domingo, 11 de setembro de 2011

Quebra-cabeças como recursos didáticos para o ensino de Filosofia. (Prof. José Antônio Brazão.)

Quebra-cabeças são jogos em que a pessoa tem que montar uma figura a partir de pedaços separados. A aplicação de quebra-cabeças pode ser interessante no ensino de Filosofia, dando-lhe um bom uso didático.

Exemplos:

1) A face de um filósofo, de uma universidade em que o filósofo tenha estudado ou trabalhado, uma figura com um tema tratado por esse filósofo ou por uma dada corrente filosófica, etc. Recortar a figura em pedaços médios ou partes pequenas e solicitar que seja remontada pelos estudantes, em sala de aula.

2) As faces de um grupo de filósofos de determinada época. Recorte e remontagem. Também ajuda na visualização desses filósofos, valendo como boa ilustração e introdução do conteúdo.

3) Um desenho ou figura contendo conteúdo relacionado à filosofia. Ex: (a) A figura de uma pessoa com braços abertos correndo livre pela praia ou pelo campo e a figura de uma outra escravizada. Podem servir como material introdutório para a discussão de temas como liberdade, escravidão e determinações sociais, relações de poder, etc. Recorte, remontagem, discussão. (b) A figura de soldados em guerra. Podem ser discutidos, a partir dela, questões éticas como a guerra, conflitos humanos, morte em escala, nazismo (caso a figura esteja relacionada ao nazismo e à II Guerra Mundial), etc. (c) Outras, conforme os conteúdos planejados e interesses em assuntos para discussões em sala de aula.

De preferência, retirar as imagens tiradas da internet ou cópias xerox, a fim de não danificar livros e revistas.

Colocar as cópias em envelopes e entregá-los a grupos de dois a dois estudantes. Após a (re)montagem dos grupos, solicitar que seja feito um círculo e, a partir dele, o debate, pedindo que cada estudante da sala participe, dando sua opinião. Feito isto, caberá ao(à) professor(a) fazer as considerações gerais e finais.

Tais figuras, de preferência de tamanhos grandes ou médios, para que possam ser bem visualizadas, podem servir como introdução e/ou até conclusão dos conteúdos estudados.

É uma atividade que contém caráter educativo e lúdico, ao mesmo tempo. A (re)montagem da figura recortada pode ajudar até mesmo na memorização dos conteúdos estudados.

É importante acompanhar essa atividade de leituras prévias dos conteúdos discutidos a partir daquelas figuras.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O trabalho com vídeos montados pelos estudantes como meio didático de ensino de Filosofia. Arte nas ruas - um trabalho interdisciplinar.







O vídeo acima, trabalhado no Windows Movie Maker, no Laboratório de Infomática do Col. Est. Dep. José de Assis, é fruto de um trabalho interdisciplinar entre os conteúdos Filosofia e Arte. É um trabalho simples, mas que demandou boas horas de elaboração de um grupo de estudantes da terceira série do Ensino Médio. Este trabalho foi feito no mês de junho de 2011.




Trabalhar interdisciplinarmente, sem dúvida, enriquece o aprendizado dos estudantes e possibilita-lhes perceber que o conhecimento não é algo estanque, mas fruto de empreitada coletiva.




Acompanhou a elaboração deste vídeo uma apresentação para a turma toda e debate de ideias em torno do tema em desenvolvimento. Por exemplo: Por que o ser humano tem necessidade de arte, a ponto de utilizá-la e expressá-la até mesmo nas ruas, além de museus, quadros, músicas, nos mais diversos ambientes? Sem arte como, talvez, seria a vida humana? Que relação existe entre as artes de rua e as demais formas de arte, como as pinturas em muros e as pinturas contemporâneas, os quadros renascentistas, a pintura japonesa e outras, de outros povos? Como as diferentes formas de arte se integram, possibilitando uma expressão mais ampla (e própria da arte) da vida humana?




O tema "Arte nas Ruas" foi escolhido em razão de sua atualidade e do desejo do grupo de estudantes em conhecer mais a respeito do mundo social em que vivem.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O POSITIVISMO DE AUGUSTO COMTE (1798 - 1857) (Prof. José Antônio Brazão.)

Que relação existe entre a bandeira nacional e a filosofia? Uma relação muito forte, pois é uma bandeira que tem traços marcantes da filosofia chamada POSITIVISMO, desenvolvida pelo filósofo francês Auguste(Augusto) Comte (1798 – 1857). Dentre os militares brasileiros que proclamaram a República encontravam-se muitos que foram fortemente influenciados pelas novas ideias do positivismo.
Mas o que afirmava o positivismo? O positivismo afirmava que todo conhecimento humano, para ser digno de veracidade, precisa ser fundamentado cientificamente, isto é, ter comprovação, poder ser demonstrado empiricamente (experimentalmente). Positivo, portanto, é o que pode ser mensurado, pesado, calculado, experimentado, comprovado e demonstrado cientificamente. Daí uma grande valorização das ciências físicas, naturais e matemáticas por Augusto Comte.
Curiosamente, a bandeira nacional brasileira carrega consigo figuras matemáticas claras: o retângulo, o losango, o círculo e linhas curvas dentro das quais encontra-se escrita a frase “Ordem e Progresso”. Este foi um lema positivista por excelência adotado por Augusto Comte. A ordem social é necessária ao progresso e o desenvolvimento da sociedade. O progresso é possível pelo desenvolvimento e o uso adequado das ciências, das quais se destacam as citadas acima, bem como pela formação de bons cidadãos.
De acordo com a Enciclopédia Encarta, Comte
“Afirmava que do estudo empírico do processo histórico dependia uma lei que denominou dos três estágios, ou fases, pelas quais deve passar cada ramo do saber. Estas fases são:
– o teológico ou fictício, em que os fatos se explicam de modo elementar místico-religioso
– o metafísico ou abstrato, em que se invocam teorias filosóficas
– o científico ou positivo, que busca causas ou leis científicas.
Este método deve ser aplicado a todas as atividades humanas, especialmente às ciências sociais, uma vez que o positivismo só considera como fonte de conhecimento o saber empírico. Seu pensamento está estruturado no Curso de filosofia positiva (1839-1842) e O sistema da política positiva (1852-1854).” (Enciclopédia Microsoft® Encarta®. © 1993-2001 Microsoft Corporation.)
De acordo com Comte, a história da humanidade passou por esses três estágios – o teológico ou fictício, o metafísico ou abstrato e, finalmente, o científico ou positivo. No teológico, o apelo humano ao transcendente, a busca de uma explicação da natureza e do mundo partindo do sobrenatural e pela interação, intervenção, de elementos divinos. No estágio metafísico, ainda que não tenham sido liquidadas as explicações sobrenaturalísticas, novos conceitos adentram, como ser, substância e outros relacionados, principalmente, à filosofia. No estágio positivo, a humanidade alcança, enfim, uma etapa de grande evolução na compreensão do universo e da realidade natural e até mesmo social, pois o modo de explicar o mundo passa a basear-se fortemente nas explicações dadas pelas ciências físicas, matemáticas, e naturais, fundadas na demonstração e na comprovação das ideias levantadas e nas leis naturais descobertas.
No entanto, apesar da crítica dura à metafísica, tida como sendo destituída de fundamentos objetivos e de demonstrações precisas, Comte fundou uma religião positivista, cultuando a Humanidade e os grandes nomes da ciência e da cultura humanas. Elaborou até mesmo um Catecismo Positivista.
Sem dúvida nenhuma, Comte é filho de seu tempo, da Revolução Industrial e das grandes descobertas científicas que vinham ocorrendo havia alguns séculos. Tais descobertas demonstraram o quanto os seres humanos são capazes de descobrir e compreender as leis que regem a natureza, utilizando-as a seu favor. Esse mesmo ser humano como ser capaz de transformar a natureza e o mundo que o rodeia, abrindo sua compreensão também a respeito do universo, do qual faz parte, que é regido por leis matematicamente precisas. Pelo menos desde o Renascimento Científico, com destaque para os séculos XVI e XVII, vinham, de fato, se abrindo os horizontes do entendimento humano a respeito do mundo e inclusive de si mesmo. Tudo isto, com certeza, fez criar na mente de Comte a ideia de um progresso constante na humanidade, pautado pelas definições ou determinações das ciências.
No Brasil, como foi dito logo no começo, a influência do positivismo comteano foi marcante, com destaque para representantes políticos e militares do final do século XIX e ao longo do XX. E se a bandeira nacional brasileira é marcadamente positivista, também o hino nacional, com sua exaltação das grandezas do país e do povo. No Brasil, inclusive, há templos positivistas, fundados entre fins do século XIX e no decorrer do século XX.
Para saber mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Auguste_Comte
http://www.oocities.org/doutrinapositivista/vidaeobr.htm
http://www.culturabrasil.pro.br/comte.htm
http://cac-php.unioeste.br/projetos/gpps/midia/seminario2/trabalhos/educacao/medu32.pdf
http://www.augustecomte.org/site/index.php?id=33
http://www.augustecomte.org/

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O EVOLUCIONISMO (Prof. José Antônio Brazão.)

Dentre as ideias que causaram mais impacto sobre o modo de compreender a realidade humana, nos últimos séculos, encontra-se o evolucionismo.
O evolucionismo afirma que todas as espécies vivas passaram e continuarão passando por um longo processo de evolução, causado por uma série de mutações (pequenas mudanças, transformações ou alterações) ocorridas em indivíduos pertencentes àquelas espécies, tendo formado, inclusive, novas espécies, capazes de sobreviver, mais fortes e resistentes, capazes de passar aos seus descendentes suas novas características.
Dentre os que pesquisaram e defenderam a existência do processo de evolução encontram-se o francês Jean Baptiste de Lamarck, que viveu entre 1744 e 1829, e os ingleses Alfred Russell Wallace (1823 – 1913) e Charles Robert Darwin (1809 – 1882). De acordo com o primeiro, os seres vivos cujos órgãos entraram em desuso acabaram perdendo-os e outros, necessários, foram surgindo. Por sua vez, de acordo com Wallace e Darwin, tendo-se este destacado, as diferentes espécies foram passando por um lento, longo e paulatino processo de seleção natural, no qual somente os indivíduos mais fortes e resistentes, foram capazes de continuar existindo e se procriando. A seleção natural foi um processo lento, que durou, segundo Darwin, milhões de anos. Hoje se sabe que consta de bilhões de anos essa evolução.
Que estudos, conhecimentos e descobertas comprovam ou evidenciam claramente a real existência da evolução dos seres vivos?
Primeiramente, a existência de milhares e milhares, talvez milhões, de fósseis em todo o mundo. Fósseis são restos, esqueletos e impressões de animais e plantas em rochas. Encontram-se, hoje, em sítios arqueológicos, museus, universidades e institutos de pesquisa espalhados pelo mundo afora. Não há como negar a existência dos seres vivos que deixaram seus registros fósseis.
Em segundo lugar, o uso da geologia, que afirma que rochas e sedimentos rochosos sofreram processos de transformação e acomodação que duraram milhões – hoje se sabe que são bilhões – de anos e que continuam ocorrendo na natureza. A comprovação geológica da deriva continental por meio de satélites e outros instrumentos, cálculos e comparações precisas, é uma boa comprovação do movimento existente entre as rochas do planeta Terra.
Em terceiro lugar, o uso do teste de carbono 14, isótopo radioativo do elemento químico carbono que permite uma datação mais precisa de rochas e fósseis. Muitos destes, por meio desse teste, puderam e podem ser comprovadamente ser datados em milhões e milhões de anos.
Em quarto lugar, a existência de muitas espécies de seres vivos, adaptadas a ambientes diferentes. Por exemplo: animais, plantas, pássaros e outras espécies. Se fossem imutáveis, não haveriam espécies variadas de seres vivos, nem de indivíduos dentro de uma mesma espécie. Portanto, o que pode ter feito tal variação só pode ter sido o processo de evolução.
Enfim, os estudos da GENÉTICA, com o estudo do DNA dos seres humanos e dos seres vivos. O estudo do DNA permitiu perceber a existência de mutações na cadeia de moléculas que o formam. Quaisquer alterações na cadeia de moléculas do DNA podem trazer modificações substanciais nos seres vivos, seja para o bem (por exemplo, maior resistência, força, capacidade de reproduzir e até longevidade), seja para o mal (por exemplo, falta de órgãos ou outros defeitos).
O evolucionismo afirma que os seres vivos surgiram a partir de formas simples de vida, como os organismos unicelulares (que têm uma única célula), como as bactérias, os protozoários e os vírus. Estes, por sua vez, nasceram da formação de uma molécula primitiva, parecida com o DNA ou que já tinha forma similar a este, em volta da qual foi-se formando uma parede e pequenos órgãos, a primeira célula. Essa molécula tinha a capacidade de duplicar-se e, com o passar de um longo período de tempo, células foram sendo agregadas umas às outras, formando organismos pluricelulares. A Terra primitiva forneceu condições para isto. O restante da história é que o processo de evolução dos seres vivos vem ocorrendo desde então.
O evolucionismo provocou muita celeuma (debates acirrados) e sofreu muitas críticas ao longo dos últimos séculos, em razão do tradicionalismo e a ortodoxia religiosos e, na época de Darwin, também o tradicionalismo científico, que defendiam a imutabilidade das espécies. No caso da ortodoxia religiosa, o criacionismo judaico-cristão, por exemplo, defende que Deus criou o mundo em sete dias, organizando etapa por etapa, até criar os seres vivos nos últimos desses mesmos dias. Por fim, no sexto dia, Deus criou o ser humano – “homem e mulher os criou”, como diz o texto do Gênesis, cap. 1 – e deu-lhe a ordem de procriar, encher a terra e dominar sobre todos os seres existentes, seja debaixo d’água, na terra ou no ar.
O evolucionismo opõe-se diretamente à teoria da imutabilidade das espécies, inclusive da espécie humana. Os seres humanos, que se acreditavam criados por Deus, de forma imutável e definida, como afirma a Bíblia, perderam seu posto de senhores da criação e passaram a ser vistos como uma espécie de animais que, como as outras, passou também por aquele longo processo de evolução. Isto inquieta as pessoas e levanta questões até mesmo a respeito da existência de Deus. Se o processo de desenvolvimento dos seres vivos pode acontecer por si, como fica Deus?
Há, sem dúvida, atualmente, posições favoráreis e contrárias ao evolucionismo. No caso daqueles que defendem um diálogo entre o evolucionismo e a teologia (estudo sobre Deus e sobre as doutrinas e os valores religiosos), afirmam que a evolução foi um modo como Deus colocou em andamento a criação das espécies vivas. Mas há também aqueles que defendem a impossibilidade desse diálogo. Tanto existem ortodoxos, em diversas religiões, que defendem acirradamente a imutabilidade das espécies, como há ateus, para os quais Deus é uma criação humana.
O certo é que, qualquer que seja a posição, o mais importante é que haja diálogo e abertura para aceitar o diverso, a fim de que tudo possa encaminhar-se sem conflitos graves.
É certo também que a teoria evolucionista contribui decisivamente para uma maior compreensão da existência da vida na terra, do funcionamento dos órgãos e do cérebro dos seres vivos, como o do ser humano, que dispõe de camadas profundas mais primitivas até a camada externa, próxima às meninges, que nos demarca como seres pensantes e criativos. Ajuda a entender até mesmo a atual proibição do Ministério da Saúde da venda de remédios sem receita médica que, indevidamente tomados, podem contribuir para fazer surgir novas cepas de bactérias e microorganismos extremamente resistentes a remédios e tratamentos, como, de fato, tem ocorrido em alguns lugares do mundo atual, e que inclusive ocorreu no Brasil. Bactérias capazes de adaptar-se à ação de antibióticos podem ser extremamente perigosas e nocivas à saúde humana, tendo chegado até a matar algumas pessoas! Um pequeno exemplo disto foi (e é) o vírus H1N1, o vírus da gripe suína, que matou muita gente pelo mundo afora há pouco tempo atrás.
O processo de evolução dos seres vivos continua e continuará, ao longo dos próximos milênios e milhões de anos que estão por vir. Não acabou. Pelo que se pode ver, claramente, é que é um processo contínuo e permanente da natureza. Até mesmo os seres humanos continuarão passando por ele. A interferência tecnológica também conta. Para se ter uma ideia, a produção de vacinas, de clones, os organismos geneticamente modificados, a produção de remédios, dentre outros, são fatores de ação e de interferência direta dos seres humanos no processo de evolução. Até mesmo acidentes nucleares, que infelizmente ocorrem, como se pôde ver vem Chernobyl (na Rússia, em 1986) e em Fukushima (no Japão, em 2011), podem trazer alterações genéticas diretas e ainda graves no processo de vida e de evolução dos seres vivos.
Os seres humanos alcançaram grande desenvolvimento ou evolução tecnológica no transcurso de sua história e, especialmente, dos últimos séculos e décadas. É preciso também que haja evolução no que diz respeito à vivência dos valores éticos, de respeito à vida de cada ser humano e de cada ser vivo existente, bem como um empenho coletivo e individual para que as condições de vida para todos melhorem cada vez mais.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES:
1ª) UTILIZAR O VÍDEO COSMOS, EPISÓDIO 2, DE CARL SAGAN + FICHA DE VÍDEO (individual ou em grupo). E/OU
2ª) UTILIZAR O VÍDEO DA TV ESCOLA INTITULADO “NO JARDIM DE DARWIN” E DOIS OUTROS QUE SÃO SUA SEQUÊNCIA, dispostos no site da TV Escola: http://tvescola.mec.gov.br , na VIDEOTECA. + FICHA DE VÍDEO (individual ou em grupo).

OBRAS COMPLETAS DE CHARLES DARWIN online: (Use tradutores online. Podem ajudar.)

http://darwin-online.org.uk/

segunda-feira, 30 de maio de 2011

KARL MARX (1818 - 1883) (Prof. José Antônio Brazão.)

Karl Marx, alemão, viveu no século XIX e teve uma tripla formação intelectual: economia, filosofia e história.
Para bem compreender suas ideias é preciso situá-lo no contexto histórico em que viveu. O século XIX presenciou a afirmação definitiva do modo de produção capitalista. A burguesia, que vinha sendo ainda mais enriquecida com a revolução industrial, há mais de um século, reforçou sua exploração sobre os trabalhadores, cuja forma principal era e ainda é o que Marx chamou de mais valia, isto é, um trabalho extra, não pago ao trabalhador, que se transforma em lucro para os capitalistas, dentre os quais podiam se destacar industriais, comerciantes, grandes fazendeiros, grandes banqueiros e outros enriquecidos.
A exploração dos trabalhadores nas fábricas era terrível e fonte de altos lucros para os capitalistas. Homens, mulheres e até crianças trabalhavam 14, 15, 16 horas a fio, em troca de um mísero salário. A imensa miséria do proletariado (trabalhadores) constrastava com a enorme riqueza dos poucos donos dos meios de produção, do capital. Não havia direitos trabalhistas definidos legalmente, de forma nítida. Estes, com efeito, vieram a ser fruto de muitas lutas e mesmo de mortes de muitos trabalhadores. Milhares e milhares de crianças eram obrigadas a trabalhar nas fábricas para complementar aquilo que os pais recebiam e, como as mulheres, recebiam pagamentos inferiores aos dos homens e adultos.
O que os trabalhadores recebiam servia basicamente para a sobrevivência e à reprodução da força de trabalho, ou seja, poder trabalhar no dia seguinte e ser obrigado a isto. Os lucros dos capitalistas eram exorbitantes.
Diante desta realidade, e já tendo tido contato com sindicatos e grupos de luta em prol dos trabalhadores, Marx engajou nessa luta, seja diretamente, através de participação em passeatas, manifestações e no Partido Comunista, seja através de um estudo sistemático e minucioso do funcionamento do sistema capitalista, buscando uma compreensão mais profunda de suas raízes na própria história humana. Marx, de fato, foi um grande pesquisador, cientista político-econômico e filósofo, homem muito culto. Todas as suas obras praticamente nasceram desse empenho pela compreensão da realidade histórica, econômica e filosófica.
Dentre as pessoas com quem conviveu encontrou-se Friedrich Engels, filho de um industrial alemão. Outro homem de excepcional cultura que, como Marx, também interessava-se por economia, história e filosofia, além de dispor de grande cultura geral. Sua parceria com Marx se manifestou na participação no Partido Comunista e na elaboração de diversas obras pessoais e, algumas, conjuntas, sempre trocando ideias entre si. Juntos, a pedido do Partido Comunista, elaboraram o Manifesto do Partido Comunista (ou, simplesmente, Manifesto Comunista), no qual tratam de temas como a exploração capitalista, as lutas dos trabalhadores, as contradições internas do capitalismo, o socialismo e o comunismo, terminando por convocar os trabalhadores do mundo inteiro à luta em prol de uma nova sociedade, livre das relações de exploração entre os homens e, mais especificamente, livre da exploração capitalista. A frase final é, justamente: “Trabalhadores de todos os países, uni-vos.”
Dentre as influências teóricas sofridas pelo pensamento de Karl Marx encontram-se a dialética hegeliana, a economia política inglesa e o pensamento dos chamados socialistas utópicos.
Hegel (1770 – 1831), filósofo alemão, havia dito que o espírito (a cultura e as realizações intelectuais) evolui dialeticamente, isto é, por meio da contradição interna, que se encontra em sua evolução, com diferentes etapas, não destruídas ou separadas de forma estanque, mas que são assimiladas e superadas através de um processo de tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (negação da negação, envolvendo as etapas anteriores). A síntese torna-se uma tese que, por sua vez, carregando consigo sua própria contradição, é superada pela antítese e esta pela síntese, continuamente. O espírito absoluto é o auge dessa evolução, etapa na qual o espírito se reconhece como realizador da história. Eis aí uma dialética idealista.
Marx, tendo estudado a dialética hegeliana, aplicou-a na compreensão da história concreta humana, vendo-a como uma realização de pessoas concretas e não como resultante da evolução do espírito. Muito pelo contrário, Marx perceberá que mesmo as realizações espirituais, intelectuais e ideais humanas são fruto, em sua base, de relações materiais de produção que se estabelecem entre as pessoas, a partir do momento em que passam a transformar a natureza através de seu trabalho.
A dialética explica a história por meio da contradição, tendo, em Marx, um caráter materialista. Para Marx, com efeito, a história humana manifesta conflitos que brotam no interior dos modos de produção que surgem ao longo daquela, com destaque para os conflitos entre grupos e classes sociais determinados.
Marx parte da produção concreta da vida material humana e afirma que ela é o que define seu modo de viver, de ser e de agir, até mesmo suas idéias e realizações culturais, como o direito, a educação, a religião, etc. O modo de produção de uma determinada época determina a vida das pessoas, ainda que não absolutamente, mas dialeticamente, pois, dentro de si mesmo, ele carrega sua contradição. Por exemplo: a burguesia que viria a tomar o poder, depois de vários séculos, nasceu dentro do próprio modo de produção feudal.
A produção da vida material é o que move a história e, mais especificamente, transformada em conflito, através da luta de classes: senhores x escravos, patrícios x plebeus, burgueses x senhores feudais, proletariado x burguesia, etc. De acordo com a Wikipedia:
“Modo de produção, em economia marxista, é a forma de não organização socioeconômica associada a uma determinada etapa de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção. Reúne as características do trabalho preconizado, seja ele artesanal, manufaturado ou industrial. São constituídos pelo objeto sobre o qual se trabalha e por todos os meios de trabalho necessários à produção (instrumentos ou ferramentas, máquinas, oficinas, fábricas, etc.” (In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Modo_de_produ%C3%A7%C3%A3o)
Dentre os modos de produção surgidos no transcurso da história estão: o modo de produção primitivo, o asiático, escravista, feudal, capitalista e comunista.
O modo de produção primitivo caracterizou-se por uma forma de produzir simples, baseada na caça e na coleta, principalmente, não havendo divisão acentuada do trabalho nem divisão em classes sociais. Porém, à medida em que as relações de trabalho foram se complexificando, começou a ocorrer uma divisão do trabalho cada vez mais acentuada e nítida: entre o trabalho da mulher e o do homem, entre o trabalho manual e o intelectual (incluindo-se aqui o sagrado).
Alguns membros da comunidade começaram a usurpar parte dos bens pertencentes à coletividade, tomando-os como seus. Além disto, aprenderam que, escravizando outros, poderiam desocupar-se dos trabalhos duros e difíceis e colocar outros para trabalhar em seu lugar. Surgiu, então, o modo de produção escravista. Como seu próprio nome dias, sua base foi a escravidão. Os escravos advinham, basicamente, de algumas fontes, como a guerra (todos os sobreviventes derrotados eram escravizados) e as dívidas.
Dentre as sociedades escravistas antigas, no mundo ocidental, as que mais se destacaram foram a Grécia e Roma. A escravidão predominou fortemente nessas duas sociedades, sendo que o escravo era tido como uma mercadoria. Contudo, o escravismo reapareceu em outras épocas e em outros modos de produção. No mundo moderno ocidental, destacadamente a partir do século XVI em diante, a escravidão de indígenas e, sobretudo, de negros africanos foi muito acentuada.
Quanto ao modo de produção asiático:
“O chamado modo de produção asiático ou sociedades hidráulicas, caracteriza os primeiros Estados surgidos na Ásia Oriental, Índia, China e Egito. A agricultura, base da economia desses Estados, era praticada por comunidades de camponeses presos à terra, que não podiam abandonar seu local de trabalho e viviam submetidos a um regime de trabalho compulsório. Na verdade, esses camponeses (ou aldeões) tinham acesso à coletividade das terras de sua comunidade, ou seja, pelo fato de pertencerem a tal comunidade, eles tinham o direito e o dever de cultivar as terras desta.” (In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Modo_de_produ%C3%A7%C3%A3o_asi%C3%A1tico)
O trabalho compulsório era um trabalho obrigatório que era prestado pelos camponeses e cidadãos pobres, com destaque para as obras realizadas pelo Estado. No Egito antigo, por exemplo, em construções, monumentos, na construção de canais para o escoamento das águas e da irrigação, etc. Havia também escravidão, sem dúvida. Por exemplo, para citar um documento antigo: na Bíblia fala-se da escravidão de José, um dos patriarcas, no Egito (ver livro do Gênesis), juntamente com outros, e dos hebreus (no livro do Êxodo).
Na Europa, com a decadência do Império Romano, que adotara o modo de produção escravista, por volta dos séculos IV/V da era cristã, foi-se formando uma maneira diferente de produzir: grandes unidades de terras (latifúndios) foram se formando, controladas por senhores e trabalhadas por servos (camponeses), que não eram escravos, mas estavam ligados à terra. Progressivamente, foi-se formando uma sociedade estratificada, tendo o poder político sido concentrado nas mãos dos senhores feudais e da Igreja Católica Romana – também detentora de terras, do poder religioso e intelectual, além de exercer forte influência política. Formou-se, então, paulatinamente, o que viria a ser chamado modo de produção feudal. A produção era basicamente a produção agrícola. Os servos pagavam tributos, seja em espécie, seja, com o passar do tempo, em moeda, para os senhores feudais e a Igreja, e ainda trabalhavam nas terras dos respectivos senhores feudais em determinados dias da semana. Dispunham de parte da terra do feudo e nela trabalhavam.
Os senhores feudais tinham sob seu comando exércitos próprios. Diversos feudos formavam reinos, dirigidos por reis que, por sua vez, eram senhores feudais e definidos entre seus iguais, cada rei sendo um primus inter pares (latim), isto é, o primeiro entre os iguais. A base da sociedade, como se pôde ver acima, era composta, principalmente, pelos servos (camponeses), mas havia também tecelões, sapateiros e outros artesãos, além de comerciantes.
O comércio não acabou no modo de produção feudal. Com o crescimento populacional e das cidades, esse comércio foi-se intensificando cada vez mais. Com isto, a burguesia (comerciantes) fortaleceu-se gradativamente, enriquecendo-se. O capitalismo estava, então, em gestação. Posteriormente, com as grandes navegações, o Renascimento, a Reforma e a Revolução Industrial, a burguesia foi tomando, cada vez mais, espaços no meio social, até que, entre os séculos XVII e, sobretudo, XVIII e XIX, foi-se rebelando contra a ordem feudal e implementou sociedades cujo poder passou a ser dirigido por ela mesma. Exemplos disto foram as Revoluções Inglesas, Industrial, Francesa e a Independência dos EUA. A base desse novo modo de produção capitalista continuará sendo a exploração do trabalhador, com a destituição deste em relação às suas ferramentas e a outros meios de produção, que passaram para as mãos da burguesia. A mais valia passou a ser um dos instrumentos de exploração dos trabalhadores e de enriquecimento burguês. No entanto, de acordo com Marx, o capitalismo criou também aqueles que serão os responsáveis por sua queda: os componentes do proletariado.
Marx e Engels defenderam a luta dos trabalhadores e a implementação do socialismo e, posteriormente, do comunismo. Suas ideias, sem dúvida, influenciaram, no século XX, as mentes daqueles que viriam a levar adiante a Revolução Russa, a Revolução Chinesa, a Revolução Cubana e tantas outras, além de partidos e sindicatos que se espalharam, praticamente, pelo mundo todo em defesa das causas dos trabalhadores.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

FRIEDRICH NIETZSCHE (séc. XIX) (Prof. José Antônio Brazão.)

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão. Descendente de uma família de pastores evangélicos, desde pequeno Nietzsche demonstrou interesse pelo conhecimento humanístico, científico e religioso. A família desejava-o pastor, no futuro.Lia muito e veio a tornar-se um grande erudito. Ainda muito jovem, tornou-se doutor em filologia e professor universitário.

Junto com a filologia, um forte interesse pela filosofia. Dentre seus estudos, a descoberta da existência de dois princípios básicos da arte da Grécia antiga: o apolíneo e o dionisíaco, nomes relacionados, respectivamente, aos deuses Apolo e Dionísio (também Dioniso ou Baco). O primeiro é o princípio da ordem e da unidade. O segundo, da dissolução e do desregramento. A harmonização de ambos encontra-se na escultura, na arquitetura, no teatro, na arte e na cultura gregas de um modo geral. Esse estudo aparece já em O Nascimento da Tragédia, livro que não rendeu a Nietzsche muita divulgação em seu tempo. Apolo (Hélios, no grego) e Dionísio foram deuses gregos muito cultuados na antiguidade e tinham templos em diversos lugares da Grécia antiga. Apolo (Hélios) era o deus do Sol e da luz, responsável por guiar o carro do Sol em seu percurso diurno, em sua travessia pela abóbada celeste.

O Sol simboliza vida e poder. Sua luz é necessária à manutenção da vida de todos os seres vivos, passando pelas plantas, os animais, até os seres humanos. Ademais, a luz permite ver com nitidez todas as coisas e distinguir todas as cores, sendo fundamental para a percepção da beleza daquelas coisas e mesmo para os afazeres diários dos seres humanos. De fato, é durante o dia que a imensa maioria das atividades humanas são realizadas. Apolo era ainda de fundamental importância para a agricultura. Sem sua luz as plantas não crescem! Por esta e pelas razões já expostas, o culto de Apolo tinha um imenso valor e grande significado para os antigos gregos.

Dionísio ou Baco, por sua vez, era o deus das vinhas e do vinho. A tomada de vinho traz alegria e ânimo às pessoas, portanto Dionísio liga-se também à alegria. Mas o consumo exagerado de vinho traz o desregramento, isto é, a fuga das regras convencionais da sociedade, fazendo liberar forças instintivas e desejos. Curiosamente, uma das formas de culto de Dionísio eram as orgias sagradas, realizadas em templos onde ele era cultuado. Nesse sentido, Baco representava algo imprescindível à vida pessoal e social: a fecundidade, presente na vida de plantas, animais, pessoas e outras formas de vida. Seu culto era, pois, de grande importância para a agricultura. Seu culto garantia a fecundidade de campos e vinhedos. A fecundidade dos animais, por exemplo, possibilita a reprodução de outros alimentos necessários à vida humana e às trocas econômicas, como a carne, a lã, o leite e outros produtos. A fecundidade dos seres humanos garante a continuidade da vida social. Logo, o culto de Dionísio também contribuía para manter essa fecundidade necessária.

O princípio apolíneo representa a preocupação com o ordenamento, a seriedade, a regularidade e a perfeição. Contudo, contrapondo-se a ele e, ao mesmo tempo, complementando-o, o princípio dionisíaco representa a despreocupação, a dissolução, a alegria, a fuga das regras, a desordem. Vale lembrar, por exemplo, a embriaguez provocada pelo vinho e o que ela faz com as pessoas. O equilíbrio entre ambos princípios é dialético, conjugando a contradição e a síntese ou interação entre eles. O vinho de Dionísio amolece os membros e solta as pessoas, além de ser uma bebida ou alimento delicioso(a), trazendo prazer ao corpo e ao espírito. Mas o que o desregramento tem em haver com a arte? Muito. Ele permite fugir de regras rígidas que possam tolher a criatividade, dando maior liberdade à expressão. É interessante ver, por exemplo, como a deformidade faz parte de algumas máscaras teatrais gregas, enquanto que o regramento, a forma e a harmonia, próprios do apolíneo, aparecem em outras. Essa dualidade traz um equilíbrio ao interior da representação teatral, permitindo que as mensagens nela contidas fluam com maior flexibilidade, liberdade e vivacidade, sem rigidez, trazendo desconcentração e renovação de energias.

No campo moral, o dionisíaco, em Nietzsche, representa a fuga de regras morais e religiosas rígidas, que possam engessar a vida humana, impedindo seu livre e espontâneo andamento. Uma moral dionisíaca seria aquela em que as regras que regem a vida humana trouxessem consigo maior liberdade e flexibilidade ao agir humano. Isto não quer dizer que não possam e não devam haver leis e regras morais bem estruturadas para a vida social, mas que elas não caiam na rigidez, na inflexibilidade e no moralismo vazios, frutos, muitas vezes, do dogmatismo. Aliada ao moralismo, Nietzsche constatou a massificação das pessoas, destituídas de um pensamento crítico e de uma reflexão mais profunda. O termo utilizado por ele para referir-se a essas pessoas foi “rebanho”, que lembra um conjunto dócil de animais que pastam juntos, obedientes aos chamados e aos comandos do pastor ou vaqueiro.

A falta de reflexão e de conhecimento mais aberto e profundo do mundo faz com que as pessoas encontrem referenciais tão somente em seus guias espirituais, políticos e intelectuais, o que torna fácil o comando daquelas. Fazer parte do “rebanho” é, de certo modo, agradável e não incomoda. A necessidade de fazer parte de algo comum é, sem dúvida, intrínseca aos seres humanos. Porém, o perigo encontra-se no momento em que a mentalidade formada em comum, sob o comando dos líderes, embota a diferenciação no modo de pensar, de sentir, de desejar e até de agir. Para exemplificar isto, a crítica severa que Nietzsche faz à mudança ocorrida na música do compositor Richard Wagner que, inebriado pelo sucesso e aclamado até mesmo diante dos poderes constituídos, alterou seu modo de compor, tornando suas músicas mais ao gosto do povo e daqueles que o dirigem. Seus concertos chegaram a fazer enorme sucesso e a serem assistidos por muita gente. Se, em um primeiro momento, Nietzsche acreditou haver na música wagneriana uma manifestação do dionisíaco, agora passa a ver sua decadência, pendendo para a mentalidade comum do “rebanho”. Nietzsche, inclusive, perdeu sua amizade com Wagner. Eis aqui um exemplo da ação e da força da mentalidade de rebanho, presente até mesmo no gosto artístico massificado das pessoas.

Um outro exemplo em que a mentalidade de rebanho se manifestava em seu tempo, de acordo com Nietzsche, era a religião, com destaque para o cristianismo, que continuava a agregar muitas pessoas ao seu redor, formando sua mentalidade (modo de pensar e conceber o mundo) e moldando seu modo de agir. Um perigo real que Nietzsche via na mentalidade religiosa era a não aceitação da contestação e do diferente, fruto do dogmatismo, aliada à falta de reflexão e de opinião próprias, tudo gravado a fundo na mente das pessoas. Para se ter uma ideia, vale lembrar que, no século XIX, a teoria de Darwin[1] sobre a evolução das espécies foi duramente criticada pelas igrejas e não aceita por muitas pessoas, vindo a firmar-se um bom tempo depois com novas descobertas e evidências advindas de diversas ciências, como a arqueologia e a genética, por exemplo. Voltando um pouquinho no tempo, Immanuel Kant[2], outro filósofo alemão, perguntado a respeito do que seria o iluminismo, já havia chamado a atenção para a falta de um pensar crítico e reflexivo das pessoas, ao escrever que o iluminismo consistiria na “saída da menoridade”, implicando capacidade de pensar pela própria cabeça, sem a condução de outros. E, de acordo com Kant, para que as pessoas pudessem pensar por si próprias seria preciso que lhes fosse dada a devida liberdade de pensamento, que precisaria ser assegurada pelos próprios governantes.

No século XX, Theodor Adorno e Max Horkheimer, filósofos alemães, chamaram a atenção para a “indústria cultural”, ou seja, para uma nova forma massificada de produzir cultura, capaz de transformar em comuns e aceitos por multidões certos estilos de músicas e gostos artístico-culturais, produção cultural aliada à produção econômica capitalista e à geração de altos lucros às empresas em geral e, mais diretamente, àquelas produtoras diretas dos novos produtos culturais. A massificação retira das pessoas a capacidade de pensarem por si próprias, de formular seu próprios conceitos de mundo e de agirem no sentido de buscar uma mudança.

Adorno e Horkheimer foram grandes leitores de Nietzsche, Kant, Marx e de outros pensadores. No mundo atual, em pleno século XXI, a indústria cultural continua existindo e atuando firmemente. A reprodução do capital depende do consumo, por parte de milhões de pessoas pelo Brasil e pelo mundo afora, de produtos culturais os mais diferenciados. Para incentivá-lo, a massificação[3] tornar-se valiosa, sendo incentivada e promovida principalmente pelos meios de comunicação social, com destaque direto para a televisão, com o uso conjugado de imagens em movimento e sons, por montagens elaboradas e transmitidas por profissionais muito bem preparados. A mentalidade de “rebanho” se manifesta nitidamente na moda, constantemente revista e renovada, na assistência de programas televisivos comuns, em estilos de músicas, estilos de vida e valores sutilmente despejados sobre as pessoas, como o consumismo, chegando a impor-se sobre elas, moldando seus gostos e interesses de acordo com os interesses do capital, servindo tanto a propósitos econômicos quanto políticos, como a manutenção do status quo sócio-econômico-político. Indubitavelmente, o pensamento de Nietzsche, aqui, ao final conjugado com outras leituras de pensadores que foram fortemente influenciados por suas ideias, adaptado e relido, continua muito atual, valendo a pena ser lido e estudado.

E, dentre suas obras, sugestões de leituras: Além do Bem e do Mal, A Gaia Ciência, Crepúsculo dos Ídolos, Assim Falou Zaratustra e O nascimento da Tragédia. Nietzsche escreveu ainda uma autobiografia: Ecce Homo.

Outros tópicos ou pontos fundamentais no pensamento de Nietzsche: a morte de Deus, o eterno retorno do mesmo, a oposição ao cristianismo de seu tempo, vontade de poder (ou vontade de potência).

Referências:


[1] Nietzsche conhecia a teoria evolutiva de Darwin, sem dúvida, e viu nela um avanço na compreensão biológica dos seres vivos, ainda que a criticasse por não servir para explicar como a moral dos fracos, com ênfase para seu aspecto religioso, veio a prevalecer. Com efeito, Darwin afirmava que a seleção natural selecionava os mais aptos e mais fortes.
[2] Filósofo estudado e criticado por Nietzsche, em razão do caráter metódico e até certo ponto rígido da moral kantiana. Contudo, aqui E. Kant foi citado justamente por discutir o tema da necessidade de liberdade de pensar. O termo “menoridade” lembra, em Kant, as crianças, que têm necessidade de condução de outras pessoas para se protegerem e das quais, de certo modo, tornam-se dependentes.
[3] Termo atual que Nietzsche não chegou a utilizar, preferindo o termo “rebanho”, mas que aqui foi utilizado para facilitar a compreensão deste. Ambos lembram falta de reflexão própria por parte daqueles que neles estão incluídos.

terça-feira, 29 de março de 2011

DENIS DIDEROT (1713 - 1784) (Prof. José Antônio Brazão.)

Filósofo francês, iluminista. Também grande escritor. Teve uma sólida formação, tornando-se um homem extremamente culto, dispondo de conhecimentos em várias áreas, desde artes, até ciências, passando pelo teatro e outras áreas, como a literatura. Seu pensamento, como o de vários outros iluministas de seu tempo, voltou-se para uma crítica ferrenha, até mesmo satírica, da sociedade de seu tempo – uma sociedade dividida claramente em três estados: o primeiro estado, composto pelo clero, o segundo estado, composto pela nobreza, e o terceiro, composto pelos servos e a burguesia. Os dois primeiros exerciam o poder político e o controle da sociedade. O terceiro estado praticamente mantinha economicamente toda a sociedade. Diderot, também como outros, percebeu arbitrariedades cometidas pelo poder político de seu tempo e satirizou-as sem piedade. Mas por que a sátira? Justamente porque, através dela, direta e/ou indiretamente, se pode fazer críticas picantes e expor as baixezas, os conflitos e os interesses que se encontram por trás da vida social, e, ao mesmo tempo, levar ao riso. Conheceu e formou amizades com vários outros filósofos iluministas e intelectuais de seu tempo, como, por exemplo, Voltaire e D’Alembert. Juntamente com Jean Le Ronde D’Alembert, tomou a cargo a publicação de uma vasta obra: a Enciclopédia. Nela pretendiam publicar e, de certa forma, popularizar, uma série de conhecimentos, descobertas, informações científicas, culturais e técnicas as mais diversas, buscando fazer uma síntese do conhecimento humano produzido até então. Para discutir: A Enciclopédia demandou o trabalho de muitos intelectuais, desde filósofos, cientistas, até conhecedores de artes e técnicas aplicadas em diferentes ofícios e profissões. Diderot e D’Alembert não queriam uma obra que tratasse de assuntos puramente abstratos e distantes do tempo em que viviam. Diderot escreve com muita clareza e deixa, em sua obra filosófica e literária, transparecer como eram os costumes e os valores da França e da Europa em que viveu. É um filósofo e escritor sutil, sagaz e fortemente satírico. Sua cultura deveu-se muito à dedicação aos estudos, a muitas leituras e a um grande empenho no aprendizado. Quem lê todo dia passa a escrever bem e a compreender bem, preparando-se melhor para a vida. Lembre-se disto! Diderot viveu numa época de grande desenvolvimento industrial dentro da Europa, a época da Revolução Industrial, de grandes descobertas em várias áreas do conhecimento científico. Tal fato deixou marcas profundas na obra que produziu, alcançando auge na Enciclopédia. Nesta, inclusive, há desenhos detalhados de máquinas e artefatos produzidos pelos seres humanos. Para discutir: 1)Que benefícios e malefícios trouxe a revolução industrial europeia? 2) Sobre quais alicerces econômicos e interesses políticos ela assentou-se? 3) Como ela contribuiu para alicerçar o poder da burguesia europeia e, a seguir, a norte-americana? Deixando o deismo (uma forma de crer em Deus sem o recurso direto à religião), Denis Diderot tornou-se um materialista convicto. Para ele tudo passa a ser visto como formado de matéria, para além da qual nada existe. Por causa das posições sociais, éticas e religiosas, presentes em suas obras e, mais particularmente, na Enciclopédia, foi perseguido! Para discutir: Por que as pessoas, em geral, são perseguidas por suas posições intelectuais e por suas ideias? Diderot morreu em julho de 1784, em Paris, mas sua obra e seu pensamento continuam muito atuais. Questões para debate em sala de aula:
1) Que enciclopédias, hoje existentes, que você conhece? 2) O que as torna diferentes de outros livros? 3) Como elas, geralmente, estão dispostas, separadas? Por que e para que se encontram separadas em tomos e/ou letras? 4) E as enciclopédias virtuais? 5) Por que a Enciclopédia iluminista provocou tanta celeuma, na Europa do século XVIII? 6) Por que razões Diderot e outros filósofos iluministas, como Voltaire, fizeram uso da sátira em seus livros? 7) Como a sátira aparece hoje, na arte e na cultura em geral deste século XXI?
8) O que aponta a sátira utilizada no mundo atual? Que fins ela tem? Onde mais aparece? Por quê?

9) Escreva um pequeno texto, em forma de sátira, a respeito de uma realidade do mundo atualmente existente, no Brasil e/ou no mundo. (Cerca de 20 linhas.)