outros que possam estar na base de pesquisas e descobertas ligadas à vida, às intervenções constantes e perigosas na natureza, ocorridas em nome do aumento do capital.

Questões de Direito adentram o campo ético, bioético, demandando um diálogo com as leis e normas politico-legislativas: o direito de intervir na vida ou de resguardá-la, tendo em vista sua preservação para as gerações atuais e futuras. Na base das leis que tocam na vida é preciso que esteja a ética.

A bioética não quer impor limites que possam tolher o desenvolvimento econômico e social, mas quer que tal desenvolvimento ocorra de forma sustentável e responsável. A responsabilidade dos seres humanos é imensa e dela ninguém pode excusar-se, desde os que detêm o poder político nacional e internacional até pessoas comuns, que podem agir no sentido de exigir um maior cuidado com as questões ambientais, naturais e humanas propriamente ditas.

A bioética acompanha a ciência, com a diferenciada evolução científica das mais diversas sociedades. E toda discussão nesse campo envolve não somente intelectuais, juristas e governantes, mas toda a sociedade, que é a mais atingida pelas ações sociais, políticas, econômicas e científicas que atingem diretamente a vida.

A história da filosofia demonstra claramente preocupações com a cosmologia, em suas origens, com o entendimento do ser (metafísica), com a constituição das sociedades e seus fundamentos (política), a ética, a linguagem e várias outras. A realidade histórica dos últimos séculos e a potencialização cada vez maior das descobertas humanas, bem como as intervenções nos mundos naturais e humano pelo capital, a exploração do homem e do mundo natural, com a Revolução Industrial, puseram desafios à discussão filosófica, fazendo-a abrir-se a questões vitais daí brotadas, nascendo, assim, de modo interdisciplinar, a bioética.

Portanto, a filosofia abre-se para o diálogo interdisciplinar, sabendo que precisa de outras ciências e do Direito para discutir questões como as que aqui foram apresentadas. A bioética não tem respostas acabadas, mas as põe em debate coletivo. Nesse sentido, ela é interdisciplinar, ainda que tenha parte de suas raízes na ética filosófica. Enfim, os desafios bioéticos competem a todos!

Sugestões para trabalhar em sala de aula, a título de introdução e de materiais valiosos:

*Cartazes + debate coletivo de cada turma.

*Imagens extraídas de revistas antigas (séc. XX) + debate coletivos de cada turma sobre tais imagens, buscando ampliar o leque que vai bem além delas.

*Estudo de códigos de ética ambiental, florestal e outros ligados a questões da vida.

*Slides, contendo imagens e pequenos comentários sobre alguma(s) questão(ões) discutida(s) pela bioética. Etc.

*A critério de cada professora e professor.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

FILOSOFIA E LÍNGUA PORTUGUESA: UM DIÁLOGO. (Prof. José Antônio Brazão.)

*No trabalho com MITOS\MITOLOGIA: citar CAMÕES (Os Lusíadas é um livro carregado de referências à mitologia greco-romana da antiguidade); trechos de poetas do Arcadismo, corrente literária que também fez referências ao mundo clássico greco-romano.

*Os Lusíadas contêm também um trecho muito interessante, poético, de Camões a respeito do UNIVERSO GEOCÊNTRICO. Vale lembrar que o modelo geocêntrico persistiu até os séculos XVI (Copérnico teve que defrontar-se com ele) e XVII (chegou a vez de Galileu Galilei defrontar-se com o modelo geocêntrico e defender o heliocentrismo de Copérnico).

*Ainda de Camões, os Sonetos são carregados de uma PERSPECTIVA PLATÔNICA e NEOPLATÔNICA de ver o amor. Pode ser um texto interessante de ser trabalhado ao estudar Platão e o neoplatonismo. Bons livros didáticos de Língua Portuguesa trazem comentários sobre o neoplatonismo renascentista. Camões insere-se no Renascimento Artístico-Cultural moderno e na preocupação deste com os modelos clássicos (classicismo).

*Apontamentos à NOVA ORTOGRAFIA (2009 em diante) podem ser feitos nas anotações de informações filosóficas no quadro e em textos, bem como na fala do(a) professor(a) de Filosofia.

*Levantamentos podem ser feitos, durante as aulas, no diálogo com os e as estudantes, aqui e ali, de palavras filosóficas cujas raízes encontram-se em prefixos, sufixos e raízes das línguas grega e latina (ou outras) referidas em gramáticas.

*Na busca do sentido das palavras e ideias, mensagens, em um texto filosófico-literário e\ou literário, a Filosofia pode ajudar no aprendizado de interpretação textual, também presente em estudos de Língua Portuguesa. Dicionários de Língua Portuguesa, de Filosofia e até mesmo gramáticas podem ajudar. Assim, continua o diálogo entre as duas matérias escolares.

*Um outro trabalho interessante para FILOSOFIA e LÍNGUA PORTUGUESA pode ser a extração de informações de um texto filosófico e\ou de língua portuguesa que tenham pertinência filosófica e\ou linguística.

*Apontar elementos gramaticais e literários que possam ser encontrados em textos filosóficos, permitindo aos e às estudantes uma melhor compreensão dos elementos filosóficos e linguístico-literários ali presentes.

*Levantar elementos filosóficos que possam estar patentes (claros, explícitos) e ou subjacentes (escondidos) em ideias expostas em poesia e prosa por escritores brasileiros e\ou de língua portuguesa em geral. Por exemplo: o poema EU, ETIQUETA, de Carlos Drumond de Andrade permite ilustrar a discussão marxiana (de Marx) a respeito da alienação e da reificação; trechos de VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos, podem ilustrar e enriquecer o entendimento das ideias de Marx e Engels, além de outros pensadores posteriores, a respeito do trabalho. Graciliano Ramos, na cadeia, por causa de ditadura, escreveu o livro MEMÓRIAS DO CÁRCERE. Curiosamente, Antonio Gramsci, um marxista italiano preso na ditadura de Mussolini, escreveu os CADERNOS DO CÁRCERE. Ainda que as perspectivas destes dois divirjam em na forma de escrever, sem dúvida, uma comparação pode ser feita, buscando-se pontos em comum (ex.: rigor, densidade).

*Duas palavras, MAL e MAU, BEM e BOM, às vezes, podem gerar confusão na cabeça dos e das estudantes. Ao falar o MAL em Santo Agostinho (Aurélio Agostinho) e do BEM em Platão, um breve comentário do(a) professor(a) de Filosofia pode ajudar a reforçar o conteúdo aprendido em Língua Portuguesa e vice-versa, com o(a) professor(a) desta matéria escolar exemplificando a diferença daquelas palavras, na escrita, fazendo pequenas referências àqueles filósofos e\ou outros que tratam da questão do bem e do mal. O bom e o mau aparecem em discussões estéticas, quando se estuda o gosto (p. ex.: na expressão: bom ou mau gosto).

*O cuidado com a correção linguística, durante as aulas e nos debates de Filosofia, em sala de aula, buscando aproximar-se da linguagem padrão, pode contribuir para um bom aprendizado de Língua Portuguesa, ligando-a, é claro, à linguagem filosófica e às ideias filosóficas em estudo. Reforço mútuo!

*Em textos escritos pelos(as) estudantes, na área de Filosofia (questionários, respostas dissertativas de provas, redações, artigos, etc.), observar incorreções de língua portuguesa e aponta-los para que aqueles(as) possam corrigir, pode ajudar no melhor aprendizado desta e daquela.

*Poemas de escritores(as) brasileiros(as) e outros(as), contendo temas correlatos de Filosofia, podem também ser muito úteis. Há livros didáticos de Filosofia que, inclusive, citam alguns. Temas como a existência, a transitoriedade da vida e do mundo, dentre outros, costumam aparecer tanto em escritores quanto em filósofos (os filósofos existencialistas que o digam!). É claro, o enfoque pode ser diferente entre uns e outros, mas há, sem dúvida, algo em comum.

*Ao analisar textos de filósofos e em redações filosóficas dos(as) estudantes podem ser trabalhados elementos estruturais, como a sequência de introdução, desenvolvimento e conclusão, não precisando estarem obrigatoriamente na mesma sequência, e estilísticos (ex.: figuras de linguagem) podem ser levados em conta pelo(a) professor de Filosofia no trabalho interdisciplinar com a Língua Portuguesa e em diálogo com ela.

*Com a História pode-se contextualizar textos literários de língua portuguesa em seu tempo, podendo-se também encontrar aí elementos histórico-filosóficos (que podem fazer referência, direta ou indireta, à história da Filosofia). Exemplos: O neoplatonismo em poemas de amor (com destaque para os Sonetos) de Camões e textos de outros escritores do mundo moderno, como Shakespeare e Cervantes, os quais viveram bem na época do Renascimento Artístico-Cultural moderno. Assim, junto com o Português e a Filosofia, une-se a História.

*Temas atuais da língua e da literatura brasileira e portuguesa em geral, com certeza, aparecem na Filosofia também, ainda que o modo de encará-los diferencie-se entre escritores e filósofos.

O diálogo interdisciplinar entre FILOSOFIA e LÍNGUA PORTUGUESA, juntamente com outras matérias escolares afins (especialmente as da área de ciências humanas) pode ser muito valioso para o aprendizado dos e das estudantes, permitindo-lhes uma percepção mais ampla dos conteúdos aprendidos e reforçando-os. Conteúdos das áreas de ciências também podem ser discutidos com aquelas matérias: Camões, o neoplatonismo renascentista e os primórdios da ciência moderna conviveram ao mesmo tempo, entre os séculos XV e XVI. Acima foi comentado acerca do geocentrismo. Além de aparecer em Os Lusíadas, é contestado pelo cientista (astrônomo e matemático) Copérnico. A percepção de mundo, provocada pelas ciências, a partir do século XX, também influenciou a filosofia e as literaturas (dentre elas a de língua portuguesa) em todo o mundo. Vale a pena conferir e integrar nos estudos filosóficos!

Professor(a), é preciso estar atento(a) para os conteúdos ensinados em Filosofia, em Língua Portuguesa e em outras áreas de aprendizado, aproveitando oportunidades ricas de aprendizado dos e das estudantes. O diálogo só pode trazer bem para todos(as), mostrando que as matérias escolares não são setores estanques, separados, mas que interagem entre si. Com tal diálogo todos têm a ganhar!

Muitas vezes, pergunta-se para que serve a filosofia. Servir para nada é algo positivo, pois, como brinquei outro dia com um estudante, do nada surgiu (ou foi criado) o universo. Perceber que ela influenciou e influencia, direta e\ou indiretamente escritores, escultores, artistas e até mesmo cientistas (Pitágoras era filósofo e matemático, tendo demonstrado um teorema que leva seu nome; Leibniz foi matemático e filósofo; Pascal, filósofo e matemático, inventou uma máquina de calcular, Leibniz também inventou uma; Einstein fez referência à compreensão de Espinosa acerca do universo, comparando-a à sua visão), e vice-versa, pode ajudar a ver que do nada filosófico pode nascer algo muito rico.

Numa sociedade em que há globalização e a lida constante com o trabalho, o corre-corre do dia a dia e a preocupação com o fato de que os seres e as ideias devem ter uma serventia prática, o nada da filosofia incomoda, mas abre espaço para o diálogo com outras áreas de conhecimento, tanto na escola quanto fora dela. E num universo curvo, em que até a luz faz dobra, no vergar da luz dos conhecimentos é possível o diálogo entre saberes. 

Este texto nasceu de um debate na escola em que trabalho, hoje de manhã, acerca de como outros conteúdos escolares podem ajudar no reforço do aprendizado de Língua Portuguesa. Sem dúvida, no reforço do aprendizado desta, um incremento no aprendizado de Filosofia!
Professor(a) de Filosofia, encontre, descubra, outros modos de dialogar com a Língua Portuguesa, além de outros conteúdos (matérias) escolares. Seus alunos e alunas só terão a ganhar. Bom proveito!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

USO DA RÁDIO ESCOLAR NO APRENDIZADO DE FILOSOFIA (Prof. José Antônio Brazão.)

Um recurso que pode ser muito interessante no ensino de Filosofia é a rádio escolar. Esse recurso imita as rádios e programas aí existentes, que contêm músicas, notícias, informações, brincadeiras, propagandas, programas musicais, programas policiais e tantos outros, conforme cada tipo de rádio. Nas escolas, é claro, de forma adaptada e simples.

Há escolas que já dispõem de rádio escolar, com um simples aparelho de som e microfone, com caixa(s) de som, até aquelas em que há uma aparelhagem maior e mais complexa. O governo federal, através do MEC e do PROINFO, tem apoiado a montagem, em escolas públicas, de laboratórios de informática e rádios escolares, conforme cada caso. E há escolas particulares em que se pode encontrar ambos ou pelo menos um deles. Pode-se ver, pois, têm presença em tipos diferentes de escolas, no Brasil. É claro, é preciso ainda um aumento e isto vai ocorrendo aos poucos e progressivamente. É preciso também treinamento de professores, professoras e mesmo de outros(as) profissionais da educação e estudantes que possam lidar com os equipamentos e, especialmente, saberem fazer o uso didático devido dos mesmos, atingindo, portanto, seus fins educacionais propriamente ditos.

De acordo com o Portal do MEC:

Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo): É um programa educacional com o objetivo de promover o uso pedagógico da informática na rede pública de educação básica.
O programa leva às escolas computadores, recursos digitais e conteúdos educacionais. Em contrapartida, estados, Distrito Federal e municípios devem garantir a estrutura adequada para receber os laboratórios e capacitar os educadores para uso das máquinas e tecnologias. Para fazer parte do Proinfo Urbano e /ou Rural, o município deve seguir três passos: a adesão, o cadastro e a seleção das escolas. A adesão é o compromisso do município com as diretrizes do programa, imprescindível para o recebimento dos laboratórios. Após essa etapa, deve ser feito o cadastro do prefeito em nosso sistema, que permitirá o próximo passo, que é a inclusão das escolas no Proinfo.” (IN:   
http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=462) (grifo meu)

O MEC, com o PROINFO, quer proporcionar às escolas públicas (estaduais, municipais, rurais e federais) a oportunidade de aplicarem recursos didático-tecnológicos que possam enriquecer o aprendizado dos e das estudantes, permitindo-lhes um acesso às novas tecnologias. A rádio escolar é uma destas e deve ser aproveitada.

Rádios escolares podem conter: comunicados de diversos tipos, relacionados à educação, de interesse coletivo e individual; músicas; avisos escolares; pequenos programas: humorísticos, de debates de ideias, de notícias (noticiários radiofônicos simples), dentre outros, abrindo espaço para a criatividade; lembretes; entrevistas de diversos tipos, com diferentes pessoas, de dentro e de fora da escola; etc. E como entra a FILOSOFIA aí? A FILOSOFIA pode entrar em todas essas formas de apresentação da rádio escolar: um comunicado filosófico, a recitação de um poema elaborado por um filósofo e que mostre aspectos de sua filosofia, uma música que carregue consigo uma temática também filosófica (existência, amor, amor platônico, dentre outros); ideias filosóficas discutidas e apresentadas, aqui e ali, em programas de diversos tipos, como os mostrados, etc.

É preciso planejamento da atividade, treinamento, programar parte por parte de como o conteúdo filosófico será apresentado ou exposto, abrindo para a participação coletiva das turmas de estudantes e professores(as) de Filosofia.

Vale lembrar que a rádio escolar tem uso amplo, não exclusivo da Filosofia, mas pode, como foi dito acima, permitir espaços, aqui e ali, nos quais essa matéria escolar, com seus conteúdos, esteja presente. Ademais, o planejamento pode ser multidisciplinar e interdisciplinar, permitindo, deste modo, um diálogo entre a Filosofia, a História, a Língua Portuguesa, a Física, a Química e todas as demais disciplinas escolares. Com isto, todos terão muito a ganhar, principalmente as turmas de estudantes, que poderão perceber que o conhecimento não é algo estanque, mas que se abre ao diálogo de todos e se encontra presente, de modos diferentes, mas integrados, em cada matéria e no conjunto das disciplinas.

É preciso ficar atento(a) ao tempo, ao momento de funcionamento diário ou semanal da rádio escolar, fora dos horários de sala de aula, a fim de não atrapalhar o aprendizado do que aí dentro é apresentado, debatido. Para cada tipo de programa ou proposta de uso, em cada matéria e em FILOSOFIA particularmente, há um tempo permitido, comumente na hora do recreio.
 
A rádio escolar (ou rádio escola) pode ser trabalhada, com fins didáticos, no ensino de Filosofia, para além do recreio, no laboratório de informática escolar (L.I.E.) ou em sala separada (em escolas que não tenham o L.I.E.) que não dê saída a barulho alto, a fim de não atrapalhar o andamento de outras aulas.  É preciso preparo para lidar com os equipamentos e planejamento, além de comunicado ao(à) dinamizador(a) de tecnologia, em havendo um(a) na escola. De repente, o(a) dinamizador(a) pode dar grande ajuda no manuseio correto dos equipamentos e softwares. Vale lembrar que o MEC, com o PROINFO e as secretarias estaduais e municipais de educação, através dos NTEs (Núcleos de Tecnologia Educacional), oferece cursos gratuitos para lidar com as tecnologias educacionais novas, os quais podem ser feitos, sem ônus, por professores e professoras de diferentes áreas de ensino. Fica aqui a dica para o pessoal da área de Filosofia!

No que diz respeito às entrevistas, um exemplo, a BBC, uma rádio da Inglaterra, dispõe de podcasts (entrevistas-debates que envolvem vários debatedores), os quais contém muitos debates e entrevistas de Filosofia e conteúdos afins, além de História, Ciências e Geral. Um dos programas é o IN OUR TIME, com Melvin Bragg. Veja em:  http://www.bbc.co.uk/radio4/history/inourtime/greatest_philosopher_list5.shtml  e http://www.bbc.co.uk/programmes/b006qykl Clicando aqui e ali é possível acessar outros programas. Mas está em inglês!!! O que fazer? Na verdade, o interesse aqui é mostrar como as entrevistas, na rádio escola, podem ser conduzidas, simplificadamente, sem muita pretensão. Mesmo não entendendo nada de inglês é possível observar como o apresentador conduz o debate, geralmente feito com três autoridades na área de Filosofia e em outras, conforme cada conteúdo. Essa observação auditiva pode dar uma ideia de como se pode adaptar, na rádio escolar, entrevistas e debates.

Em sala de aula, em uma, duas ou mais aulas de Filosofia, é possível criar algo parecido com uma rádio escolar, uma teatralização, dispondo as carteiras e mesas em posições que permitam um(a) radialista (aluna ou aluno que faça o papel de radialista), seus convidados e convidadas. Um microfone, de fantasia ou de verdade, pode ser usado. As atividades, planejadas, devem estar ligadas à Filosofia. Integra-se, aqui, o teatro e a rádio escolar e, com isto, enriquece-se o aprendizado filosófico escolar!
Vale a pena, igualmente, professores, professoras e estudantes fazerem uma pesquisa, na internet, no Youtube e em outros sites, de escolas que tenham rádios escolares em português.

O importante é aproveitar, ao máximo, ao longo de cada ano, para tocar em ideias e temas filosóficos, na história da filosofia e áreas filosóficas, na rádio escolar. Professora, professor, de Filosofia e outras matérias\disciplinas: BOM PROVEITO!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

SÓCRATES EXISTIU DE FATO OU É UMA PERSONAGEM DE PLATÃO? (Prof. José Antônio Brazão.)

Uma questão que se coloca, por vezes, em reuniões de professores e professoras de Filosofia ou dentro de sala de aula, no estudo das ideias de Sócrates e de sua vida é acerca de sua real existência. Sócrates, com certeza, é mencionado em três escritores do passado grego: Platão, Xenofonte e o teatrólogo Aristófanes (As Nuvens).

Sócrates é tido, comumente, por mestre de Platão e Xenofonte, sobre os quais teria exercido influência no estilo de expor ideias, com destaque para o debate, mas também uma influência em termos de moral, de valores humanos, pois aparece, por exemplo, em Platão, constantemente debatendo questões diversas, em sua maioria de conteúdo moral. Aristófanes satiriza sua figura na peça As Nuvens.

Tomando Platão e Xenofonte. Ambos são escritores, são filósofos. Expressam-se, em seus escritos, com brilhantismo e maestria. Do primeiro temos, ainda, várias obras, do segundo, um número menor. O ato de escrever envolve, sem dúvida, conhecimento da língua, destreza para articular ideias, construir pensamentos escritos, dentre outras qualidades para que se possa ser um bom escritor. A escrita manifesta valores aprendidos e desenvolvidos, ao longo da vida, em uma pessoa, por meio das palavras, dos exemplos, das leituras, das experiências vividas, convivências. Tais valores podem ser de grupos e até mesmo da classe social a que se pertence, ainda que não estejam presos necessariamente a esta ou àqueles, podendo ir além ou aquém. Ora, é preciso, portanto, que alguém tenha ensinado àqueles escritores, filósofos, e até mesmo Aristófanes passou por aprendizado.

Platão e Xenofonte, para falar dos mais detalhados a tratar de Sócrates, passaram, desde pequenos, por aprendizados diversos, aprenderam a leitura em língua grega (talvez também línguas estrangeiras daquele tempo, pois Platão, por exemplo, conta na Carta Sétima, ter feito viagens por lugares diferentes), desenvolveram o conhecimento de muitas palavras escritas e faladas, precisaram aprender a articulá-las de forma ordenada, com certa retórica, de forma dialética (Platão, para citar novamente, criou diversos diálogos!). Tomaram contato com a música, a matemática, rudimentos de astronomia, dentre outros conhecimentos, muitos dos quais aprendidos com mestres (quem sabe, também com mestras, tias, mães, o que pode não ser impossível).

Vale lembrar que, naquele tempo (séculos V\IV a.C.), andavam pela Grécia também os sofistas, professores itinerantes de retórica, dialética e outras sutilezas no uso da linguagem, muito procurados por jovens, em sua maioria abastados, que queriam sair-se bem nas artes de falar bem e de convencer, podendo, com isto, convencer e conquistar pessoas nas assembleias e locais onde se exercia o poder. Na Grécia Antiga havia ainda os pedagogos (literalmente, do grego: condutores de crianças), escravos que conduziam as crianças às escolas. Famílias ricas punham tutores para os filhos. Portanto, para o menino e, depois, jovem Platão não faltaram mestres, professores.

 Além do mais, os livros de Platão e de Xenofonte expõem valores ético-políticos que eram ideais para a política grega. Aqueles em que Sócrates se encontra como personagem principal demonstram também bem isto. Por exemplo: A República, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon e outros. A oposição de Platão à corrupção e sua não concordância com os erros de políticos de sua família que estavam no poder denotam a não aceitação de algumas situações degradantes da política ateniense e, por extensão, de outras cidades-estados da Grécia Antiga.

Ora, valores éticos não nascem por acaso. São aprendidos, seja pela educação familiar, pelo contato com pessoas que os ensinam e os vivem, pela observação de pessoas que os praticam, seja até mesmo por meio da educação formal e ainda por meio do testemunho de pessoas que tiveram coragem de dar a vida em defesa dos valores éticos e políticos em que acreditavam. É certo que a imagem de Sócrates que aparece nos escritos platônicos é a de um homem ético e muito preocupado com a política e o bem-estar da cidade-estado, mais especificamente, Atenas e, por extensão, de toda a Grécia, homem com o qual Platão e outros teriam aprendido muito e a quem muito respeitavam, conforme aqueles escritos. E estes escritos nos mostram que Platão cultivava aqueles valores e empenhou-se por defende-los em seus textos e que, portanto, os aprendeu, ao longo da vida, seja com um Sócrates real, seja (também) com outras pessoas preocupadas com a ética na vida política e social.

Grande parte dos representantes da filosofia ocidental aceitou e aceita como fato a existência real de Sócrates. Sem dúvida, em sua imagem, transmitida por filósofos e escritores de seu tempo (ver os três citados, além de Aristóteles, em cuja obra, aqui e ali aparece o nome de Sócrates) e de depois (Sêneca, por exemplo, o menciona), estão representados ideais, valores e práticas que propunham mudanças nas práticas políticas e nas crenças existentes no mundo grego de seu tempo. Curiosamente, a filosofia grega, antiga, tradicionalmente, tem seus filósofos pré-socráticos (anteriores a Sócrates) e pós-socráticos (posteriores a Sócrates, com destaque para os do período helenístico). Com certeza, o que aconteceu na filosofia grega entre os séculos V e IV a.C., período em que é traçada, datada, a vida de Sócrates, foi fundamental para o pensamento ocidental, deixando marcas na história da filosofia ocidental poucos séculos depois de seus primórdios e até depois, ou melhor, até hoje! Ademais, vale lembrar que tradições costumam ser fortes, mas podem ser questionáveis! Copérnico e Galileu questionaram o geocentrismo e sua tradição (transmissão) e fizeram descobertas fundamentais. Dúvidas e questões enriquecem debates, fazem pensar, refletir, levando a um entendimento maior e até a descobertas, como se pode ver. Vale lembrar que, quando se questiona a existência real de Sócrates, também se põe em questionamento toda uma tradição que a defende. Contudo, todo questionamento faz pensar, rever, buscar respostas, descobrir algo novo que enriquece o conhecimento humano!

Um fato realíssimo é que em torno da figura de Sócrates e a partir dela formou-se, desde o passado, uma longa tradição na filosofia ocidental, que chega aos tempos atuais, formou-se e vem se formando. Não um super-herói, nem um ser divino, nem um mago, mas um homem: pobre, ex-soldado, que, não aceitando orgulhosamente, com ares de superioridade, a afirmação délfica de sábio, buscava a verdade através do debate, da curiosidade, não aceitando também respostas prontas e pré-definidas, mas empenhando-se para que seus interlocutores se expressassem melhor e que, principalmente, agissem melhor, se tornassem cidadãos e cidadãs melhores, buscando um bem maior: o da pólis, da cidade-estado. Um homem que, por sua coragem de enfrentar de usar a ironia e a maiêutica, de querer partejar algo de novo de dentro das pessoas, acabou entrando em choque com homens presos ao status quo, que o acusaram e fizeram de tudo para o levarem à morte. Um homem que formou um grupo de discípulos e amigos. Um homem que, até o fim, quis levar seus discípulos a não se desanimarem, mas se manterem como cidadãos respeitosos às leis e confiantes na existência da eternidade. Um homem, um grande filósofo, uma grande tradição carregada de valores humanísticos e éticos. Essa imagem e a própria história da filosofia apontam para a vitalidade socrática.

Nesse tempo, cidades-estados (póleis, plural de pólis - daí: política) cresciam, a agricultura continuava a base da economia, juntamente com o comércio em expansão. Com os debates políticos e a busca de ascensão no âmbito do poder, sofistas (professores-filósofos itinerantes, pagos) preparavam jovens que dispunham de condições e, particularmente, de famílias ricas e influentes (Platão era de uma dessas famílias, em Atenas), para os embates que teriam de enfrentar em assembleias e órgãos do estado (da cidade-estado), ensinando-os e aprimorando-lhes os conhecimentos da dialética, retórica e outras artes fundamentais às funções políticas. Xenofonte e, principalmente, Platão mostram Sócrates discutindo com eles, com argumentos e contra-argumentos. De acordo com a Apologia [Defesa] de Sócrates, de Platão, o mestre não cobrava pelo ensino nas ruas e locais diversos da cidade de Atenas, onde debatia com jovens e outros. É certo que, naquele contexto, homens precisaram fazer uso da palavra, da habilidade de discussão, defesa e ataque de ideias, bem como de valores. Os sofistas eram relativistas, isto é, relativizavam valores. Os grandes filósofos, que a eles chegaram a contrapor-se, tiveram que buscar a fundamentação de valores e até mesmo da verdade e do conhecimento. Platão e Xenofonte aprenderam com alguém, ou melhor, com diferentes pessoas, desde os conhecimentos elementares com a família e na educação básica, até níveis mais amplos de aprendizagem e argumentação, com certeza.

Um outro fato, a ágora, espaço público de debates que havia em Atenas e em outras cidades da antiguidade grega e, depois, helenística, dava espaço para que pensadores, como o Sócrates que aparece nos diálogos daqueles filósofos (Xenofonte e, especialmente, Platão) e nas Nuvens, peça teatral de Aristófanes (teatrólogo), surgissem, sendo ouvidos por jovens e adultos, incluindo, certamente, mulheres. Ademais, debates dos mais diversos tipos eram feitos em festas, reuniões e encontros, em casas de famílias abastadas, naquele tempo - Sócrates, por exemplo, aparece debatendo em casas de amigos, com sofistas e outras pessoas (ex.: Diotima, uma pensadora, no Banquete, de Platão, sobre o amor); depois de um culto, Sócrates encontra-se com amigos, em uma casa, onde debate sobre a justiça e outros temas éticos-políticos, na República, de Platão. Esses registros, literários-filosóficos, apontam para o fato de que debates daqueles tipos eram comuns na Grécia antiga e Platão - até mesmo Xenofonte e outros - foi (foram) participante(s), como ouvinte(s) de debatedores (como foi dito, o Sócrates de Platão foi um grande debatedor) e devem ter entrado em tais debates.

Não há, aqui, qualquer interesse em pôr fim à discussão, muito rica, posta, de tempos em tempos, pela questão acima. Apenas acrescentar elementos que possam ajudar professores e professoras do Ensino Médio, em sala de aula, em seus debates com as turmas de estudantes. E vale a pena uma boa pesquisa de livros que tratam de Sócrates ou se referem a ele, desde livros didáticos até mais complexos, além, é claro, dos filósofos e escritores da história da filosofia que o apresentam. Ademais, é fundamental que a referida discussão continue, possibilitando assim o acréscimo de novidades e descobertas ricas para o pensamento filosófico.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

JOGO DA MEMÓRIA FILOSÓFICO (Prof. José Antônio Brazão.)

Uma atividade interessante, que pode ser trabalhada no ensino de Filosofia, é o jogo da memória. Abaixo vai um exemplo.
JOGO DA MEMÓRIA FILOSÓFICO – OPOSTOS:
LIBERALISMO
Sistema ou proposta econômica e política que defende a liberdade de mercado e a mínima intervenção do Estado na economia capitalista.
SOCIALISMO
Sistema econômico e político que opõe-se ao capitalismo, é favorável à intervenção do Estado na economia e propõe uma sociedade igualitária.
IDEALISMO
Filosofia para a qual as ideias (formas/espírito) são o fundamento do real. Ex.: a filosofia platônica, que afirma a realidade do mundo das Ideias; Hegel.
MATERIALISMO
Filosofia para a qual tudo é resultado de interações da matéria, inclusive o ser humano. Marx aplicou a dialética ao materialismo.
RACIONALISMO
Filosofia ou corrente filosófica para a qual o conhecimento verdadeiro baseia-se na razão. Ex.: René Descartes.
EMPIRISMO (ex.: Locke)
Filosofia ou corrente filosófica para a qual o conhecimento verdadeiro tem por base a experiência (empiria, gr) sensível.
ATEISMO
Tendência de pensamento que crê na inexistência de Deus. A = não. Theós = Deus. Para os ateus Deus não existe de verdade.
RELIGIOSIDADE
Tendência de pensamento dos que creem na existência real de Deus ou de deuses, do transcendente.
REALISMO DOS UNIVERSAIS
No mundo medieval, os realistas defendiam a existência real dos conceitos/termos gerais, universais. Eles têm uma existência própria ou na mente de Deus.
NOMINALISMO DOS UNIVERSAIS
No mundo medieval, para os nominalistas os conceitos/termos universais seriam apenas nomes, emissões de voz, não existindo em realidade separada.
TEOCENTRISMO
Colocação de Deus no centro das reflexões e como fundamento da realidade. Tudo depende de Deus, que é a realidade primeira e última de todas as coisas.
ANTROPOCEN-
TRISMO
Valorização do homem (antropo, em grego), como ser capaz de elaborar o conhecimento, de conhecer e de agir sobre o mundo.
ABSOLUTISMO MONÁRQUICO
Governo em que o poder absoluto é exercido pelo monarca (rei ou rainha). O poder é supremo e é transmitido por meio da descendência, dentro da família real (rei/rainha).
REPUBLICANISMO
Sistema de governo em que o poder é exercido por representantes escolhidos pelo povo de cada país. O poder é temporal, disputável e não é transmitido, por descendência, de pai para filho.
EXPLICAÇÃO MITOLÓGICA DA REALIDADE
Tudo é explicado através dos mitos, relatos sagrados que falam de deuses, deusas e seres transcendentes.
EXPLICAÇÃO FILOSÓFICA DA REALIDADE
Tipo de explicação que apela para a observação e a explicação da realidade fundamentada na pesquisa racional.
PLATONISMO
Corrente filosófica que tem suas raízes nas ideias do filósofo grego Platão (séc. V/IV a.C.). Platão apontava para a existência do Mundo das Ideias. Em A República propôs uma cidade ideal.
ARISTOTELISMO
Corrente filosófica que tem suas raízes nas ideias do filósofo grego Aristóteles (séc. IV a.C.). Criticava o idealismo do mestre e não cria na possibilidade de cidade ideal, como Platão.
EVOLUCIONISMO
Teoria e descoberta que afirma que todos os seres vivos evoluíram a partir de formas vivas primitivas. A vida surgiu, há bilhões de anos, como resultado de interações moleculares, na água, e vem evoluindo.
CRIACIONISMO BÍBLICO
Crença religiosa, baseada na Bíblia, que afirma a criação do mundo e dos seres vivos, tal como existem hoje, por Deus. Ex.: Gênesis 1 – 3.
VERDADE DOS ARGUMENTOS
Verdade que ocorre quando os argumentos apresentados correspondem à realidade e a premissas (cada parte do argumento, as quais desembocam em uma conclusão) verdadeiras.
FALSIDADE DOS ARGUMENTOS
Falsidade que ocorre quando os argumentos apresentados não correspondem à realidade nem a premissas  verdadeiras. Cada premissa é uma parte do argumento e elas desembocam em uma conclusão.
CETICISMO
Para os céticos não é possível haver o conhecimento da verdade, pondo sua possibilidade em dúvida (sképsis, em grego).
Exemplos: Filósofos do grupo dos sofistas, Pirro de Élis (ceticismo radical), Hume (não radical).
 
DOGMATISMO
Doutrinas que se impõem como verdades (dogmas) inques-tionáveis e que não aceitam contestação. Há dogmas, por exemplo, nas religiões, mas também pode ocorrer o dogmatismo na ciência e na filosofia.
Recortar as pequenas fichas. Para ficarem iguais em tamanho, poder-se-á colá-las em folhas com quadrados de mesmo tamanho e, a seguir, fazer o recorte.
1) Distribuir a turma em duplas ou trios. Um jogo para cada uma: misturam-se os papéis recortados; cada um(a), por sua vez, escolhe dois, formando pares. Quem fizer mais pares vence a brincadeira. Leva de dez a quinze minutos, talvez menos, dependendo de cada pequeno grupo e da quantidade de pares a formar.
2) Sugestão ao professor e à professora de Filosofia: peça que estudantes leiam, um a um, cada quadrinho, após terminada a primeira parte. Peça que expliquem o que entenderam e, a seguir, você mesmo(a) poderá fazer as explicações devidas e necessárias.
3) É um recurso rico de aprendizado e foge um pouco do quadro e da aula puramente expositiva. Bom proveito!